Investimento em etanol expulsa produtores paulistas de grãos

O milho foi o que representou a maior queda de área, passando de 1,23 milhão de hectares em 1996 para 667 mil hectares em 2008, queda de 84%

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A valorização das terras desencadeada pelos investimentos em etanol foi um dos principais motivos para os canaviais “roubarem” espaço dos grãos no Estado de São Paulo nos últimos 12 anos. O Levantamento Censitário das Unidades de Produção Agropecuária (Lupa), com informações detalhadas sobre toda a produção agropecuária, corrobora a opinião de especialistas que já apontavam o predomínio sucroalcooleiro nos últimos anos. A análise foi feita pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento entre 2007 e 2008 e mostra que a cana-de-açúcar ocupa 5,4 milhões de hectares (31% da área total). No último levantamento realizado em 1995/96, o milho era a maior cultura da região com 1,23 milhão de hectares, o equivalente a 30% da área plantada à época.

“Isso mostra que o Estado não é um mar de cana como muitos dizem. Ou então tínhamos um mar de milho em 1996 e ninguém nunca deu ênfase a isso”, observou João de Almeida Sampaio, secretário da Agricultura do Estado de São Paulo. Segundo avaliou, o estudo demonstra que ainda existe diversificação de culturas no campo paulista, sendo o mais amplo já realizado na esfera estadual. Explicou ainda que o objetivo do governo é contar com dados oficiais para embasar decisões em torno das políticas públicas, como financiamentos e investimentos em pesquisa.

As maiores reduções de área foram observadas entre o milho e a soja. Conforme dados do LUPA a área da soja recuou 80% em doze anos, para 396 mil hectares. “Os investimentos das usinas na região valorizaram as terras. Com isso, muitos venderam as propriedades e mudaram para regiões como Goiás e Mato Grosso, com terras mais baratas e que possibilitam aumento de área e produ-ção”, contou Glauco Monte, analista da FCStone.

O milho foi o que representou a maior queda de área, passando de 1,23 milhão de hectares em 1996 para 667 mil hectares em 2008, queda de 84%. “Esse fator também aumentou a dependência de importação de milho de outros estados”, completou Monte. Segundo estudo realizado pela AgraFNP, o hectare da lavoura de 1º categoria na região saltou R$ 9 mil para R$ 13 mil até junho de 2008, valorização de 44%.

Conhecido pela concentração de granjas, o Estado de São Paulo deverá importar 1,9 milhão de toneladas de milho em 2008, segundo dados da Safras & Mercado. O número é 17% menor na comparação com o ano anterior, o que segundo a consultoria, foi motivado pela boa produtividade no Estado.

Sampaio revela ainda que a área de pastagens recuou 30% nos últimos 12 anos e agora ocupa 40% da área total. Em contrapartida, o rebanho diminuiu 12%. “Isso mostra um maior aproveitamento por hectare, inclusive com integração da lavoura com pecuária”, destacou. Conforme disse, as propriedades consideradas médias possuem cerca de 500 hectares. Na área de pesquisas, o secretário destaca os estudos para criar cafés especiais além do descafeínado. “Temos financiamento para criação de caprinos e ovinos, além de estimular o confinamento com a pecuária integrada”.

Os problemas com pragas foram determinantes para redução na área cultivada com laranja. Em 2008, o espaço das lavouras alcançou 714 mil hectares, queda de 16% na comparação com 1996. Gilberto Tozatti, do grupo de consultores em citros (Gconci), explica que os altos custos e a baixa remuneração também colaboraram para a migração dos produtores. “Muitos trocaram os laranjais pela cana-de-açúcar¨ e outra parte optou pelos eucaliptos”.

Rodrigo Martini, analista da FCStone, revela que a cana é uma cultura que possui um ciclo de cinco anos. “Por isso, mesmo com preços em baixa, como está ocorrendo agora, não é possível que o produtor desista de uma hora para outra”. Mesmo com o mercado negativo, ele não acredita que o setor sucroalcooleiro seja um mico. “As usinas que só produzem etanol podem se complicar. Mas quem consegue produzir açúcar pode se sair melhor”.

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