Setor portuário brasileiro acende o sinal amarelo

Setor portuário brasileiro acende o sinal amarelo

Salários dobraram em cinco anos e tripulação brasileira já está 20% mais cara que a da Alemanha, que era a de custo mais elevado no mundo. Portos carecem de infraestrutura e de mão de obra especializada

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Hamburg Süd transportou mais de 3 milhões de TEUs no ano passado

É pelo setor portuário que cerca de 90% da carga que sai ou chega ao Brasil passa. Nos últimos anos, com o crescimento da economia dos países chamados de Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) houve um forte aumento do tráfego de produtos no comércio no hemisfério sul e os portos brasileiros viveram um verdadeiro boom de demanda por serviços de transporte marítimo. Tanto que hoje há problemas de infraestrutura, armazenamento e de qualificação de mão de obra, que está levando o País a uma verdadeira Caça aos profissionais que trabalham tanto em terra quanto no mar.

A armadora Aliança, pertencente ao Grupo Hamburg Süd deve estrear em águas brasileiras uma nova embarcação, é o Santa Max, com 9 mil TEU de capacidade. De acordo com o representante da empresa, Gustavo Costa, somente alguns portos podem receber esse navio que tem cerca de 300 metros de comprimento. “A falta de infraestrutura dos portos nacionais impede essa embarcação de atender a Região Nordeste, não há capacidade de receber um navio desse tamanho por lá porque não houve investimentos em expansão”, relatou.

O professor doutor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Rui Carlos Botter, que é especialista em logística e transporte, disse durante evento na Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE), em São Paulo, que o País conta com cerca de 20 portos com infraestrutura que classificou como razoável. “Em 1983 estive no Japão e naquela época aquele país que é uma pequena parte do que temos no Brasil, já contava com mais de 700 pontos de atracagem, desses 60 já tinham o tamanho que tem o de Santos, que é maior que temos por aqui”, comparou.

Segundo o Botter, um dos maiores problemas que o Brasil enfrenta é o das filas para ancorar. Essa fase do ciclo de carga ou descarga é o responsável por pelo menos metade do tempo de uma embarcação que chega ao País. Isso gera custos e derruba a produtividade desse modal, que é um dos pilares para a competitividade de indústrias como a da mineração. Companhias como a Vale e até mesmo a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) buscam soluções com a FDTE para melhorar a performance nessa questão. A primeira em diversos pontos do planeta e a CSN no porto de Sepetiba para agilizar o escoamento da produção de minério de ferro, que segundo a empresa, deverá elevar os resultados da companhia nos próximos anos.

Costa lembra que para um navio maior atracar no Brasil é preciso de um grande trabalho de sincronização para alcançar a janela de disponibilidade e reduzir ao máximo o tempo de parada de um navio. Além disso, o terminal onde há a parada deve garantir a estrutura de equipamentos para descarregamento da embarcação e envolve uma dragagem para aumentar o calado, novos trilhos para suportar os berços, entre outros aspectos.

Porém, outro problema que inviabiliza a entrada nos portos brasileiros é a questão humana. “Há uma carência muito grande de mão de obra especializada. Hoje, os salários estão inflacionados de forma que um oficial pode trabalhar um mês comigo, troca por um outro concorrente para receber um salário muito mais alto e no mês seguinte recebe uma proposta para receber o dobro”, descreveu Costa. “Nos últimos cinco anos os salários dobraram para o pessoal embarcado”, completou ele indignado. Segundo seu relato a tripulação brasileira hoje é a mais cara do mundo, custa até 20% a mais que a alemã, antiga detentora dessa posição, mas mesmo assim, falta pessoal.

Para tentar amenizar esse problema, a FDTE promoveu um encontro para lançar ao mercado novos cursos de especialização com um programa de qualificação dos profissionais que atuam na gestão logística portuária e na gestão do transporte marítimo e fluvial. As turmas iniciam as aulas em maio em dois cursos: Gestão Portuária e Gestão do Transporte Marítimo e Fluvial. A entidade indica que esses cursos são voltados aos profissionais graduados e atuantes na área de Logística. Os cursos têm como proposta apresentar e discutir as principais características, atividades e demandas do sistema portuário e a interface com outros modais de transporte.

Ademais, segundo se especula no mercado, a proximidade do início das operações dos empreendimentos da LLX, o Superporto do Açú e do Sudeste tem causado apreensão entre os operadores do setor. Com a falta atual de trabalhadores especializados a tendência é de que o problema fique mais latente com esses dois novos projetos. E de acordo com uma fonte do mercado, há um mote que todos estão indo rumo ao sol, em uma analogia ao logotipo das empresas de Eike Batista e a imagem que é utilizada em sua identidade visual.

“Com projetos daquela envergadura a empresa não vai esperar seis meses até começar a formar sua mão de obra, vai é correr atrás dos mais experientes, fato que deve elevar novamente os salários dos trabalhadores especializados”, analisou a fonte.

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