União Fiat-Chrysler favorece Brasil

Mas o que ocorre lá fora, na área automotiva, também vai repercutir aqui. É o caso da GM que terá seu destino selado dentro de seis semanas

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Que a crise econômica-financeira mundial atingiu o Brasil de forma dura não existe mais dúvida. De certo modo sofremos menos intensamente do que outros países, mas ainda preocupa. A indústria automobilística reagiu bem até o momento pela combinação de renúncia fiscal provisória por parte do governo, capacidade de reação e adaptação do setor, recuperação do crédito (mais caro) e, acima de tudo, a vontade do brasileiro de comprar ou de trocar de carro. A mesma sorte, por exemplo, não teve o ramo de motocicletas.

Mas o que ocorre lá fora, na área automotiva, também vai repercutir aqui. É o caso da GM que terá seu destino selado dentro de seis semanas. Ocorre que o combalido gigante americano não cabe dentro do abismo e por isso mesmo não deve falir. Chega a causar espanto notícias que confundem falência com recuperação judicial, jeito elegante para a velha e conhecida concordata, termo também em desuso por aqui. São capítulos diferentes da legislação de lá.

A solução clássica, dessa vez patrocinada pelo governo americano, é a divisão em duas GMs: a nova (e boa) e a antiga (e ruim). A cisão pode ser feita ou não nos tribunais. A GM boa ficaria apenas com as marcas Chevrolet e Cadillac. Desapareceriam as demais ou talvez vendidas ainda não se sabe para quem, nem quando. O governo já emprestou US$ 13 bilhões e deve colocar mais US$ 20 bilhões. É muito dinheiro? Depende. Em 1998 a alemã Daimler-Benz pagou US$ 36 bilhões pela Chrysler e a revendeu em 2007 por US$ 650 milhões (mais as dívidas) para a empresa de capitalização Cerberus, atual dona.

Entre as dúvidas, paira a situação da subsidiária alemã da GM, a Opel. É difícil sua sobrevivência por possuir fábricas demais na Europa e produtos de menos. E isso tem a ver com o Brasil pois todos os automóveis Chevrolet utilizam arquiteturas Opel, do Celta ao Vectra. No entanto, a engenharia em São Caetano do Sul (SP) está muito desenvolvida e seria fácil criar a partir das plataformas da sul-coreana Daewoo de propriedade total da GM. A marca Chevrolet perdeu 2 pontos percentuais de participação no mercado brasileiro em seis meses. Os atuais 19% são até motivo de surpresa em função do bombardeio de notícias negativas vindas da matriz.

Outro caso é a discutível união Chrysler-Fiat. Se realmente se efetivar, em duas semanas, nada garante que vai dar certo. A complementaridade de produtos importa, mas não é tudo. A fabricante dos Mercedes-Benz também tinha modelos que não concorriam com Dodge, Chrysler ou Jeep e deu no que deu, mesmo com orçamentos generosos. Hoje, nem a empresa americana nem a italiana estão capitalizadas. Mesmo a exportação de carros europeus para os EUA exige tempo e dinheiro, além da recuperação da imagem da marca de Torino aos olhos dos compradores americanos. Adaptar linhas de produção nos EUA com a rapidez exigida é outra encrenca. Pelos menos os dois chefes, Nardelli e Marchione, têm sobrenome italiano…

Na teoria, esse segundo casamento da Chrysler poderia significar repercussões de peso no Brasil. Seria especialmente positivo para a Fiat, se não houver incompatibilidade de gênios e os dotes financeiros de cada um forem suficientes.

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