Brasil Foods deve reduzir despesas com logística

Os cálculos de analistas sobre sinergias geradas a partir da união entre Perdigão e Sadia variam bastante, de R$ 1,6 bilhão a R$ 4 bilhões

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Economia nos gastos com logística e distribuição, retração no nível de despesas administrativas e queda nos custos das mercadorias vendidas. Esses são os efeitos positivos, do ponto de vista operacional, que a criação da Brasil Foods (BRF) proporcionará aos seus acionistas. Os cálculos de analistas sobre sinergias geradas a partir da união entre Perdigão e Sadia variam bastante, de R$ 1,6 bilhão a R$ 4 bilhões. As contas não batem até entre as próprias companhias envolvidas na operação, o que evidencia a dificuldade nos cálculos de sinergias.

A estimativa mais conservadora é a da Fator Corretora, de R$ 1,6 bilhão. Já nos cálculos da equipe de análise do Credit Suisse, as potenciais sinergias podem alcançar entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões, incluindo benefícios fiscais e de amortização de ágio. As despesas em logística e distribuição, por exemplo, devem cair de maneira significativa. A Sadia opera, hoje, 17 unidades fabris em oito estados brasileiros. Somente para a produção de processados e abate de aves e suínos, a Perdigão mantém 25, também distribuídas em oito estados. A maior concentração de fábricas está em Santa Catarina, onde a Perdigão possui sete unidades e a Sadia, quatro. Nesse caso, por exemplo, a BRF não precisará manter duas estruturas de distribuição e terá a possibilidade de otimizar gastos com apenas uma.

Ao mesmo tempo, a ocorrência de unidades produtivas de Sadia e Perdigão nas mesmas localidades não deve significar o fechamento de fábricas. Essa foi a sinalização dos executivos das empresas e é a percepção dos especialistas, baseada na intenção da Brasil Foods de aumentar ainda mais a sua produção a fim de conquistar novos consumidores no Brasil e, principalmente, avançar no mercado internacional.

Na avaliação do analista Rafael Cintra, da Link Investimentos, deverá haver um enxugamento da estrutura administrativa existente hoje nas duas empresas, o que possibilitará cortes de gastos. Ao final de 2008, as duas empresas mantinham juntas cerca de 120 mil funcionários. “Poderá haver também alguma economia nas despesas com marketing”, disse. Hoje, a Perdigão trabalha com três agências de publicidade e a Sadia, com cinco.

Outra linha do balanço que deve sentir os impactos positivos da união entre as duas companhias é o Custo dos Produtos Vendidos (CPV). Juntas, Sadia e Perdigão ganharão poder de barganha na negociação com os seus fornecedores de matéria-prima, como milho e soja. “Pode ser que, em termos porcentuais, a redução não seja tão significativa. Mas como o volume dos custos é muito grande, em termos absolutos a redução deve ser bem significativa”, afirmou a analista Denise Messer, da Brascan Corretora. “A BRF terá mais força para negociar. Os fornecedores tentam não concentrar as vendas em uma única empresa, mas vai ser difícil não vender para alguém desse porte”, acrescentou Cintra. O presidente da Associação Paulista de Avicultura (APA), Erico Pozzer, observa que o poder de barganha aumentará não só na compra de insumos, mas também na hora de vender para o varejo. “Vai ser uma sinergia total. A situação tende a ficar preocupante para empresas grandes que atuam no mercado de aves e suínos, como o Marfrig e a Doux Frangosul”, disse. Por essa razão, Pozzer acredita que o surgimento da Brasil Foods pode incentivar mais consolidação.

Previ vai participar de oferta pública

A Previ, maior acionista individual da Perdigão, não pretende ter sua participação acionária diluída na Brasil Foods, empresa criada com a união entre a Sadia e a Perdigão. Em entrevista, o presidente da fundação, Sérgio Rosa, revelou que a intenção é comprar na oferta pública que será feita no final de julho um volume de papéis que a permita manter sua atual fatia, que hoje gira na casa dos 14%.

“A empresa precisa ser capitalizada e nossa pretensão é acompanhar a oferta na mesma proporção da nossa participação atual”, explicou Rosa. Embora a Perdigão tenha um controle disperso, é nítida a predominância dos fundos de pensão no bloco de controle da empresa. Juntas, as fundações detêm 35% das ações ordinárias.

O presidente da Previ lembrou que a Brasil Foods irá replicar o modelo de governança corporativa da Perdigão, companhia com ações negociadas no Novo Mercado da Bovespa, ambiente onde se exige práticas mais rígidas de governança. “A Perdigão tem uma gestão profissional. Esperamos que a nova empresa tenha o mesmo sucesso”, disse. Ele informou ainda que nessa fase de integração dos modelos de gestão a presidência do conselho de administração será compartilhada.

Bndes pretende comprar ações da nova empresa, afirma Miguel Jorge

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, estimou que será “bom negócio” se o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes) comprar ações da Brasil Foods, a nova empresa resultante da união entre a Perdigão e a Sadia.

Ele não acredita que a Brasil Foods terá dificuldades para ser aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e prevê uma expansão nas exportações. “Claro que há uma concentração evidente, porque são as maiores empresas nos mercados de São Paulo, Rio de Janeiro e regiões mais populosas. Mas não acredito que vão ter problemas e eu espero mesmo que seja aprovada. Inclusive porque é muito complicado uma separação. É o que dizem também sobre os casamentos.”

A oferta dos papéis para reforçar a companhia deverá atingir R$ 4 bilhões. O Bndes deve ficar com algo como 9%. O banco planeja investir de R$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhão no negócio. Miguel Jorge deixou claro que o governo não teve qualquer participação na fusão. “O governo não participou. Não tomamos conhecimento”, relatou. “O Bndes não ajuda ninguém. O Bndes vai entrar comprando ações, que são um bom negócio. Já deu para ver que será um ótimo negócio. Só os boatos já fizeram com que as ações aumentassem”, disse.
Miguel Jorge admitiu que demissões podem ocorrer após a concretização do negócio. “As economias geradas por sinergias são enormes. Mas não sei como foi negociada a fusão (em termos de demissões). Mas uma coisa tem de ficar clara: não é proibido se demitir nesse País, desde que se pague os direitos.”

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