Um túnel sob os Andes para o mar

Pela proposta, seria necessário escavar a Cordilheira dos Andes e seguir pela planície até o Pacífico, por onde a Bolívia deseja escoar produtos, como o gás natural

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A questão quase folclórica do mar boliviano ganhou combustível nas últimas semanas por parte de um trio de arquitetos chilenos que sugerem construir um túnel na fronteira de 150 km entre Peru e Chile. Pela proposta, seria necessário escavar a Cordilheira dos Andes e seguir pela planície até o Pacífico, por onde a Bolívia deseja escoar produtos, como o gás natural. O país perdeu o acesso ao mar para o Chile em 1884.

Mas, apesar de os governos de Michelle Bachelet e Evo Morales andarem afinados – os países mantêm há três anos uma agenda de 13 pontos que inclui o pleito pelo mar boliviano – e de a obra ser considerada tecnicamente possível, a Bolívia riu.

O ministro de Relações Exteriores, do país, David Choquehuanca, disse que a ideia do túnel lhe provocou “risos” e que “não faltam imaginativos em todos os lugares”, mas que “o importante é que até estes imaginativos falem de um mar para a Bolívia”.

Os imaginativos são os arquitetos Fernando Castillo Velasco, Humberto Eliash e Carlos Martner. Eles admitem que a obra é grande e sairia caro, e situam sua conclusão para daqui a 25 anos. O projeto ainda não foi apresentado a nenhuma autoridade.

Especialistas da área técnica concordam que o projeto é possível, mas tem complicadores. “Existe um fato importante: nunca foi feito um túnel tão grande”, diz o vice-presidente do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP), Nivaldo Almeida Neto. Os exemplos que o arquiteto Velasco tem dado à imprensa têm um terço do tamanho. O túnel sob o Canal da Mancha, entre França e Inglaterra, tem 50 km; o que fica entre China e Taiwan, 57 km, e um projeto de túnel que cortaria os Alpes suíços teria 57 km.

Outro complicador é a topografia. Dos 150 km do trajeto proposto para o túnel, 65% cortariam a Cordilheira dos Andes. Finalmente, o projeto esbarraria em questões de soberania nacional, de acordo com o professor de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Fernando de la Cuadra. Uma ilha artificial seria formada com a terra retirada com a abertura do túnel, em alto mar.

“De quem seria o túnel e a ilha? Chile e Peru deveriam ceder o uso soberano do túnel à Bolívia ou somente se entregaria em comodato para usufruto dos bolivianos? Resumindo, é uma ideia poética, bela, atrativa como empreendimento humano, mas muito improvável de ser efetivada”, diz Cuadra.

Para o coordenador de Economia das Faculdades Santa Cruz, Hugo Eduardo Meza Pinto, não há vontade política para tirar a ideia do papel. “O Chile está mais preocupado com outras relações fora da América Latina, e a Bolívia está desestruturada e polarizada política e socialmente”, lembra.

A antiga reivindicação boliviana pela revisão de suas fronteiras e recuperação da saída para o mar – perdida para o Chile na Guerra do Pacífico, há 125 anos – esbarra na política diplomática não só entre os dois países, mas também com o Peru.

Isso porque o país de Alan García levou um processo à Corte de Haia contra o Chile por um pleito de fronteira marítima, e protesta contra qualquer cessão de soberania em solo ou mar (ainda que chilenos) aos bolivianos.

A situação poderia mudar com o apoio do Peru, possível em caso de “bolivarianização” do país. Em tese, isso pode ocorrer em 2011, caso vença o candidato apoiado pelo venezuelano Hugo Chávez, Ollanta Humala, vença as eleições presidenciais. Por enquanto, quem lidera as pesquisas é a filha do ex-presidente Alberto Fujimori, Keiko Sofia.

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