Energia do bagaço da cana equivale à produção da Petrobras

A maioria das usinas do País sempre utilizou o bagaço da cana para gerar energia para autoconsumo. No entanto, a cogeração através do bagaço para exportação de energia para a rede, depois de décadas patinando, só nos últimos anos começou a dar sinais de crescimento

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O caldo, o bagaço e a palha da cana-de-açúcar dos 600 milhões de toneladas previstos para esta safra têm o equivalente energético a 1,97 milhão de barris de petróleo por dia, ou seja, a mesma produção da Petrobras. O cálculo é de Celso Zanatto Jr., diretor de energia da Crystalsev, empresa que cuida da logística e comercialização da produção de mais de uma dezena de usinas do Centro-Sul do País.

Um dos palestrantes da conferência “Desenvolvimento da Biomassa e a Cogeração: A Utilização de Fontes Renováveis na Geração de Energia”, evento realizado pela Gazeta Mercantil nesta semana em Ribeirão Preto, Zanatto ressalva que a energia do bagaço e da palha da cana ainda não é totalmente aproveitada, mas poderá ser num futuro não muito longínquo.

A maioria das usinas do País sempre utilizou o bagaço da cana para gerar energia para autoconsumo. No entanto, a cogeração através do bagaço para exportação de energia para a rede, depois de décadas patinando, só nos últimos anos começou a dar sinais de crescimento.

Segundo Maurílio Biagi Filho, presidente do Grupo Maubisa, a capacidade instalada de energia do bagaço nas usinas do País é de 6 mil MW médios, sendo que 2,5 mil MW são comercializados durante os sete meses da safra. “Até o final de 2010, serão 10 mil MW instalados nas usinas e, destes, 4 mil MW comercializados”, estima Biagi. Até 2004, a comercialização de energia elétrica pelas usinas paulistas pouco passava dos 500 MW.

“A cogeração de energia através do bagaço da cana é um complemento indispensável para o equilíbrio econômico de uma usina”, diz Biagi. Segundo o empresário, se todas as 400 usinas do País investissem em cogeração de energia, aproveitando o bagaço e parte da palha da cana-de-açúcar e utilizando caldeiras de alta pressão, como o fazem as novas usinas que entram em operação, o potencial de cogeração do setor sucroalcooleiro passaria de 25 mil MW, o equivalente a duas hidrelétricas de Itaipu.

Se apenas as 40 usinas da região de Ribeirão Preto – maior produtora de açúcar e álcool do planeta – investissem na cogeração de energia através do bagaço da cana-de-açúcar, a rede de transmissão do interior paulista não resistiria ao extraordinário potencial elétrico dessa energia renovável, afirma Zanatto. Segundo ele, toda a energia do açúcar, do álcool, do vapor da indústria e da cogeração somente da usina Vale do Rosário, de Morro Agudo, equivale a 3,6 milhões de MWh, o equivalente a 4% dos 90 milhões de MWh gerados na hidrelétrica de Itaipu”, afirma Zanatto.

“O excedente de energia para a venda é um negócio muito interessante para o setor sucroalcooleiro. Exige um investimento de US$ 1,3 mil por MW. É o menor custo de produção de energia”, acrescenta Biagi.

Para Zanatto, no entanto, o governo, preocupado com um possível novo apagão no sistema elétrico, tem optado por contratar energia de térmicas movidas a óleo combustível. No último Leilão de Energia de Reserva (LER), ocorrido em agosto de 2008, a energia de térmicas movidas a combustível fóssil foi contratada a R$ 150,00 o MWh, se for acionada durante 10% do ano. Se passar disso, paga-se um diferencial de R$ 250,00 o MWh. Para a energia da biomassa, o preço foi de R$ 157,00 o MWh para fornecimento durante os sete meses da safra. “O governo entendeu que tinha que remunerar melhor a energia do bagaço, mas ainda há um descompasso grande em relação à energia do óleo combustível”, diz Zanatto.

No último leilão, 519 MW médios foram contratados de 29 usinas, sendo nove de Goiás e quatro do Matro Grosso do Sul. Para um total de 22 usinas destes dois estados, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) organizou a Instalação Compartilhada de Energia (ICS), por meio da qual as usinas pagarão R$ 1,05 bilhão para transmissão e conexão à rede.

“É um custo muito elevado, comparado ao de um investimento num alcoolduto”, diz Zanatto. “Nosso pleito é que o custo de transmissão e conexão à rede seja dividido entre os gerados e a rede básica”, diz. “O Estado de São Paulo, que é o maior consumidor de energia e tem o maior potencial de cogeração, também precisa de um planejamento para equacionar os custos de conexão à rede”, sugere.

De todo modo, graças à mistura de 25% de álcool anidro na gasolina e ao avanço dos carros bicombustível, que consomem gasolina e/ou álcool hidratado, a energia da cana-de-açúcar ocupa a segunda posição na matriz energética nacional, com 16% de participação, 1,3 ponto percentual à frente da hidráulica e atrás apenas de petróleo e derivados.

Capital do etanol

Ribeirão Preto deve reforçar o título de capital mundial do etanol, disse a prefeita Dárcy Vera na abertura da conferência promovida pela Gazeta Mercantil. Pólo de uma região considerada a maior produtora mundial de açúcar e álcool, a cidade sai na frente na disputa para sediar uma das 23 corridas da próxima temporada de Fórmula Indy, na qual os carros são movidos a etanol.

As negociações para trazer a Fórmula Indy para Ribeirão Preto avançaram no fim de semana passado, durante as 500 Milhas de Indianápolis, vencida pelo piloto riberão-pretano Hélio Castro Neves. O secretário de Turismo de Ribeirão Preto, Humberto Pereira, que esteve em Indianápolis junto à comitiva da Embratur e do Ministério do Turismo, disse que a cidade está cada vez mais próxima da conquista de uma das etapas da corrida. Acompanhado de empresários da construção civil, comunicação e de usineiros, o secretário participou de uma reunião envolvendo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex), a Embratur e a IndySeries. “Estamos no caminho certo”, afirmou.

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