Mercado de caminhões no país continua paralisado

Ao contrário do comprador do automóvel, que tende a se sentir atraído por descontos, no caminhão preço mais baixo nem sempre garante a venda

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As medidas do governo para reativar as vendas de veículos surtiram pouco efeito, até agora, no segmento de caminhões. O mercado dos veículos de carga começou 2009 mal. Na primeira metade do mês, os volumes de vendas mostram o pior começo de ano dos últimos cinco anos.

Ao contrário do comprador do automóvel, que tende a se sentir atraído por descontos, no caminhão preço mais baixo nem sempre garante a venda. “A gente pode vir com um caminhão de coisas positivas, de incentivos; se o cliente não tiver os contratos para vender seus produtos não se sentirá atraído a fechar o negócio”, diz Gilson Mansur, diretor de vendas da Mercedes-Benz, maior fabricante de caminhões no país.

Os incentivos para o setor chegaram em janeiro. A primeira medida foi a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que também favoreceu automóveis. Outra mudança mais recente e voltada especificamente para caminhões foi a ampliação do valor do veículo que pode ser financiado via Finame, linha especial do BNDES. O valor financiado subiu de 80% para 100%. As duas medidas valem até 31 de março.

Mas os incentivos ainda não ajudaram. O que faz, de fato, esse mercado crescer é a atividade dos transportadores. O começo de cada ano costuma ser melhor para o segmento de caminhões pesados, principalmente por conta do agronegócio. A Scania, montadora especializada em pesados, registrou nos primeiros dias do ano uma reação na demanda de clientes que transportam soja.

Os transportadores de soja estão até pedindo para antecipar o programa de entregas que fariam em cinco meses para o limite de 31 de março para aproveitar o incentivo do IPI, segundo o diretor de vendas de veículos da Scania do Brasil, Roberto Leoncini. “A redução do IPI equivale a um desconto de 5%, o que é bastante considerável”, destaca. A Scania registrou, no entanto, desistências de pedidos, principalmente de setores ligados à mineração.

Por conta da época do plantio da cana-de-açúcar, a Mercedes também registrou em janeiro demanda no setor sucroalcooleiro. Mansur aponta, ainda, alguma reação também no transporte de combustíveis.

Mas, de maneira geral, o transportador está assustado, como dizem os executivos do setor. Notícias negativas de todos os lados parecem deixar as empresas mais reticentes em trocar seus veículos de transporte. Pesa ainda nesse cenário negativo a desvalorização do caminhão usado e a dificuldade no financiamento. Leoncini, da Scania, lembra que as taxas de financiamento de usados estão muito altas, o que faz o mercado de novos travar ainda mais.

A ArvinMeritor, fornecedora de eixos para veículos de carga, teve de demitir mais de 15% dos empregados e começa este mês com um dia de trabalho a menos por semana para poder acompanhar a queda nas encomendas das montadoras. Segundo o diretor de vendas da ArvinMeritor, Sílvio Barros, a comparação entre a atividade de dezembro com outubro mostrou uma queda de 40%.

Os fornecedores de peças sofrem não apenas pela retração das vendas no mercado interno como também pela brusca queda nas exportações. Como os principais mercados do Brasil, quase todos na América Latina, foram afetados pela crise, as vendas externas de caminhões caíram 60% em dezembro na comparação com o mesmo mês do ano passado. Os números de janeiro ainda não foram fechados.

No mercado doméstico, o licenciamento de caminhões caiu 7,5% em dezembro em comparação com igual período do ano anterior. No entanto, já na primeira quinzena houve uma queda ainda maior, de 29,97% em relação à primeira metade de dezembro e de 20,88% na comparação com janeiro de 2008. O volume de veículos licenciados na primeira quinzena – 3,2 mil unidades – é o mais baixo dos meses de janeiro dos últimos cinco anos.

Em janeiro, a Wirex Cable, fabricante de cabos, registrou uma queda de 50% nos negócios do setor automotivo em relação à média mensal de 2008. A indústria de caminhões responde por 70% dos negócios da empresa na área automotiva. Nada indica que o mercado pode mudar em fevereiro, segundo o diretor comercial, Fernando Berardo. “Só se for para pior”, destaca. Berardo defende a criação de programas de financiamento do BNDES como única forma de o mercado de caminhões melhorar no atual cenário. A Wirex apelou para banco de horas e férias coletivas para se ajustar à queda dos pedidos.

A Volvo, fabricante de pesados, já demitiu. Em dezembro, a empresa dispensou um turno inteiro, num total de 430 trabalhadores.

Diante do cenário, a indústria automobilística não se arrisca a fazer previsões para o ano. “Ainda estamos na fase de soprar para tentar tirar a nebulosidade”, afirma Mansur, da Mercedes-Benz.

Mas o choque no cenário preocupa a todos. Basta lembrar que há menos de três meses havia fila de espera de até seis a oito meses para receber um caminhão. “Quando chegou a crise a fila caiu para três meses e, de repente, as montadoras entraram em férias coletivas”, lembra Berardo, da Wirex. Agora, a indústria já se antecipa e produz o veículo antes do pedido. Se até outubro o cliente tinha que esperar o caminhão ser produzido agora é o caminhão que espera o cliente.

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