Salas de embarque: o castigo do usuário

Desconforto e poucas opções de entretenimento e alimentação na área de embarque são uma constante nos aeroportos do País

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Depois de abordar a relação macro entre os nossos terminais aeroportuários e seu relacionamento com os outros modais, decidi comentar um pouco a sua situação micro: o conceito de terminal no Brasil e sua relação com os passageiros.

Quando estive em Londres, no aeroporto de Heathrow, fiquei surpreso com o tamanho do terminal. Vi apenas o check-in, uma lanchonete e a passagem para a área restrita. O espanto foi grande: seria aquilo o tão falado aeroporto de Heathrow? Após ingressar na área de embarque me deparei com uma imensidão: lojas, restaurantes, lanchonetes, toda uma estrutura para aqueles que são a razão de ser de um aeroporto – os passageiros.

Ao contrário do que vemos pelo mundo afora, os nossos aeroportos não parecem ser planejados para aquele que deveria ser seu principal cliente. O conceito de Aero Shopping, criado pela Infraero e utilizado na construção ou revitalização de nossos terminais tem, no mínimo, uma distorção importante: hoje, quem paga as taxas de embarque não é o foco da nossa principal empresa de administração aeroportuária.

O Ground Side, a parte do aeroporto de livre trânsito de pessoas é privilegiada em nossos terminais, em detrimento do Air Side (a porção após as máquinas de raios X, aonde circulam apenas aqueles que realmente irão viajar). Os aeroportos brasileiros, tanto os mais modernos quanto os mais antigos, são enormes no Ground Side e pequenos no Air Side. Restaurantes e lojas estão fortemente presentes antes de passarmos pela fiscalização que divide os dois lados. Ao passar para o Air Side, as opções minguam. Ou seja, após o raio X, só resta torcer para que o vôo não atrase, pois os minutos parecerão eternos. A partir deste momento, o pobre usuário (aquele mesmo que paga a taxa de embarque) está “de castigo”, fadado ao tédio e desconforto. Salas de embarques minúsculas com déficit de assentos, poucas opções de alimentação e lojas (além dos preços absurdos), passam a ser a sua realidade. O problema fica mais sério quando estas ainda fecham as portas à noite em alguns aeroportos (acreditem se quiser!).

Muitos atrasos de vôos já foram registrados por esta razão. Um bom número de pessoas deixa para ingressar na área de embarque no último momento. Quando encontram contratempos como filas nas inspeções de segurança ou na polícia federal, criam problemas para as empresas. A decolagem é postergada para que os clientes não percam o vôo e iniciam-se atrasos em cascata nas programações posteriores daquela aeronave.

Muitas oportunidades foram perdidas na construção dos novos terminais. Em Maceió, o Ground Air é enorme, mas o corredor que leva às salas de embarque é digno de um ataque de claustrofobia. Em Porto Alegre, o piso de desembarque tem 50% de seu espaço ocioso. Sua praça de alimentação é exemplar, porém as pequenas salas de embarque contam com apenas um Coffee Shop. O aeroporto de Guarulhos, principal entrada da América do Sul, com várias conexões internacionais, não apresenta no Side Air um banheiro em que os viajantes possam tomar um banho enquanto aguardam. Estes três exemplos não são casos isolados. Brasília, Recife, Salvador, entre outros, seguem as mesmas características. Pessoas sentadas no chão das salas de embarque é uma visão comum nas vésperas de feriados em qualquer um deles.

O planejamento que faltou no caso do isolamento logístico dos aeroportos foi o mesmo que não existiu ao projetar nossos novos terminais. A linha mestra para nortear os próximos projetos é a própria razão de ser de um aeroporto: para quem e para o quê se destinam. Enquanto o país não tiver bem definida esta política, continuaremos construindo aeroportos isolados e pouco funcionais.

Dan Guzzo, Piloto Comercial desde 1998
danguzzo@transportabrasil.com.br

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