“Caminhão é transporte coletivo”

O arquiteto Cândido Malta considera que o caminhão deve ser visto no cenário da mobilidade urbana como uma unidade de transporte coletivo

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Leia a opinião do arquiteto e urbanista Cândido Malta Campos Filho, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP). Em entrevista ao Portal Transporta Brasil, o professor ressalta que uma solução viável para o caos no trânsito de São Paulo é investir no transporte coletivo de massa em detrimento ao transporte em veículos particulares e opina que o caminhão é uma modalidade de transporte coletivo.

O arquiteto também fala que as medidas atualmente em vigor na cidade, que restringem horários para a circulação de caminhões, terão efeitos no trânsito de no máximo um ano.

“Tudo começa com o número de caminhões que vêm transitando por São Paulo, que é da ordem de 200 mil, número que flutua entre 150 mil e 250 mil. Considerando um valor de 200 mil, se tivermos um rodízio que permita a metade desses caminhões circulando, nessa posição de que a metade que sai não é substituída por caminhões menores, o que é uma opção, você tem aí um número de 100 mil caminhões que deixam de circular a cada dia. Se entrarem em circulação cerca de 200 mil veículos por ano na cidade, temos a anulação do efeito do rodízio em um prazo de doze meses, porque os caminhões tirados de circulação são substituídos pelos automóveis. Um prazo muito curto. As medidas que estão sendo tomadas na cidade têm um efeito de prazo curto. Uma medida de efeito de longo prazo no trânsito da cidade é a construção de linhas de metrô. Somente com o metrô conseguimos tirar carros das ruas. É preciso desestimular o uso do automóvel no trânsito de São Paulo. O rodízio não desestimula, pois permite a substituição de um veículo pelo outro.

Então, a medida mais potente para melhorar o trânsito é o pedágio urbano que, à medida que reduz o número de carros em circulação, aumenta a possibilidade da implantação de transporte coletivo, especialmente o metrô, com o financiamento das obras por meio da receita deste pedágio. Precisamos então lutar pela implantação o mais rápido possível do pedágio, que vai até resolver o problema dos caminhões. Com a saída dos automóveis, os caminhões poderão trafegar com muito mais facilidade. É por isso que devemos lutar por São Paulo, porque caminhão é transporte coletivo, não é transporte individual. É preciso entender que o caminhão é como se fosse um ônibus. Ele transporta um grande número de mercadorias no atacado.

É necessário reduzir muito o número de automóveis em circulação, pois não há como ampliar o sistema viário para eles. A ampliação do sistema viário é uma ampliação que exigiria 12 Avenidas Faria Lima por ano. Isso daria 96 quilômetros de novas vias por ano. Não há como, do ponto de vista financeiro, financiar esse volume de obras e também não há espaço físico para fazê-lo. O metrô, por ser subterrâneo, não demanda demolições ao longo das vias, como seria o caso do aumento das ruas e avenidas. É muito mais racional e muito mais inteligente fazer um pedágio real que vai permitir ampliar a malha do metrô rapidamente, já que precisamos fazer uma linha de metrô por ano, e deixar de pagar o pedágio disfarçado que estamos pagando com os prejuízos à nossa saúde, stress e outras conseqüências como violência no trânsito, acidentes e mortes”.

Cândido Malta Campos Filho, arquiteto e urbanista, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em entrevista ao Portal Transporta Brasil.

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