Entrevista com Laudízio Marquesi sobre logística urbana e cadeia do frio

Economista, administrador e especialista na cadeia logística de frigoríficos, Laudízio Marquesi é membro de importantes comitês do setor, como a NTC & Logística (Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística) e o SETCESP (Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região)

Entrevista com Olavo Erineu Braido, especialista em transportes frigorificados
Plantão Covid-19 – episódio 10 – Como está o transporte no Mercosul?
Plantão Covid-19 – episódio 52 – Marketing e digitalização: Librelato

Leia a íntegra da entrevista com o consultor Laudízio Marquesi sobre a atual conjuntura logística do Brasil. O entrevistado é economista, administrador de empresas, pós-graduado em logística empresarial. Trabalhou nos grupos Hering, Bünge e Cargill. É membro dos Comitês Abrava CB 39, Anfir CB 35, Comissão de Abastecimento do SETCESP e da Câmara Técnica da Cadeia do Frio da NTC&Logística.

Portal Transporta Brasil: Como está a atual conjuntura da distribuição urbana de cargas em São Paulo?

Laudízio Marquesi: Sob o ponto de vista da população, caótica. Não há  a  percepção de que,  devido  à  inexistência de  transporte  público de qualidade, circulam nos 17 mil quilômetros de vias públicas cerca de  6 milhões de automóveis e cerca de 270.000 veículos de carga. Sob o ponto de vista do transportador, que está sempre se adaptando às novas situações e restrições, existe a preocupação de abastecer a população de São Paulo e os 39 municípios da região metropolitana, que tem cerca de  22.500.000 habitantes. Os números são grandes, da mesma forma que, a  cada  dia, apesar  da  utilização de  tecnologia, o transportador tenha que  fazer um esforço redobrado para dar atendimento a seus clientes.

Portal Transporta Brasil: Qual é o seu sentimento em relação à preocupação do transportador com as boas práticas no transporte de mercadorias que exigem controle de temperatura?

Laudízio Marquesi: Trabalho há cerca de 20 anos na área de Distribuição de Produtos Frigorificados e pude acompanhar a evolução deste setor, tanto dentro de  grandes empresas  de  produtos frigorificados, quanto na área de transportes. Com o incremento das exportações, houve uma melhora nos processos produtivos, que têm que ter a mesma qualidade em toda a cadeia de abastecimento.  Nesta área, existe a presença constante do SIF (Serviço de Inspeção Federal) que realmente acompanha e atesta presencialmente a qualidade dos produtos. As empresas montadoras de implementos rodoviários também tiveram um crescimento gigantesco, apresentando  carrocerias de primeiro mundo. O transportador, em contrapartida, pelas exigências das  empresas contratantes, teve que se  adaptar às condições de mercado, buscando  esta  tecnologia, treinamento de  suas  equipes administrativas e de campo.

Portal Transporta Brasil: Ainda existem exemplos muito gritantes de descaso em relação aos produtos na cadeia do frio?

Laudízio Marquesi: Dentro desta cadeia evolutiva, grandes e pequenas empresas foram saindo do mercado. Alguns fatores de impacto contribuíram para isso, como o código de defesa do  consumidor, a conscientização dos  consumidores quanto à  data de validade e as condições  dos produtos. Porém, não é possível esquecer a imensidão continental do Brasil, problemas de infra estrutura nas estradas  e  a  própria  qualidade dos  estabelecimentos que comercializam estes produtos, que quanto mais longe ficam dos grandes centros produtores  e  consumidores, também perdem em qualidade de  armazenamento e  comercialização.

Portal Transporta Brasil: Quais são os principais gargalos atualmente para as operações de transporte de cargas no Brasil?

Laudízio Marquesi: Sem dúvida, ausência de infraestrutura em vários segmentos do transporte: no rodoviário, ausência de estradas de  qualidade e constantes roubos de cargas por quadrilhas altamente especializadas e frete com baixa remuneração em relação às dificuldades e elevado valor dos equipamentos utilizados. No transporte aéreo, custo elevado de frete em relação ao valor do produto.  Este modal é necessário em rotas  longas e para  determinados produtos, como os perecíveis. No transporte de cabotagem, poderia ter maior utilização nas transferências do Sul do País para os estados consumidores do Norte e Nordeste, porém as freqüências inter-praças não são compatíveis com os interesses comerciais. No transporte ferroviário, há boa aceitação na área de transferência de commodities e de perecíveis com origem no Mato Grosso do Sul e oeste catarinense e destino aos portos de Paranaguá e Santos.

Portal Transporta Brasil: Como você vê as novas restrições à circulação de caminhões na cidade de São Paulo?

Laudízio Marquesi: Como membro da CAD, Comissão de Abastecimento e Distribuição do SETCESP, Sindicato das Empresas de Transporte de Carga de São Paulo e Região, comungo da opinião do presidente da entidade, Manoel Sousa Lima Jr., que recentemente entregou um documento ao presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e secretário, Marcelo Cardinali Branco, solicitando: a liberação total dos VUCs de qualquer restrição na cidade; o retorno da Zona de Máxima Restrição à Circulação (ZMRC) aos 11 km2 originais; a liberação dos caminhões com até três eixos no mini-anel, respeitando somente o rodízio de placas. Estes veículos seriam cadastrados e aprovados por inspeção veicular; a carga e descarga no horário noturno na ZMRC em estabelecimentos com mais de 5 mil m2 de área e o acesso à região de Santo Amaro para o abastecimento.

Portal Transporta Brasil: O caminhão é realmente o vilão do trânsito das grandes cidades?

Laudízio Marquesi: Permita- me que eu utilize  as perguntas   e   dados   da  enquete do Portal  Brasil: Enquete – Parte superior do formulário: Por que você acha que as grandes cidades restringem a circulação de caminhões? •Parte inferior do formulário: Porque o caminhão é o vilão do trânsito e acaba com a mobilidade  – 36%  – 86 votos. Porque é simpático à opinião pública e traz votos – 12%  – 27  votos. Porque os técnicos dos governos não entendem nada de logística – 52 %  – 124 votos. Ou seja, se fosse realmente estabelecida uma política de entregas  noturnas, construção mini centros de distribuição de cross-docking  para  veículos pequenos , eliminados  os  gargalos  comerciais de entregas nos primeiros dias de cada mês, e a construção de estacionamentos para veículos pequenos de carga nas áreas de maior concentração comercial , poderíamos ter uma pulverização na concentração de  veículos de distribuição.

Portal Transporta Brasil: Você teme que nosso País vivencie um apagão logístico em breve?

Laudízio Marquesi: Em minha visão, já estamos vivenciando isto. Basta utilizar aeroportos como  Cumbica, em Guarulhos, e  Congonhas, em São Paulo, ou rodovias federais, como a Fernão Dias, a Dutra e a Régis Bittencourt, ou operar pelo Porto de Santos. Os investimentos alardeados  pelo PAC foram  ínfimos, além da política utilizada para  cobrança de pedágios, que não permitem grandes investimentos na infraestrutura das rodovias. Outro grande detalhe é a inexistência de investimentos por parte dos  governos em transportes públicos, e o  incentivo à  indústria automobilística, privilegiando o transporte individual. Com a proximidade da Copa do Mundo de 2014, percebemos que ainda há muito a ser feito, começando pelos aeroportos.

Visite o Blog do entrevistado: http://cadeialogisticadofrio.blogspot.com/

Por: Leonardo Andrade e Victor José – Redação Portal Transporta Brasil

COMMENTS