Entrevista com Olavo Erineu Braido, especialista em transportes frigorificados

O Portal Transporta Brasil realizou uma entrevista com Olavo Erineu Braido, empresário especialista em transportes frigorificados, presidente da transportadora Serra Frio. Olavo é também presidente da Associação Brasileira de Transportes Frigorificados (ABTF) e comanda grupos de trabalho do segmento em entidades como NTC&Logística (Associação Nacional do Transporte de Cargas e da Logística), ABF (Associação Brasileira do Frio) e SETCESP (Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região

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O Portal Transporta Brasil realizou uma entrevista exclusiva com Olavo Erineu Braido, empresário especialista em transportes frigorificados, presidente da transportadora Serra Frio. Olavo é também presidente da Associação Brasileira de Transportes Frigorificados (ABTF) e comanda grupos de trabalho do segmento em entidades como NTC&Logística (Associação Nacional do Transporte de Cargas e da Logística), ABF (Associação Brasileira do Frio) e SETCESP (Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região.

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Portal Transporta Brasil: O transporte frigorificado é um importante elo da cadeia do frio e corresponde a uma considerável parcela do mercado de frete rodoviário. Ainda há problemas com empresas que não realizam estas operações de forma correta?

Olavo Erineu Braido: O transporte frigorificado é realmente um importante elo dentro da cadeia do frio porque visa à manutenção dos produtos, quer congelados, quer resfriados, em sua integridade, para que tenham condições de consumo para as pessoas de forma adequada e de forma que não prejudiquem a saúde dos consumidores. Apesar desta grande responsabilidade que este segmento do transporte tem, vivenciamos hoje em nosso mercado problemas de variadas naturezas. Há empresas que conhecem o setor, que transportam adequadamente e têm os equipamentos necessários para as operações, e há os que transportam porque receberam uma oferta de vaga em determinado embarcador e entraram trabalhando sem uma preparação profissional. Sem ter idéia da importante tarefa de conservação dos produtos, muitas vezes, essas empresas quebram o elo na cadeia do frio. Os produtos, que são processados, fabricados e congelados ou resfriados de forma correta chegam à fase do transporte e encontram um operador inadequado, que acaba com todo este trabalho. Muitas vezes, o transportador, por julgar que não está sendo bem remunerado, procura economizar no diesel do equipamento de refrigeração e a temperatura da carga começa a subir, promovendo a proliferação dos microorganismos e a perda dos produtos. Pode-se até dizer que esta é uma prática bastante comum, mas que tem sido combatida pelos sistemas de gerenciamento de riscos de muitos embarcadores preocupados com o controle da temperatura durante todo o trajeto.

Portal Transporta Brasil: O Brasil é um país que apresenta dificuldades para o transporte rodoviário frigorificado?

Olavo Erineu Braido: Sem dúvida. No Brasil, as distâncias percorridas são as mais variáveis: curtas, médias e longas. Os problemas começam aparecer nas viagens longas, nas quais é necessário manter o equipamento de refrigeração funcionando por muito tempo, o equipamento precisa estar com a manutenção em dia, para que funcione de forma adequada. Além disso, o fator humano também influi muito. O operador tem que estar consciente que ele está levando um produto que deve ser conservado dentro da faixa de temperatura determinada e não pode sofrer oscilações para cima. As dimensões continentais do Brasil, com estradas muitas vezes ruins e mal sinalizadas trazem ainda mais dificuldade para entregar as mercadorias refrigeradas em boas condições.

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Portal Transporta Brasil:
Que prejuízos à qualidade dos alimentos e à saúde dos que irão consumi-los o mau transporte de perecíveis pode trazer?

Olavo Erineu Braido: Os piores. A proliferação de microorganismos como a salmonela, é um deles. A salmonela é um problema grave de saúde pública e pode ser letal. Outros problemas causados por alimentos mal conservados são alergias, mal-estar estomacal, diarréias. Tudo isso pode levar a quadros crônicos e até à morte, caso não haja tratamento. É por isso que eu digo que o transporte de alimentos é muito delicado. Veja o caso do peixe, por exemplo. Sabemos que meia hora depois de retirados da água, os peixes começam a liberar algumas toxinas. É um produto que tem que ser muito bem vigiado e conservado, desde a pesca e o processamento e durante toda a cadeia do frio.

Portal Transporta Brasil:
Carnes são um caso especial? Se congeladas, quais os cuidados devem ser tomados no transporte?

Olavo Erineu Braido:
O cuidado principal para o transporte de carnes, assim como em diversos outros produtos perecíveis, é a manutenção rigorosa da temperatura para que não haja elevação e risco de proliferação de microorganismos dentro do produto. Uma vez que as bactérias começam a se desenvolver, a progressão é geométrica e o perigo é total. Alguns sinais de má conservação em carnes congeladas, por exemplo, podem ser a presença de cristais de gelo na embalagem. Isso indica que o produto teve a temperatura elevada e depois foi novamente resfriado. Isso pode acontecer no embarque, no transporte ou em alguma fase do manuseio das cargas. O consumidor tem que estar muito bem informado para não adquirir produtos que possam ter sido mal conservados. Além dos cristais de gelo, outro sinal é perceber se no fundo do produto não há uma faixa ou mancha escura, que pode indicar descongelamento.  A dica que eu deixo para os consumidores é sempre olhar nos balcões frios dos supermercados o display de temperatura e checar
se ela está condizente com a faixa dos produtos. Os resfriados, por exemplo, aceitam a faixa entre 0ºC e 5ºC. Produtos congelados devem ter uma temperatura média de -18ºC.

Portal Transporta Brasil:
A conservação de produtos em temperatura controlada é uma questão primordial. Quais são os principais aspectos que devem ser checados em um equipamento antes de fazer a viagem?

Olavo Erineu Braido: Hoje existem equipamentos que permitem a realização de uma pré-viagem, ou seja, uma simulação do estado de cada parte do sistema. O operador ou o supervisor da frota inicia a pré-viagem e o sistema checa todos os itens do equipamento, como pressão, óleo, mangueiras, etc. Se o sistema disser que a checagem foi OK, é só prefixar a temperatura que deve ser mantida durante todo o percurso e iniciar a viagem.

Portal Transporta Brasil: O setor está preparado para uma exigência cada vez maior na qualidade logística da cadeia do frio e na responsabilidade pelo manejo desde o embarcador até os pontos de venda?

Olavo Erineu Braido: Muitos estão preparados. Aqueles embarcadores e transportadores que fazem o monitoramento das temperaturas e estão preocupados com a saúde e o bem-estar dos consumidores estão bem preparados e preocupados com a segurança alimentar. Estas empresas já estão pensando na ISO 22.000, que trata da segurança alimentar. Mas existem os demais. A extensão territorial brasileira é muito grande neste Brasil afora existem as transportadoras que não estão preparadas e fazem o manuseio errado dos produtos. Alguns estão só interessados no dinheiro e tratam as cargas com o pior desprezo que existe. Eu já vi em algumas feiras a céu aberto produtos expostos ao sol se desintegrando com a temperatura elevada. Um caso típico que vi no interior de um Estado foi com margarina. O produtor se preocupa em fabricar a margarina, o transportador leva com a temperatura certa e, de repente, no varejo, na capilaridade, acontecem as barbaridades. O consumidor desavisado compra e leva um produto desse pra sua família consumir.

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