O chefe como fator de risco

Repercussões negativas de atitudes das chefias sobre o trabalho e o trabalhador: enfatizamos os distúrbios emocionais gerados pelas chefias e repercussão a ponto de serem os principais motivos de acidente de trabalho e doença ocupacional. Enfocamos a necessidade do Médico do trabalho contribuir efetivamente para integração de todas as áreas. E, ainda, a necessidade de se dar treinamento e reciclagem para as chefias com cursos de liderança e inter-relação pessoal

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O comportamento dos indivíduos em geral é bastante diversificado diante de situações as mais diferentes em qualquer ambiente. No trabalho parecem sobressair mais. Talvez, pelo fato dos múltiplos observadores diante de uma atitude do chefe.

Seria tão bom se o humor, a capacidade de adaptação momentânea, as reações a situações não agradáveis estivessem permanentemente em equilíbrio e de maneira estável todos pudessem manifestar-se. Mas não é o que acontece.

Vemos o ser humano, instável, explosivo, temperamental, reagindo muitas vezes sem plena justificativa. O estresse, perda das capacidades adaptativa e defensiva, leva o indivíduo a manifestações intempestivas e conseqüências drásticas.

Sabemos que no ambiente de trabalho as chefias surgem sem as características necessárias para lidarem com recursos humanos. Dificilmente encontramos o treinamento para liderança, e quase sempre o chefe coloca em execução a sua individualidade. Muitas vezes a sua maneira de comandar, conduzir as coisas é bem diferente dos segmentos interligados e até de áreas superiores.

Como dissemos anteriormente, o comportamento, atitudes e reações das pessoas dependem de uma série de condições endógenas (internas) e exógenas (externas). As variações de secreções internas, condições de repouso, condicionamento físico, formação, etc., levam o indivíduo a apresentar distúrbios de comportamento, de atitudes que certamente chamarão a atenção daqueles que, estão a sua volta.

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Chamamos a tudo isso de humor. “Cuidado, o chefe hoje está mal humorado”! É uma frase conhecida e que justifica plenamente a linha da sensibilidade.

A busca do equilíbrio dessas duas forças positiva e negativa dará ao indivíduo o equilíbrio necessário para não deixar transparecer aquelas atitudes excessivamente boas ou excessivamente más. Isto numa pessoa em posição de chefia repercute muito e chega a “Rádio Peão” e ao “Chão de Fábrica” de maneira desastrosa. E daí, a propagação e distorção de fatos que serão analisados individualmente no ambiente laboral. Surge a “fofoca” o “bochicho”.

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Saber achatar as curvas positivas e negativas para se ter uma linha, a linha da convicção, do equilíbrio, se faz necessário.

Por incrível que possa parecer, essa instabilidade do chefe é o primeiro mecanismo gerador de acidentes de trabalho e doença ocupacional.

E porque isso acontece?

A palavra, a segurança de quem fala, os gestos, o tom de voz, o conteúdo da coisa tratada, a paciência, a resistência são elementos importantíssimos no líder. Sob suas ordens estarão pessoas as mais variadas e também com curvas de sensibilidade e linhas de convicção diferentes. Para cada um é preciso ter maneiras, palavras, gestos, personalizados. Nenhum chefe pode uniformizar ou padronizar a sua maneira de tratar ou lidar com um colaborador. As palavras ásperas, “o palavrão”, a gesticulação excessiva e agressiva, muitas vezes desestabiliza aquele que imaginava estar fazendo o melhor.

A instabilidade emocional, a revolta, a reação as palavras ditas diante de outras pessoas vão gerar intranqüilidade e provavelmente vão conduzir este colaborador ao acidente de trabalho e a doença psicossomática. Isto gera ainda aumento do Absenteísmo, além da procura maior ao ambulatório médico da empresa.

O país acabou de passar por amarga experiência com a ditadura militar, rejeitada por todos os segmentos e todas as áreas. Volta o regime democrático, onde as dificuldades do país, da empresa, do trabalhador são colocadas sobre a mesa e discutidas com todos. Abrem-se as portas as forças sindicais buscando melhorias para aqueles que constroem o país. Líderes inatos, produzidos por antiguidade, assumem posições de mando sem para tal estarem preparados.

Agridem, humilham, sacrificam, espezinham o hipotético inimigo, o trabalhador.

Precisamos fortalecer nossas chefias, mas de gestos, maneiras, tratamentos específicos. Saber lidar com seres humanos muitas vezes torna-se difícil.

Um treinamento, uma reciclagem, sempre trará benefícios para todos.

Dentro da empresa o pessoal do serviço médico tem como avaliar o desempenho de seus diretores, gerentes, chefes, encarregados e colaboradores. Toda desarmonia em qualquer nível gera alterações na produção. Cai à qualidade, cai o desempenho. Aumenta a procura ao Médico.

O Ambulatório Médico da empresa tem que ser permanentemente o fiel do equilíbrio nas diversas áreas.

Sabemos que nos ambientes mais austeros, os Sinais e Sintomas comuns estão relacionados à ansiedade, tensão, angústia, distúrbios do sono, dores epigástricas que vão mostrar quadros de gastrite, úlcera gástrica e duodenal, colite, síndrome do pânico, entre outros. A busca aos tranqüilizantes, álcool, cigarro, drogas como fator de fuga são alternativas.

Hoje, com tanto desenvolvimento tecnológico, com direcionamento da área de recursos humanos para a integração, aumento da inter-relação pessoal, melhoria da qualidade de vida no trabalho, humanização do ambiente laboral, não podemos entender que empresas existam falando de tal assunto e no bojo de sua direção haja pessoas gerando todo esse mecanismo desencadeador de problemas para o trabalho e para o trabalhador.

Há que se aumentar o pavio, há que se ter o diálogo, o respeito ao profissional e jamais o massacre e a exteriorização de péssima qualidade de vida no trabalho.

A liberdade de expressão, o incentivo a criatividade, o estímulo à produção, a atenção e o respeito do chefe certamente serão fatores indispensáveis para integração e satisfação pessoal de todos.

Precisamos dar conhecimentos aos chefes da repercussão de suas atitudes, de suas maneiras, de seu fraseado. Saber, que dependendo de sua relação com as pessoas subordinadas, será ele o primeiro fator de risco para que ocorram acidentes e doenças ocupacionais.

Zelar pela integridade moral, emocional e física do trabalhador é a primeira preocupação do chefe.

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Esta é a primeira preocupação do serviço médico dentro da empresa. Manter o equilíbrio emocional em todas as áreas, seduzir aqueles mais resistentes, fazendo com que a maior fonte geradora de doenças possa atuar de maneira a melhorar a qualidade de vida no trabalho.

Temos que enfatizar que um mau relacionamento no ambiente de trabalho é motivo de desestabilização e doença.

É necessária a intervenção do médico do trabalho, algumas vezes apoio do psicólogo e outras até do psiquiatra. Orquestrar tal equilíbrio é fazer a revitalização, a reintegração e a erradicação dos distúrbios de comportamento, síndromes e doenças psicológicas, psicossomáticas e psiquiátricas.

Combate-se dessa forma o principal mecanismo desencadeador de acidentes de trabalho e doenças ocupacionais.

Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior, médico, diretor da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego)
drdirceu@transportabrasil.com.br

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