Infraestrutura aeroportuária: o nó chegou no pente

Falta de planejamento, investimentos e visão causam a atual saturação dos aeroportos brasileiros

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Alta temporada sempre é um período que demanda muita paciência dos usuários de transporte aéreo. Hoje em dia, o que podemos observar nos aeroportos nacionais é um pouco mais de cada um dos contratempos costumeiros: quem se aventurou pelos ares brasileiros nestas últimas semanas pode experimentar todos os problemas potencializados: salas de embarque e voos lotados, filas intermináveis nos check-ins, passagens com preços elevados. O que preocupa é pensar que a tendência a médio prazo é de um cenário ainda pior. O motivo? Os investimentos no setor de infraestrutura não acompanham a demanda por viagens aéreas.

No ano de 2009 tivemos um aumento de 17,65% na indústria de transporte aéreo de passageiros no Brasil. Ao mesmo tempo, 53% dos principais aeroportos do país operaram acima de sua capacidade. O líder de saturação é Vitória, a 400% acima de sua capacidade. Dos principais hubs nacionais apenas o Galeão opera abaixo da capacidade total, mas sofre com sérios problemas estruturais.

Certamente não chegamos a este ponto do dia para a noite. Diversas obras estão embargadas devido às suspeitas de superfaturamento e outras irregularidades (caso de Vitória e Goiânia, líderes do ranking). Muitos terminais novos foram subdimensionados, necessitando de ampliação poucos anos após sua conclusão, prova da falta de visão e planejamento das autoridades responsáveis. Um exemplo claro disto é Natal. Inaugurado em março de 2000, o terminal opera a 121% de sua carga total e um novo aeroporto já está em construção (detalhe: com previsão de ter apenas uma pista). A pergunta que fica é qual seria a razão de não se partir direto ao novo aeroporto já em 2000, economizando dinheiro do contribuinte e oferecendo um serviço melhor ao usuário.

O problema piora quando saímos da discussão dos terminais e vamos analisar a situação das pistas de pouso. Hoje, nenhum aeroporto de capitais da federação poderia ser pensado sem ter, no mínimo, duas pistas. Contamos nos dedos de uma mão os aeroportos que tem mais de uma pista com dimensões adequadas (aonde não existiriam restrições de peso para decolagens e pousos) para operações comerciais: Guarulhos, Galeão e Brasília. Muitos dos outros não tem possibilidade de ampliação, por grande ocupação dos seus arredores, como Porto Alegre, por exemplo. Dentro deste panorama, ainda temos as dificuldades para as reformas destas pistas. Como são únicas, as obras são realizadas a noite (com o fechamento do aeroporto naquele período). Sua eficácia é questionável, pois muitas vezes o resultado é prejudicado pelas operações do dia seguinte.

O impacto mais visível desta conjuntura é verificado no preço das passagens, com um aumento médio de mais de 30% em 2009. A tendência é de alta para os próximos anos. Com os problemas de infraestrutura as empresas aéreas não tem como aumentar a oferta. A compra de novos aviões, por si só, não resolve o problema, uma vez que não há lugar para pousá-los e estacioná-los. O resultado da equação onde engessamos a oferta e aumentamos a demanda acaba sendo a elevação dos preços.

Poucas soluções podem ser tomadas em curto prazo. Uma delas, sugerida por David Neeleman, da Azul Linhas Aéreas, seria a criação de terminais temporários pelas empresas aéreas. No médio e longo prazo sua sugestão é um modelo de concessão, onde a iniciativa privada construiria os novos terminais, explorando as taxas de embarque como contrapartida durante um determinado período de tempo. As companhias aéreas tem adquirido aeronaves maiores, visando aumentar a oferta. Porém se deparam com os mesmo problemas de infraestrutura: ou o pavimento de algumas pistas não agüenta o peso dos aviões ou seu comprimento não é suficiente para operá-los com capacidade total.

Descaso ou ineficiência, a única certeza é que o contribuinte sai lesado, tanto como cidadão, usuário e consumidor.

Dan Guzzo, Piloto Comercial desde 1998
danguzzo@transportabrasil.com.br

Acompanhe Dan Guzzo no Twitter: http://twitter.com/danguzzo

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