Entrevista com o presidente da Aslog, Adalberto Panzan Jr.: “Logística não é só caminhão”

Panzan ressalta a importância de uma visão mais ampla do abastecimento de SP.

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Leia a entrevista exclusiva que o presidente da Aslog (Associação Brasileira de Logística), Adalberto Panzan Jr., concedeu ao Portal Tranporta Brasil sobre as restrições aos veículos de carga na cidade de São Paulo. Panzan ressalta a necessidade de enxergar o abastecimento da cidade, os problemas de congestionamento e o sistema logístico da Região Metropolitana de São Paulo como um conceito que vai além do caminhão.

Portal Transporta Brasil: Como você tem sentido a repercussão destas medidas da Prefeitura nos associados da Aslog?

Adalberto Panzan Jr.: Há um sentimento generalizado de impotência frente às medidas adotadas pela Secretaria Municipal de Transportes (SMT). O governo municipal procura divulgar que “todos os segmentos foram ouvidos”, o que é verdade. O que não é dito é que a Secretaria e a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) só implantaram o que quiseram. A iniciativa é baseada no apoio popular de uma pesquisa de opinião mencionada pela própria SMT identificando como positiva a proibição aos caminhões, e isso é, na minha opinião, uma ação eleitoreira. O próprio comunicado da CET sobre o assunto tem uma conotação nitidamente propagandista, sem analisar o impacto imediato e futuro ao abastecimento da cidade e ao trânsito em geral.

Portal Transporta Brasil: Já existe algum levantamento sobre possíveis prejuízos ou queda de capacidade operacional das empresas? Se não, como você veria este cenário?

Adalberto Panzan Jr.: Não. É difícil apurar os impactos individuais. Entretanto, o custo operacional de se utilizar veículos menores é maior que se fossem utilizados veículos maiores. O segmento de transportes está aquecido, mas não há como avaliar se esse aquecimento se manterá ou não em médio prazo, de modo que a negociação entre contratantes e prestadores de serviços de transporte é que pautará o aumento real dos preços ou não. É curioso observar que a própria realização das eleições municipais nesse ano contribuirá para a elevação dos preços no mercado de veículos menores, que são muito utilizados para serviços de apoio e distribuição de materiais durante a campanha eleitoral. Não só vai custar mais caro distribuir produtos à população – que é a atividade-fim das empresas de transporte – como os custos de locação de veículos de pequeno porte que atenderão às campanhas também aumentarão.

Portal Transporta Brasil: É sabido que as maiores cidades do primeiro mundo dão prioridade ao abastecimento em detrimento do transporte individual. A Prefeitura de SP está fazendo o contrário. Até que ponto isto irá contribuir ainda mais para o colapso no trânsito de nossa cidade?

Adalberto Panzan Jr.: A visão da municipalidade é imediatista e baseada em apelos eleitorais. Já vivenciamos isso quando da privatização das estradas estaduais, quando o então governador Mário Covas preferiu aumentar o valor do pedágio dos caminhões em 300% a praticar um aumento de R$0,10 sobre o valor de todos os veículos, inclusive automóveis de passeio e utilitários. O que se seguiu foi a prática da evasão por vias alternativas e o achatamento dos ganhos dos autônomos e das empresas de transporte para absorver um custo até então inexistente. A diferença é que agora toda a sociedade motorizada vai pagar pela imprudência da medida indiretamente. Ao invés de poder se reclamar dos caminhões na hora do congestionamento, nós, cidadãos paulistanos continuaremos retidos nos congestionamentos sem poder ver “por cima” o que é que está atrapalhando.

Portal Transporta Brasil: O que as entidades do setor podem fazer para frear esta política restritiva? É possível bater de frente com a Prefeitura? É um interesse das empresas lutar contra estas medidas?

Adalberto Panzan Jr.: Interesse sempre existe quando há diálogo de verdade. Há um movimento no sentido de permitir que as empresas possam analisar em conjunto com a SMT o resultado das medidas implantadas. Todavia, uma comissão onde mais de 50% dos membros são da própria municipalidade não terá a agilidade necessária. Não podemos esquecer que a própria CET, na última reunião com os segmentos envolvidos antes da implantação das medidas de restrição, afirmou que “a retirada dos caminhões contribuiria para uma diminuição do tráfego da ordem de 15%”, mas em nenhum momento admitiu que a retirada dos caminhões das vias resultaria na transferência dos mesmos bens a serem entregues para outros veículos. Isso é, no mínimo, uma irresponsabilidade. Entretanto, não há nenhuma iniciativa da Aslog no sentido de “bater de frente” nem com a Prefeitura nem com os demais órgãos envolvidos. Acreditamos no avanço da discussão técnica, sempre. A cidade convive com caçambas nas vias públicas, desrespeito à zona azul, inexistência de espaço para carga e descarga em estabelecimentos industriais e comerciais, e toda uma gama de implicações que a maior metrópole do hemisfério sul do planeta conseguiu reunir em mais de 450 anos de existência.

Portal Transporta Brasil: As empresas têm conseguido repassar seu aumento de custo operacional para seus clientes?

Adalberto Panzan Jr.: O repasse ou não dos custos é de competência das empresas e seus clientes. O importante é não esmorecer no esclarecimento da importância do abastecimento urbano da cidade de São Paulo. Respeito inclusive a iniciativa do SETCESP em focar seus esforços na figura do caminhão. Por outro lado, logística não é só caminhão. O que a SMT e a CET ignoram, e isso é muito claro quando se avaliam as medidas implantadas e os comentários dos técnicos de trânsito, é como a cidade é abastecida. Trânsito é uma coisa, logística é outra muito mais complexa. É triste ver que a prevalência tem sido favorável às restrições, como se isso bastasse para melhorar o trânsito. A expectativa sobre a disseminação do conhecimento técnico reunido pelo setor logístico junto aos técnicos, às autoridades, aos órgãos de imprensa e à população como um todo como meio de esclarecer o real gargalo existente em São Paulo e assim poder contribuir para sua minimização, é o oxigênio que nos faz avançar frente às dificuldades. Há alguns anos, participei de uma iniciativa estratégica do SETCESP no sentido de substituir “o caminhão” pelo “abastecimento urbano”, como demonstração do amadurecimento do segmento empresarial do transporte de cargas na análise e na atuação junto aos seus clientes. A gritaria contra o caminhão era geral e a imagem da categoria, muito ruim. Passados seis anos, a situação se repete, sem que os congestionamentos tenham diminuído.  Fica a lição.  O horizonte da Aslog é de médio e longo prazo, e não contempla as eleições de outubro desse ano.

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