À beira de um novo caos aéreo

Investimentos em infraestrutura não acompanham crescimento do fluxo de passageiros; analistas falam em “colapso” em 2011

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De janeiro a outubro deste ano, o fluxo de passageiros em voos nacionais e internacionais cresceu cerca de 10% nos principais aeroportos do país controlados pela Infraero. A movimentação de aero­­naves também aumentou na mesma proporção, com quase 200 mil pousos e decolagens. Apenas em outubro, o movimento de passageiros cresceu 33% em relação ao mesmo período de 2008. Mas o descompasso entre o crescimento nas taxas de ocupação nos voos e o ritmo dos investimentos federais na infraestrutura aeroportuária preocupa analistas do setor, que indicam a possibilidade de que o sistema volte a apresentar sinais de esgotamento nos próximos anos, semelhantes aos ocorridos no auge da crise aérea – que causou atrasos e filas nos aeroportos brasileiros entre o fim de 2006 e primeiro semestre de 2007.

Desde então, pouca coisa foi feita para solucionar o principal problema do setor: a falta de infraestrutura. “De um modo geral, as providências da Anac [Agência Nacional de Aviação Civil], como órgão regulador, para controlar o apagão, foram no sentido de readequar a malha aérea com o remanejamento dos voos. Nada de investimentos pesados em infraestrutura”, avalia o consultor em aviação da Multiplan, Paulo Bittencourt Sampaio.

Nem mesmo o anúncio de que o governo deve investir cerca de R$ 5 bilhões na modernização e ampliação de 16 aeroportos até 2014 – ano em que o Brasil sediará a Copa do Mundo – tranquiliza os agentes do setor. As reformas devem ampliar em 45% a capacidade de atendimento de passageiros nestes aeroportos – passando dos atuais 114,6 milhões para 166,8 milhões ao ano –, mas o tempo de execução dessas obras pode não acompanhar a explosão na demanda.

Com isso, os mais otimistas preveem aeroportos cheios e filas nos terminais de passageiros nos horários de pico, podendo culminar em pequenos atrasos por questões pontuais. Já os pessimistas falam em um eminente colapso do sistema, com data marcada para 2011.
“O apagão de 2007 vai ser uma brincadeira perto do que pode ocorrer nos próximos anos”, prevê Sampaio. “No curto prazo, o investimento anunciado vai contemplar apenas o que não foi feito até hoje. Estamos atrasados em duas décadas”, ressalta o diretor de Segurança de Voo e Relações Internacionais do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), comandante Carlos Camacho.

Para o professor da Escola Politécnica da UFRJ e presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Estratégicos e de Políticas Públicas em Transporte Aéreo (Cepta), Respicio Antônio Espirito Santo, o principal problema do setor não é a carência de recursos, mas a falta de planejamento na gestão do sistema.

“Constatamos que o Brasil não planeja o setor aéreo. Falta uma diretriz estratégica. Hoje temos problemas de acesso aos aeroportos, de pátio para estacionamento das aeronaves, de pistas e terminais de passageiros. São várias prioridades e, quando só se tem prioridades, é que é o problema”, avalia.

Segundo ele, se tudo o que o governo anunciou nos últimos anos para o setor aéreo tivesse sido realmente aplicado, a situação hoje seria mais confortável.

O diretor-técnico do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea), comandante Gentis, aponta para a possibilidade de que, na falta de infraestrutura adequada para expansão do setor, os órgãos que regulam a aviação civil optem por limitar a operação de novas rotas nos aeroportos mais saturados. “No momento em que uma empresa aérea fica impedida de crescer – e este é um setor que necessita de crescimento permanente – a situação fica realmente preocupante”, afirma.

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