Vale investe em frota de navios para atuar no mercado à vista

A nova estratégia comercial da Vale é de venda direta do produto a preço CIF (custo, seguro e frete) informou o diretor executivo de ferrosos da mineradora, José Carlos Martins

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A Vale está investindo em uma plataforma logística para poder vender seu produto dentro do novo cenário do minério de ferro, agora muito concentrado no mercado à vista na China. A nova estratégia comercial da Vale é de venda direta do produto a preço CIF (custo, seguro e frete) informou o diretor executivo de ferrosos da mineradora, José Carlos Martins. O novo modelo visa capacitar a Vale com uma frota de navios próprios ou contratados que diminuam o custo do transporte até a Ásia e aumente a competitividade da companhia naquele mercado, onde concorre com as mineradoras australianas BHPBilliton e Rio Tinto.

O novo modelo de venda CIF já vigorou no segundo trimestre. No período, das 35,6 milhões de toneladas de minério de ferro exportadas para o mercado chinês, 70% foram embarcadas pela Vale em navios próprios ou via contratos para atracar nos portos chineses.

“Temos que ter uma estrutura logística de navios próprios, não podemos mandar minério para a Ásia comprando frete no mercado spot. Assim garantimos que o produto chegue lá há um preço competitivo”, disse Martins, durante entrevista para divulgar o balanço da empresa no segundo trimestre.

O executivo informou que a Vale já comprou 15 navios usados e encomendou mais 20 para levar o minério aos portos mais distantes para atender sua clientela, mas no momento, o grosso do transporte ainda é feito através de contratos de longo prazo celebrados com armadores variando entre 3 e 25 anos e nesses contratos os navios ficam alocados para a Vale a um preço fixo determinado e a companhia só paga o frete à medida em que vai usando os navios. No momento, parte destas embarcações estão em operação e parte (oito) estão sendo construídos. Nessa modalidade, segundo o Valor apurou, não há investimento pois o investimento é do armador que recebe o frete negociado pelo uso do navio.

Até agora, a Vale comprou 14 navios usados. Já tinha três navios da frota da Docenave. A maioria deles já está operando e alguns sendo convertidos de petroleiros para minério. Na sua meta de comprar 20 navios novos, a Vale já encomendou 12, que estão em construção. . Por enquanto a companhia investiu apenas na forma “down payment”. O restante será pago (financiado) por ocasião da entrega da embarcação. Pelos navios usados e no pagamento voa down payment, a Vale gastou US$ 600 milhões.

Segundo Martins, os contratos de longo prazo e a frota própria dão à Vale um razoável conforto quanto as necessidades de transporte daqui para frente. Mas, ele explica que o fato da companhia assumir a responsabilidade pela contratação do frete e a utilização da sua frota própria não significa que a Vale esteja bancando o frete para o cliente. Apenas significa que a Vale passou a incorporar o valor do frete no preço do minério e o risco da contratação. O preço do minério CIF é maior do que o preço FOB, pois incorpora o valor do frete.

Antes da crise econômica, 100% das vendas eram FOB (posto no porto) e 30% delas eram para a China. Agora, com a nova estratégia, a Vale mudou sua forma de operar. “Agora, com frota própria, podemos entregar o minério que for necessário no mercado. Fizemos uma transição bem sucedida”, disse o executivo, sem contudo revelar o desconto no valor do frete que a nova estratégia proporciona à mineradora brasileira, mas admitiu que é confortável para a Vale.

As negociações de preço do minério de 2009 com os chineses bateu o recorde da mais demorada da história do benchmark. As mineradoras australianas – BHP e Rio Tinto ainda não fecharam um acerto com eles. Os entendimentos já vão entrar no oitavo mês. Indagado se a Vale aceitaria o desconto de 42% pedido pela Cisa – Associação de Ferro e Aço da China -, Martins se limitou a dizer que “este ano somos seguidores, vamos esperar os australianos fecharem o preço com eles”.

Entretanto, com a alta do preço no spot, que já atingiu US$ 95 a tonelada para o minério com teor de 63%, “as usinas siderúrgicas estão voando de volta para o contrato (benchmark)”, afirmou Fábio Barbosa , diretor financeiro da Vale, durante conferencia com analistas de bancos.

O minério da Vale tem um teor de 66% a 67%. Segundo fontes do setor, a Vale está conseguindo colocar seu produto no mercado livre na China com um prêmio pela qualidade equivalente de 10% a 12% do valor da tonelada.

A expectativa de Martins e Barbosa é de uma melhora do mercado de minério e metais para os próximos trimestres. A prova disto é a recuperação que vem ocorrendo no mercado de pelotas. Segundo Barbosa, até agora a Vale estava operando com uma única pelotizadora em Tubarão, agora serão cinco em operação. O que, no seu entender e de Martins, sinaliza que a Vale está indo no caminho certo desta transição de mercado.

Barbosa comentou também que a Vale está reestruturando suas operações de níquel. O metal está em alta no mercado e no segundo trimestre ampliou sua participação na receita da Vale de 12% no primeiro trimestre, para 18% no segundo. Neste cenário, a Vale planeja entrar em operação com o projeto de Onça Puma, no Pará, no início de 2009, com foco no ferro-níquel, muito usado na fabricação de aço inox, cuja demanda está voltando a crescer.

Ele informou que a companhia busca um modelo mais eficiente de administração dos ativos de níquel concentrados na Vale Inco. “Agora vivemos outra realidade e o modelo anterior (da Vale Inco) era de excessiva descentralização e não permitia uma administração mais centralizada”. Com isso, disse, a Vale Inco já reduziu em 20% os cargos de gerência.

Sobre a greve enfrentada pela Vale na mina de níquel de Sudbury, no Canadá, informou que a empresa continua negociando para chegar a “bom entendimento”. Indagado sobre a possibilidade de a Vale decretar “estado de força maior”, Barbosa não comentou.

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