O preço da imaturidade

A implantação de um modelo agressivo Low cost, Low fare pode esbarrar na própria cultura do público

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A reclamação sobre o preço das passagens aéreas no Brasil é comum entre aqueles que viajam ou pretendem fazê-lo. Quando vamos comprar algum produto ou contratar um serviço costumamos avaliar o preço e a qualidade destes, para conseguirmos o melhor custo benefício ou algo próximo do que esperamos do ideal frente à quantia que desejamos desembolsar. A questão é: do que admitimos abrir mão em uma viagem aérea para que seja possível pagar um preço menor?

Neste último mês tive a oportunidade de viajar por duas das mais renomadas empresas Low cost/Low fare européias: Easyjet e Ryanair. O que pude observar é que o mercado mais reduzido que o europeu, a menor concorrência e a própria cultura do nosso passageiro são pontos críticos de sucesso para a implantação de um modelo similar. As modificações necessárias teriam que ser reconhecidas pelos clientes como uma troca justa. Caso queira pagar menos o usuário deverá abrir mão de aeroportos centrais, ser cobrado pelo serviço de bordo e por malas despachadas, ter limitação de bagagem de mão, ausência de conexões e de marcação de assentos. A empresa deverá trabalhar de forma que este trade off  valha a o preço pago pela passagem.

O que me chamou a atenção nas duas empresas foi a extrema eficiência, incluindo aí as empresas terceirizadas prestadoras de serviço (desde o check-in até o carregamento/descarregamento das aeronaves). A responsabilidade de minimizar o tempo da aeronave em solo envolve até os próprios passageiros, como veremos abaixo.

Minha primeira experiência foi com a Easyjet. Ao chegar na frente do check-in, o primeiro choque: a funcionária da empresa terceirizada (cuja a eficiência era inversamente proporcional à simpatia) nos informou que estávamos cinco minutos adiantados e o atendimento de nosso voo ainda não havia sido iniciado. A nossa entrada na fila prejudicaria o atendimento dos outros voos da empresa. Após a espera, recebemos o boarding pass (cartão de embarque) com os dizeres: “If you are late, we won’t wait” (Se você estiver atrasado, não esperaremos). A empresa divide seu embarque em três grupos – as prioridades (idosos, pessoas com crianças de colo, etc) e o grupos A e B, seguindo a ordem de chegada ao check-in. Ou seja, quem chega primeiro, embarca primeiro.

Dentro da aeronave outra surpresa: os assentos não reclinam, o que possibilita a diminuição do espaço entre as poltronas. Poucos passageiros acabam consumindo o serviço de bordo cobrado. Desta forma, a empresa pode diminuir o número de serviços embarcados, o que acaba trazendo economia em termos de peso (diminuição do consumo de combustível) e tempo de solo, além da geração de receita pela sua venda. Com o tempo de serviço mais abreviado, sobram minutos preciosos para o Duty-Free, outra fonte de receita.

Esta geração de receita extra é praticamente um mandamento na irlandesa Ryanair. Não existe a prioridade de embarque para quem faz o check-in com maior antecedência, mas sim para aqueles que se dispõem a pagar mais quatro euros para entrar primeiro na aeronave. O sistema de assento livre, poltronas que não reclinam, serviço de bordo pago e Duty-free também fazem parte da rotina, porém a Ryanair consegue ser ainda mais agressiva em baixar os custos de sua operação. Enquanto a Easyjet limita o peso da bagagem em 20kg, a empresa irlandesa utiliza como limitante 15kg. Seus cartões com instruções de emergência estão colados nas poltronas da frente, evitando extravios e diminuindo possíveis danos. Espera por mala nas esteiras não faz parte do dicionário de nenhuma destas empresas.

Os aeroportos de operação de Ryanair são sempre afastados dos aeroportos de grande movimento. O benefício, neste caso, vem na forma de taxas aeroportuárias mais baixas e mais economia de combustível com a ausência de problemas de tráfego aéreo. Como não existe “Almoço de graça”, a distância destes aeroportos para as principais cidades é grande. Prestwick, vendido pela empresa como Glasgow, fica a 50 minutos de trem daquela cidade. Beauvais, o aeroporto de Paris para a Ryanair, está a 1 hora 20 minutos de ônibus distante da capital francesa.

Tirando o fato de termos um mercado menor e uma concorrência não tão acirrada, temos maturidade suficiente para encarar estes conceitos em um país aonde o público reclama quando a barrinha de cereal não foi entregue devido à turbulência? Uma empresa que queira implantar um modelo de operação deste tipo terá, como grande desafio, ensinar os “novos modos” aos seus clientes, além de deixar bem claro a eles que abrir mão do modelo antigo valeu a pena.

Dan Guzzo, Piloto Comercial desde 1998
danguzzo@transportabrasil.com.br

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