Barreiras argentinas atingem 16% das exportações do País

Dentre as barreiras estão licenças de importação, medidas antidumping e valor-critério (que eleva o preço de importação)

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A Argentina, o principal parceiro do Brasil no Mercosul, aplicou barreiras sobre 16% das exportações brasileiras até março, confirmou uma fonte do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) à Gazeta Mercantil. Dentre as barreiras estão licenças de importação, medidas antidumping e valor-critério (que eleva o preço de importação).

O percentual citado pela fonte do governo, porém, é considerado pequeno pelo vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. Ele diz acreditar que o protecionismo argentino aos produtos brasileiros este ano já chega a algo entre 25% e 30%, sobretudo para autopeças, produtos têxteis (cama, mesa e banho), calçados e linha branca.

Para o dirigente, se mantida a tendência de queda forte das exportações brasileiras para o mercado argentino – observada até o mês de abril – é possível que o Brasil acumule déficit em maio com a Argentina.

Em abril, já houve um pequeno déficit para o Brasil de US$ 32 milhões. As exportações atingiram US$ 820 milhões, enquanto que as importações somaram US$ 852 milhões, segundo dados no ministério.

O executivo da AEB disse ter recebido várias reclamações dos empresários brasileiros que não conseguem exportar para o país vizinho. “Acho que as barreiras são maiores (que 16% das exportações) porque as reclamações dos exportadores estão muito grandes”, declarou Castro, que atribuiu parte da implantação de barreiras aos impactos da crise financeira internacional. Outra parte é atribuída a preferência por produtos chineses.

Queda no comércio

No acumulado do ano até abril, o superávit do Brasil no comércio com a Argentina desabou para US$ 14 milhões, depois de apresentar saldo de US$ 1,103 bilhão em igual período do ano passado.

No primeiro quadrimestre deste ano, as exportações brasileiras para Argentina caíram 42,1%, para US$ 5,337 bilhões, ante os US$ 3,005 bilhões registrados em igual etapa do ano passado, segundo os dados do ministério. Enquanto isso, as importações caíram 27,3% para US$ 3,553 bilhões, ante US$ 4,234 bilhões, na mesma comparação. Isso mostra forte queda na corrente de comércio entre os dois países.

“O superávit de US$ 14 milhões é quase nada, por isso, possivelmente em maio voltaremos a apresentar déficit com Argentina, tudo que ela queria. A briga da Argentina contra o Brasil é porque tivemos grandes superávits nos últimos anos”, destacou o executivo.

O último déficit brasileiro no comércio com o país vizinho foi em 2003, de US$ 103 milhões, resultado de exportações de R$ 4,577 bilhões e de importações de US$ 4,673 bilhões.

De acordo com o vice-presidente da AEB, os argentinos têm dificultado a entrada dos produtos brasileiros e privilegiado apenas empresas que têm filial naquele país ou que façam algum investimento produtivo na região.

No caso do setor de autopeças, segundo Castro, o governo argentino quer que as indústrias invistam lá, só que hoje acontece o contrário. As empresas estão saindo do país vizinho porque a economia está muito desaquecida e o consumo de automóveis caiu 50% neste ano.

Algumas empresas brasileiras de calçados estão embarcando os produtos semiacabados para que sejam fi-nalizados lá. Assim, contribuem de alguma forma para aumentar o emprego no país vizinho.

Diante das medidas protecionistas, há informações de que as exportações têxteis para Argentina caíram 90% em março. Critico da postura oficial brasileira, Castro diz que o governo tem pedido para que os empresários negociem entre eles. “Essa é uma forma de o governo lavar as mãos”, disse. Ele acrescenta que o Brasil teria que revidar e aplicar também medidas protecionistas contra os produtos da Argentina.

Negociações

O presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (Abracex), Roberto Segatto, que também reclama do protecionismo argentino, afirmou que tem conversado com empresários do país vizinho para elaborarem uma lista de produtos a ser apresentada aos dois governos, para que entrem em um acordo bilateral. “A ideia é propor ao governo brasileiro que estabeleça a prioridade de comprar os produtos da Argentina que não têm no Brasil. Ou vice-versa. Que a Argentina dê a prioridade às compras de produtos brasileiros que não têm lá, desde que não prejudique nem os produtores e nem agricultores locais”, disse Segatto.

Dentre os produtos da lista dos produtos brasileiros estão os de linha-branca, calçados, vestuário e frutas tropicais. Na lista dos produtos argentinos estão principalmente os alimentícios. Tais como azeite de oliva, vinhos, trigo, pêra e maçã. “Podemos estabelecer um acordo bilateral para comprar produtos de outros países caso não existam nos dois países”, destacou.

A fonte do Ministério do Desenvolvimento informou que o governo brasileiro buscará conversar com cada parceiro para derrubar as barreiras comerciais e melhorar o comércio bilateral na América do Sul, para não perder espaço para produtos chineses no bloco.

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