Como a crise ajudou a acelerar a reestruturação da Guerra

A fabricante de equipamentos para o transporte de carga, de Caxias do Sul, deverá passar adiante uma de suas empresas, a Indústria de Freios Garra, mantida, até o momento, incógnita do mercado por questões estratégicas

Morte no trânsito cai 57% em dia de blitz após lei seca
SP investe R$ 52,5 mi em obras de infraestrutura em Ribeirão Preto
Projeto suspende curso obrigatório para motoboy

Dentro de algum tempo, ainda não definido, a Guerra S.A., fabricante de equipamentos para o transporte de carga, de Caxias do Sul, deverá passar adiante uma de suas empresas, a Indústria de Freios Garra, mantida, até o momento, incógnita do mercado por questões estratégicas. E a justificativa é simples: fabricação de freios não faz parte do foco da companhia. “Vamos deixar freio para quem é especialista”, informa à Gazeta Mercantil o diretor-geral, Rodmar Cardinali, contratado do grupo Axxon, detentor do controle da Guerra desde junho do ano passado, para promover uma reestruturação completa na Guerra.

“Se me fosse perguntado, no passado, sobre montar uma fábrica de freio. eu diria não. Recebemos uma fábrica de freio e estamos tratando como tal, melhorando os processos de produção e de qualidade”, comenta o executivo. No momento a Garra desenvolve um freio de 16,5 polegadas – hoje no mercado só há freio até 15 polegadas. “Depois vamos pensar o que fazer com esta fábrica”, diz Cardinali, acrescentando não saber exatamente a forma como isto ocorrerá. “Se você atua como uma montadora, a responsabilidade é sobre os implementos e não sobre os componentes”, pensa.

O plano de abertura do capital em bolsa de valores – anunciado pela antiga direção – é outro ponto questionável pelo novo gestor. No embalo da reestruturação, o projeto não existe. Pode ate vir a ser no futuro. No momento está parado, diante do esforço para a remoção de práticas deterioradas pelo tempo e introdução de novos conceitos. Um exemplo é a criação e aplicação de processos em todas as áreas de atividades da Guerra. Recentemente foi aprovado um novo Manual do Fornecedor, fixando processos para compras, homologação e componentes, entre outros itens. Na avaliação do próprio Cardinali em nove meses de trabalho ele avançou quatro de dez passos que pretende alcançar. “Temos muito que fazer, mas confio no time”, assegura.

Cardinali tem consciência que o “desinvestimento” – nome que jargão dos negócios significa saída do investidor de um determinado empreendimento – acontecerá um dia e quando esse dia chegar precisa estar com um nível rentável elevado, “O tempo médio (de permanência) é variado, oscila entre quatro e seis anos”, diz o executivo. “Não há ansiedade para fazer nada no curto prazo. Não vejo isto como uma necessidade atual dos sócios”, destaca. Como viveu parte da sua vida na Alemanha, Cardinali aponta três grandes grupos alemães e um francês com condições de estabelecer aproximação futura.

O executivo não gosta de falar de si, mas ele pegou uma fábrica de autopeças, a Knorr, de São Paulo, quase na lona e a entregou com taxa de rentabilidade de 12%. Quando a Guerra estará “pronta”? “Se tudo correr bem, nunca. Hoje está melhor, mas não podemos parar”, observa o diretor geral. “Estamos terminando a fase de preparação”, diz Cardinali, que trouxe da antiga empresa programa de relacionamento chamado Jogo Aberto para ouvir os colaboradores sem a presença de gerentes. A meta é chegar à excelência. Uma cláusula do contrato com os sócios prevê que terá de implantar três novas certificações já este ano. Desde o início do ano estão em andamento as normas 18001 e ASA 8000 (de responsabilidade social). “Havia ISO, mas não tinha o pensamento nem processo”, diz.

A máxima “as oportunidades surgem em meio a crises” encaixa-se como uma luva na Guerra. Cardinali admite que logo após a troca aconteceu certa inquietação no mercado, que o diretor geral chamou de fase de reconhecimento. “Agora entramos na fase de fortalecimento”, diz o diretor geral, que contou com boa dose de sorte, na medida em que a crise financeira mundial do quarto trimestre ajudou na reestruturação. “Ela deu-nos tempo. Digo para meu pessoal que o mercado ajudou a nos ajudar” sintetiza com jogo de palavras.

A empresa encaminhou projeto para a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para desenvolvimento de tecnologias aplicadas a produtos. A verba pleiteada é de R$ 30 milhões. A contrapartida da Guerra corresponde mais 10% desse valor. “Vamos ter novidade pela frente”, assanha. Já os investimentos destinados a modernização do Centro Tecnológico e redistribuição de produtos pelas unidades de Caxias do Sul, Farroupilha e São Paulo estão sendo analisadas por uma consultora contratada em março. “O objetivo é reduzir custos” diz.

Conforme o executivo, a nova Guerra está sendo preparando para prestar serviços completos para o transportador. Significa acompanhar todos os aspectos daquilo que precisa; saber como ele carrega e como descarrega o seu reboque, quanto percorre. “Queremos fazer um veículo dedicado. A idéia é ter duas linhas de produtos: uma 100% padronizada e outra com produtos customizados. Ela já teve itens customizados no passado. Estamos retornando, mas isso exige uma série de preparações, não acontece em seis meses”, explica ele. “O desafio é ter preços competitivos com produções menores”, acrescenta. A companhia já vem negociando alguns pedidos dentro deste conceito. E uma das novas ações da Guerra é levar a engenharia para o campo. Não somente a engenharia, mas também a área de Qualidade e de Vendas. “É dessa maneira que aprendi a trabalhar e olha que 30 minutos no campo valem mais do que três dias no escritório”, ensina Cardinali. “Quero crer que já tenha alguns sinais vindos da rede, mas ainda é cedo para colher frutos”.

Dois quilômetros separam as fábricas da Guerra e da Randon em Caxias do Sul. Para o diretor a concorrência não é a Randon – é o mercado inteiro. Segundo ele, existem fábricas menores com boa tecnologia. “Lógico que a Randon merece respeito, mas não desrespeito o pequeno concorrente”, conceitua Cardinali. “Costumo dizer que as duas comem churrasco juntas, elas dormem juntas, pois há pessoas aqui casadas com gente de lá, não há como evitar. Na família tem que um trabalha aqui e outro na Randon. Vão para a escola juntos”, diz.

Link para a matéria

COMMENTS