Acesso difícil reduz benefícios do Rodoanel

Em meio ao caos, o governo festeja as obras do Rodoanel. Entretanto, enquanto não houver infraestrutura básica, esta que seria uma importante construção para os setores de transporte e logística não tem finalidade alguma. Para que o Rodoanel seja útil, é necessário que os veículos consigam chegar até ele

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* Antonio Wrobleski Filho, para a Gazeta Mercantil

As chuvas freqüentemente trazem consigo o caos para a cidade de São Paulo. Como se não bastasse o trânsito intenso e a falta de infraestrutura para o tráfego adequado dos carros em algumas das mais importantes ruas e avenidas, os alagamentos prejudicam os cidadãos em todos os níveis, tanto econômicos, à medida que perdem seus bens, como sociais, por meio de danos ao bem-estar. Do ponto de vista dos prejuízos, a inundação de pontos estratégicos do município alcança desde os pequenos empresários que não conseguem conservar seus produtos em decorrência da água que invade os estabelecimentos até as maiores indústrias do País, que não têm como escoar seus produtos pela impossibilidade de tráfego na cidade.

Em meio ao caos, o governo festeja as obras do Rodoanel. Entretanto, enquanto não houver infraestrutura básica, esta que seria uma importante construção para os setores de transporte e logística não tem finalidade alguma. Para que o Rodoanel seja útil, é necessário que os veículos consigam chegar até ele. Caso contrário, qual a sua serventia?

Recentemente, quem teve de passar pela Avenida do Estado, uma das mais importantes ligações da cidade paulistana, teve a infelicidade de presenciar a falta de itens básicos para a população em todos os sentidos. O reflexo da chuva forte que inundou a via foi um grande acúmulo de lama, falta de energia elétrica, cachorros mortos espalhados na pista e lixo (muito lixo) jogado por todos os lados, causando imensa dificuldade até para quem trafegava sobre um veículo off-road, com tração nas quatro rodas. Em outros pontos, a cidade viu dois de seus moradores perderem a vida em decorrência de paradas cardiorrespiratórias e falta de socorro adequado em função dos longos congestionamentos que tomam conta do município.

Como é freqüente que uma situação seja reconhecida apenas quando acontece, a recente ocorrência leva a crer que os empresários não devem mais lutar por investimento em infraestrutura enquanto aportes financeiros em questões básicas ainda não forem realizados. Enquanto a população não tiver acesso a itens básicos, como moradia adequada e educação com consciência de que o lixo não deve ser despejado em vias públicas, o Estado pode inaugurar três anéis viários que não será suficiente para atender as demandas, pois os veículos não terão como acessá-los.

Ao mesmo tempo em que muitos empresários íntegros apelam para o governo não reduzir os investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e manter o estímulo à economia e à manutenção dos empregos dos cidadãos, as companhias de diversos setores são penalizadas com atrasos e prejuízos muitas vezes irreparáveis. Nos dias em que as chuvas “castigam” a cidade de São Paulo, os caminhões que têm de passar pela cidade atrasam, em média, de nove a 13 horas apenas com o trajeto obrigatório pelas ruas e avenidas do município.

O caos logístico ocasionado pelas chuvas em São Paulo nos leva a questionar sobre os impactos em forma de prejuízos. Qual o custo de manter um caminhão parado por uma hora no trânsito de São Paulo? Em grande escala, com imensos engarrafamentos diários, qual impacto deste prejuízo para o custo Brasil? Estes são pontos a serem observados com muita cautela, principalmente nos meses em que nos encontramos, pois, já não bastasse a crise econômica mundial, somos obrigados a pagar pela “crise da natureza” que, somada à falta de atenção que dispomos dos nossos governantes, não há planejamento que seja realmente eficaz. Até mesmo medidas como a adoção de sistemas just in time, janelas de atendimento, entre outras, passam a ser imprevisíveis.

Vale frisar ainda que, em tempos de crise, quando diversas indústrias registram queda de produção em decorrência de fatores econômicos dos mercados externo e interno, as companhias não têm margem para trabalhar com prejuízos causados pela falta de atenção do Estado às necessidades básicas da população. As empresas não podem ser reféns da falta de “vontade” dos poderes públicos para resolver os problemas de infraestrutura capaz de suportar alterações climáticas. É fato que os problemas causados pelas chuvas em São Paulo, bem como o caos urbano no qual se transformou o trânsito, podem ser resolvidos ou minimizados por meio de investimentos em obras adequadas para estimular o desenvolvimento econômico e social de todos os níveis da sociedade. O problema é que, enquanto o caos se intensifica, os argumentos dos governos para “justificá-lo” se mantêm os mesmos, sempre direcionadas aos fenômenos climáticos.

* Antonio Wrobleski Filho, engenheiro com pós-graduação em finanças e consultor em logística, dono da Awro

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