O perigo viaja ao lado

Falta de conhecimento e indisciplina podem tornar o passageiro uma séria ameaça à segurança de voo

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Várias pessoas me perguntam: qual a fase mais perigosa do voo? Quais as panes que já enfrentei? Qual a pior situação que pode acontecer em um voo? Quais as principais ameaças à segurança? Com o avanço da tecnologia, a construção de aviões cada vez mais modernos e sistemas mais confiáveis, panes catastróficas são inexistentes. Não há uma situação, prevista em projeto, na qual uma falha única possa levar a uma tragédia. Mas se a indústria chegou a este ponto, por que ainda ocorrem acidentes?

A combinação de fatores é o que desencadeia um acidente aéreo. Fatores operacionais, mecânicos, meteorológicos e humanos (fisiológicos e psicológicos), combinados, podem levar a uma fatalidade. Para toda ameaça detectada, a indústria gerencia o risco através de uma matriz, em que se leva em consideração a severidade do evento e a probabilidade deste ocorrer. É baseado nesta matriz que respondo àqueles que me questionam qual o maior risco à segurança. O espanto desenhado na fisionomia de cada um aparece imediatamente após a resposta: a principal ameaça à segurança de vôo é o passageiro. A indisciplina e o desconhecimento por parte dos clientes são ameaças consideráveis ao bom andamento de um voo e ambos vêm sendo eventos de alta probabilidade de ocorrência. Caso a severidade da ocorrência seja alta, o risco de um acidente passa a ser considerável.

O desconhecimento sobre as regras que envolvem uma viagem aérea torna-se cada vez mais frequente com a popularização deste tipo transporte. Muitos podem não saber, mas ser um passageiro também implica em responsabilidades. Quando alguém compra uma passagem, não está apenas adquirindo um produto, está assinando um contrato. Neste acordo, a empresa aérea responsabiliza-se por transportá-lo em segurança enquanto o cliente deve seguir as regras da empresa e das autoridades.

A primeira atitude que deve ser observada pelo passageiro começa antes deste chegar ao aeroporto: no ato de se preparar a mala para a viagem. Existe uma lista de artigos perigosos que não devem ser transportados, geralmente encontrada no site das empresas aéreas e nas suas áreas de check-in. Não são incomuns atrasos de voos e incidentes causados por líquidos corrosivos, inflamáveis ou até explosivos nas bagagens de passageiros.

Outra situação que envolve o desconhecimento do passageiro é referente às questões fisiológicas. Mesmo com a cabine pressurizada, o ambiente dentro de uma aeronave em vôo de cruzeiro é o equivalente à atmosfera de cidades como Bogotá. Nestes ambientes de grandes altitudes, são potencializados os efeitos de substâncias psicoativas e bebidas alcoólicas. Portando, pessoas que buscam nestas substâncias uma fuga para o medo de voar podem perder a consciência de seus atos e elas mesmas passam a ser um risco em potencial à aeronave e todos a bordo. Incontáveis são os casos de passageiros que tiveram de ser imobilizados pelos tripulantes, pois tentaram abrir uma porta em voo, invadir a cabine de comando ou agredir outras pessoas.

Dentre todos os casos, os mais sérios são aqueles relacionados à indisciplina referente às regras de segurança. Todo regulamento tem sua razão de ser e deve ser respeitado, por mais inofensivo que pareça ser o seu descumprimento. A posição vertical das poltronas nas decolagens e pousos, por exemplo, visa facilitar uma possível evacuação de emergência.

Ignorar o aviso de apertar cintos é um caso similar. Há alguns dias, diversos passageiros foram feridos em um vôo entre os EUA e o Japão por não observarem tal aviso. Quando a aeronave penetrou em uma turbulência, as pessoas que não utilizavam o cinto de segurança foram violentamente arremessadas contra o teto. Os ferimentos, neste caso, podem não se restringir à pessoa que descumpriu a regra, pois o corpo desta pode atingir os outros passageiros que estão sentados. Este tipo de ferimento não se limita ao vôo. Várias pessoas insistem em se levantar de seus lugares antes da parada total da aeronave, durante o procedimento de taxi. Uma freada, mesmo no solo e a baixa velocidade, pode derrubar as pessoas que se encontram no corredor e causar até fraturas, pois um passageiro acaba caindo sobre o outro.

Apesar de todas estas situações, a mais perigosa de todas as indisciplinas é fumar no lavatório. Depois da queda de um Boeing 707 da VARIG em Paris, no ano de 1973, devido a um incêndio incontrolável a bordo, foram desenvolvidos sistemas detectores de fumaça e extintores de incêndio localizados acima das lixeiras dos lavatórios. Princípios de incêndios em motores são previstos e combatíveis pelos sistemas de bordo, podendo a aeronave prosseguir o voo em segurança com o(s) motor(es) remanescentes. Porém, um incêndio na cabine de passageiros, principalmente aqueles iniciados no lavatório (situação aonde o tempo levado para se identificar a ameaça é maior) não deixam muita alternativa aos tripulantes. Caso este incêndio se torne incontrolável é praticamente nula a possibilidade de se evitar uma tragédia.

Quando se trata de segurança de voo, o cliente nem sempre tem razão. Seguir as regras de segurança não é uma opção, e sim uma obrigação de todos a bordo. Colocar em risco uma aeronave e seus ocupantes é crime previsto no código penal, artigo 261. A segurança é obrigação de todos, tripulantes e passageiros. Portanto, cuidado! O maior risco à segurança de seu voo pode estar sentado na poltrona ao seu lado.

Dan Guzzo, Piloto Comercial desde 1998
danguzzo@transportabrasil.com.br

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