Capital cearense sem estrutura para implantar rodízio

Estudiosos da área afirmam que alternativa não resolverá caos no trânsito da Capital e nem diminuirá fluxo de veículos

Ajuda a montadoras provoca polêmicas
Projeto pune venda de combustível adulterado com inaptidão do CNPJ
Trechos da PR 323 receberão melhorias

A proposta do Ministério Público Estadual para a implantação de rodízio de veículos em Fortaleza provocou a opinião de leitores do Diário do Nordeste e especialistas em engenharia de trânsito. Num pontos todos concordam: a Capital cearense não suportaria esse tipo de restrição de veículos automotores pelo simples fato de que não possui estrutura urbanística ou sistema de transporte adequado e funcional.

A insegurança para quem precisa pegar ônibus também foi citada como um dos pontos negativos para a instalação do rodízio. As matérias foram publicadas pelo Diário do Nordeste nos últimos dias 9, 10, 11 e ontem, mostrando o caos nosso de cada dia no trânsito.

Para o engenheiro em trânsito, Fernando Faria Bezerra, o MPE foi “precipitado em sugerir a alternativa para a cidade”. Bezerra foi diretor de Trânsito da Empresa de Trânsito e Transporte Urbano de Fortaleza (Ettusa), e responsável pela municipalização do trânsito da Capital, em 1998. Hoje, ele presta consultoria na área de trânsito e transportes.

Na sua avaliação, para se decidir pelo rodízio de veículos, seria necessário muito tempo de estudos e mesmo assim, a Capital não comportaria tal ação. “Para isso, seria indispensável, por exemplo, uma fiscalização rigorosa, inexistente aqui”, avalia. Segundo Bezerra, o ideal é um agente para cada mil veículos. Fortaleza possui frota de 590 mil veículos. O que seriam necessários, pelo menos 590 agentes. “Isso sem levar em consideração três turnos de trabalho, o que triplicaria o contingente necessário”.

Outra questão apontada por ele como fundamental para se manter o rodízio é um sistema de transporte eficiente com ônibus e metrô funcionando como deve. “O metrô ainda não podemos contar e o sistema de ônibus ainda merece melhor planejamento e oferta”.

Esta posição é compartilhada pelo superintendente do Departamento Estadual de Trânsito (Detran/Ceará), João Pupo. Para ele, a opção deve ser a última alternativa colocada em prática. “Mesmo assim, não resolve o caos instalado. É preciso um transporte público de qualidade”, afirma.

O diretor de Trânsito da Autarquia Municipal de Trânsito (AMC), Carlos Henrique Pires, adianta que esta será a última saída para Fortaleza. A AMC tem estudo em andamento da chamada Grande Aldeota, entre Dom Manuel, Abolição, Virgílio Távora e Antônio Sales. O estudo ficará pronto em junho. Com ele em mãos, a Autarquia deverá mudar o tráfego de todas as vias que compõem o quadrilátero. “Vamos buscar todas as saídas possíveis para minimizar os problemas diários do trânsito”, afirma ele.

OPINIÕES

Alternativa para problema motiva debate entre leitores

Após a publicação das matérias sobre o caos no trânsito de Fortaleza, nos dias 9, 10, 11 e ontem, o Diário do Nordeste recebeu inúmeros e-mail sobre a questão. A maioria dos leitores é contrária a proposta do promotor de justiça Antônio Gilvan de Abreu Melo, titular do Núcleo de Atuação Especial de Controle, Fiscalização e Acompanhamento das Políticas Públicas do Trânsito (Naetran), do Ministério Público Estadual (MPE). Ele recomendou a adoção de rodízio de veículos.

A proposta do promotor é fazer o revezamento durante duas semanas seguidas, tirando sábado e domingo, com o objetivo de reduzir o número de veículos em circulação.

Para o leitor Francisco Oton Pereira de Deus, “o rodízio seria uma catástrofe. A solução mais razoável seria realmente a apreensão do veículo em local proibido”. Já para Eder Holanda, não adianta pensar em rodízio se a cidade não tem um sistema de transporte que funciona adequadamente. “Até quando os governantes vão defender seus próprios interesses em detrimento de toda a população?”, questiona ele.

“Em nenhum momento se cogita a melhoria da estrutura da cidade para suportar o crescimento da mesma, afinal, bem mais fácil é impor um rodízio de veículos de todo o jeito”, avalia Wagner Pinheiro.

Para Pedro Rocha e Marcos Albuquerque, é um verdadeiro absurdo falar sobre rodízio sem antes discutir um sistema de transporte público de qualidade. “O certo é trabalhar com honestidade e competência em novos projetos para viabilizar a locomoção com segurança do cidadão”, ressalta.

Raimundo Melo defende que são necessárias outras soluções para o problema do trânsito. “Isso (rodízio de veículos) viria prejudicar e muito a população da cidade como um todo”, ressalta.

Link para a matéria

COMMENTS