Sucateiros investem no mercado externo

A RFR Reciclagem, uma das maiores empresa de processamento de ferro e aço do País, já realizou o embarque de aproximadamente 15 mil toneladas de sucata de ferro para China, Coréia, Índia, Paquistão, Vietnã

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O preço do ferro e do aço no mercado sucateiro caiu drasticamente a partir do segundo semestre do ano passado, a ponto de tornar o negócio inviável, seja para catadores, seja para depósitos, cooperativas e até empresas de processamento de sucata. Mas, para estas últimas, a solução tem sido pouco convencional: a exportação. A RFR Reciclagem, uma das maiores empresa de processamento de ferro e aço do País, já realizou o embarque de aproximadamente 15 mil toneladas de sucata de ferro para China, Coréia, Índia, Paquistão, Vietnã. Os embarques começaram no final de dezembro e têm sido ampliados mês a mês. “Em fevereiro exportamos 10 mil toneladas, em março já temos fechados contratos para mais 10 mil, mas com certeza vai ser maior”, afirmou Marcos Fonseca, diretor da RFR.

“O setor no País não tem histórico de exportação, porque é um processo complexo”, disse Fonseca. “Não existe estrutura portuária para exportar a granel, temos de embarcar em contêiner, que têm custo de frete oneroso”, explicou.

A RFR, que possui capacidade para processar até 40 mil toneladas de ferro e aço por mês, está operando com cerca de 50% de ociosidade, com produção de 22 mil toneladas por mês, das quais atualmente metade é embarcada. “Estamos faturando 30% do que faturávamos”, disse Fonseca. Caiu de cerca de R$ 20 milhões por mês para aproximadamente R$ 6 milhões mensais. Com isso, a empresa reduziu em 25% o quadro de funcionários, dos 280 que possuía.

A Trufer Comércio de Sucatas também informou que está exportando para compensar a queda no faturamento. Marcio Rodriguez, diretor da empresa, não revelou valores ou volumes, mas disse que em janeiro as vendas caíram 70% em relação a janeiro do ano passado. Com isso, a empresa precisou cortar custos. “houve demissões, reduzimos em 25% o quadro de funcionários”, afirmou.

Segundos dados estimados por representantes do setor, em janeiro foram exportadas cerca de 16 mil toneladas de sucata, em fevereiro, o volume é estimado em 30 mil a 35 mil toneladas. De acordo com Fonseca, a RFR consegue obter até R$ 350 por tonelada, líquidos, com a exportação, que é negociada, em média a US$ 200 por tonelada. “Por aqui, nem se oferecer a R$ 200”, disse. O preço da tonelada de sucata metálica chegou a R$ 750 em meados do ano passado.

“A Gerdau parou de comprar em 18 de fevereiro e agora só em março, a Barra Mansa (grupo Votorantim) está no compra e para e a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) não compra nada desde outubro”, disse Fonseca. Já a ArcelorMittal, segundo agentes do setor, tem trazido produtos semimanufaturados do exterior, como forma de reduzir os estoques mundialmente. “A falta de pedidos por parte da ArcelorMittal, Barra Mansa e CSN esta ocasionando uma desestabilização do ramo sucateiro, tendo como agravante a importação de tarugos por parte da ArcelorMittal que reduziu a zero o consumo de sucata”, disse Elias Bueno, secretário-executivo do Sindicato das Empresas de Sucata de Ferro e Aço (Sindinesfa).

A entidade prevê que a curto prazo ocorrerá elevado número de fechamento de empresas ao considerar que a ociosidade já ultrapassa 50%, devendo as demissões superar a quantidade inicialmente estimada de 1,5 mil empregados. Segundo o Sindinesfa, o Brasil produzia cerca de 7,8 milhões de tone-ladas anuais de sucata e houve uma queda de 50% no processamento. “O segmento de mercado do comércio atacadista de resíduos e sucatas metálicas vem atravessando uma das piores crises dos últimos tempos e inúmeras empresas do setor sucateiro estão baixando suas portas”, afirmou.

Turquia

Como a expectativa é de que a demanda interna não retome tão rapidamente, mas comece a retornar apenas no segundo semestre, as empresas têm se juntado para buscar fortalecer a atuação junto ao mercado externo. A principal aposta é a Turquia, país que segundo os sucateiros brasileiros é o maior importador mundial de sucata de ferro, cerca de 16 milhões de toneladas anuais, o que corresponde a cerca de duas vezes a produção brasileira.

A maior dificuldade, contudo, é que o país só recebe sucata a granel, que permite o embarque de grandes volumes – de 15 mil a 20 mil toneladas – em um só navio e o Brasil não possui portos já adaptados a esse tipo de embarque, que exige além de uma área de estocagem, equipamentos especiais como garras e eletroimã, para fazer os embarques rapidamente.

Por conta disso, um grupo de empresas processadoras de sucata se reuniram e estão elaborando um estudo de viabilidade nos portos do Estado de São Paulo. “Se o mercado permanecer nos mesmos níveis dos atuais, compensa investir”, disse Fonseca. As empresas querem mostrar ao governo estadual o potencial brasileiro para exportação e pedirá uma colaboração estatal. “Estamos dispostos a investir também”, garantiu.

Investimentos

O setor planejava investir R$ 100 milhões neste ano com aquisição e modernização de equipamentos, expandindo a logística de transporte, mas os valores estão sendo repensados pelas empresas do setor, segundo o Sindinesfa. A RFR já tinha decidido aplicar R$ 4 milhões em expansão da capacidade, mas a máquina encomendada no ano passado, mas a entrega do equipamento foi temporariamente sus-pensa, disse Fonseca. A Trufer também postergou investimentos. “Haviam planos de investimentos, porém após a crise foram cortados 50% dos investimentos previstos para 2009”, informou Rodriguez.

Além do apoio do governo paulista para a exportação, o setor reivindica junto ao governo federal e órgãos públicos competentes a concessão de uma área portuária que disponha de calado e cais com dimensão apropriada para carregar e descarregar sucata ferrosa e não ferrosa; a concessão de incentivos fiscais, tarifas portuárias e pedágios diferenciados para viabilizar e estimular negociações com commodity de baixo valor agregado.

Além disso, a Sindinesfa pede a suspensão de impostos para aquisição de equipamentos utilizados na atividade sucateira e barreiras à importação de produtos semimanufaturados de aço e congêneres e a aplicação de medidas protecionistas para evitar possíveis importações de insumos utilizados na composição do aço a exemplo da sucata de ferro e aço. Entre as ideias estão a criação de linha de financiamento para subsidiar os elevados estoques do setor.

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