SMS – unindo as pontas do triângulo

O gerenciamento de segurança de vôo possibilita a análise conjunta de ameaças operacionais

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Colaboração: Arenda Freitas de Oliveira

Acidentes acompanham a história da aviação desde o seu primeiro vôo. Com o seu desenvolvimento, concluiu-se que métodos mais eficazes de prevenção deveriam ser implementados para que as tragédias fossem evitadas. Quem já esteve em alguma palestra ou aula sobre Safety ouviu, logo na apresentação de seus principais fundamentos, que esta complexa tarefa resume-se na inter-relação entre os três vértices de um triângulo: o homem, o meio e a máquina. Hoje, o estado da arte da segurança de vôo une alta tecnologia, metodologias consagradas ao longo dos anos, sistemas de gerenciamento, troca de informações entre as empresas aéreas e demais players da indústria e, principalmente, os reportes de tripulantes, controladores, funcionários e passageiros, unindo as três pontas do triângulo.

Uma visão sistêmica no gerenciamento da segurança operacional, incluindo a estrutura organizacional necessária para tal, políticas, procedimentos e pessoas responsáveis pelo seu funcionamento – Este é o conceito de SMS – Safety Management System. As principais empresas do mundo (incluindo as empresas brasileiras) já trabalham dentro deste conceito.

O principal objetivo do SMS é identificar as ameaças às operações e àqueles envolvidos nelas, através do contínuo armazenamento de dados, a análise de riscos operacionais e auditorias de segurança (incluindo no próprio SMS). A partir disto, recursos são alocados para mitigar estas ameaças.

Mas como funciona o SMS? Tudo começa com um relatório de perigo, redigido por qualquer pessoa. Tal reporte é enviado para um sistema de gerenciamento. O sistema escolhido pelas principais empresas brasileiras é o AQD (Aviation Quality Database). Este, quando operando com todos os seus módulos, permite que o reporte seja recebido pelo analista diretamente. Após análise preliminar, o analista, através do AQD, designa os responsáveis para cada tarefa na investigação do fato ocorrido, com datas limites para respostas. Todos os laudos ficam armazenados no sistema, disponíveis para os envolvidos na investigação, incluindo o relator do evento, que é capaz de saber como está o andamento das ações. A análise do evento só é considerada finalizada assim que todos os elos do processo finalizem suas tarefas e o Safety Manager da empresa decreta o final da investigação.

A grande vantagem identificada pelas empresas brasileiras para a adoção do AQD foi sua versatilidade. O sistema permite filtrar os eventos (tráfego áereo, manutenção, bird strike, flight safety, ocorrências de solo, fatores humanos, etc). O AQD possibilita a interface com sistemas FOQA (Flight Operation Quality Audit – sistema que é capaz de reproduzir o vôo em que determinado evento ocorreu através de dados gravados diretamente dos sistemas da aeronave). Existe também um módulo que possibilita uma análise dos riscos dentro do próprio sistema, registrando os resultados no estudo de cada ocorrência.

A troca de informações entre os players ocorre através da consolidação de todos os eventos detectados. Gol e Tam hoje fazem parte do STEADS (Safety Trend Evaluation, Analysis and Data Exchange System), o banco de dados se segurança de vôo da IATA, do qual fazem parte mais de 80 empresas aéreas. Relatórios STEADS são gerados regularmente, possibilitando que as empresas tenham acesso às informações sobre os eventos de segurança de vôo e consigam identificar quais são seus pontos fracos em relação à indústria.

A partir da análise dos relatórios AQD e STEADS, programa LOSA (Line Oriented Safety Audit – Auditoria de ameaças operacionais) e auditorias voltadas à segurança organizacional, a empresa pode trabalhar ações de bloqueio às ameaças identificadas. Tais ações podem incluir a reavaliação de programas de treinamento em simuladores, remodelagem de programas de CRM (Crew Resource Management), alteração de procedimentos e processos operacionais, a criação de campanhas específicas para aumentar o nível de alerta em determinada operação, entre outras inúmeras possibilidades.

É importante salientar que, apesar de robustas ferramentas como AQD, FOQA, LOSA, CRM, STEADS e outras que existem ou ainda estão por vir, o SMS só funciona se inserido em um ambiente de forte cultura de segurança de vôo, onde a elaboração de relatórios de perigo (fonte que alimenta o sistema) seja incentivada. Sem esta cultura, nenhuma ferramenta de segurança, por melhor que seja, tornará um SMS eficaz

Dan Guzzo, Piloto Comercial desde 1998
danguzzo@transportabrasil.com.br

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