Comitê ignora pressões e mantém taxa Selic em 13,75%

A taxa de juros estava estacionada em 11,25% ao ano desde setembro de 2007. Em abril deste ano, o Copom deu início a uma seqüência de altas para tentar conter a inflação no País

Paulistano deixaria carro em casa se transporte público fosse mais eficiente, mostra pesquisa
Meio Ambiente rejeita criação da Cide-Automóvel
Recuperação de rodovia na região de Guarapuava começa nos próximos dias

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em 2008, o Banco Central decidiu manter a taxa básica de juros em 13,75% ao ano. A manutenção do patamar contrariou a expectativa de setores do setor produtivo e do governo, que esperavam um “aceno” da autoridade monetária em priorizar o estímulo ao crescimento da economia. Com a determinação, o Banco Central não seguiu a tendência da maioria dos Bancos Centrais do mundo, que vem reduzindo os juros para estimular suas economias frente a crise financeira.

A taxa de juros estava estacionada em 11,25% ao ano desde setembro de 2007. Em abril deste ano, o Copom deu início a uma seqüência de altas para tentar conter a inflação no País, elevando a Selic de 11,25% para 11,75% na ocasião. Em junho, os juros sofreram mais um aumento, de 11,75% para 12,25%. Na reunião seguinte, a Selic passou de 12,25% para 13% ao ano e em setembro, a taxa subiu novamente, de 13% para 13,75% ao ano.

A aposta de que o Copom seguiria a trajetória de estabilidade da taxa cresceu na última semana. Analistas de mercado projetaram a permanência dos 13,75%. “Isso porque não vemos um cenário para corte de juros”, explicou Tomás Goulart, economista do Modal Asset. Segundo ele, a dinâmica da atividade econômica para 2009 foi alterada com a projeção de crescimento de Produto Interno Bruto (PIB) em 3% e uma eventual redução na taxa não teria força suficiente para reverte teria esse quadro significativamente, em estimular a economia. “A política monetária para 2009 estará em maior grau de dificuldade. Além de uma economia enfraquecida, terá o acumulado de 12 meses de inflação mais significativo”, frisou.

Istvan Kaszman, economista da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), diz que havia uma expectativa de mercado quase consensual de que a taxa de juros básica deveria, se não fosse mantida, ser derrubada em 0,25%. “O fundamento técnico é que os números indicam uma vertiginosa parada na economia, redução de crédito na praça e dificuldade para conseguir empréstimo, ou seja, não faria sentido subir a Selic”, afirmou. “O BC tem que estar preocupado em manter a atividade econômica, aumentando a liquidez e não queimar reservas e controlar a inflação”.

Segundo, Miguel de Oliveira, a grande volatilidade na bolsa de valores e no câmbio, o enxugamento da liquidez, a escassez de crédito e a forte desaceleração econômica mundial, que se inicia, bem como a fuga de capitais representam “perigo à vista”. Assim sendo não é o momento de se “jogar lenha da fogueira”, trazendo mais instabilidade ao mercado com uma decisão equivocada. “Este é o momento do Banco Central ousar, como aliás ousaram todos os principais Bancos Centrais do mundo, quando recentemente mesmo com o risco de uma inflação maior resolveram de forma inédita reduzir suas taxas de juros para evitar exatamente esta desaceleração econômica”, disse.

Para o presidente do conselho administrativo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade (Anefac), José Ronoel Piccin, o governo erra ao manter a taxa Selic, pois a “melhor medida seria a redução, já que mesmo com a manutenção do indicador no mês passado, os juros subiram. Isso porque os bancos estão mais preocupados com a inadimplência do que com qualquer outra coisa”, afirma. O representante argumenta que a inflação está estagnada e, como a taxa Selic serve para conter a inflação, por isso, não há razão para mantê-la. “Isso é jogar lenha na fogueira, para o Banco Central precisa ter coragem para reduzir a taxa pois seria uma sinalização de que o mercado teria melhores expectativas”, afirmou. Para Alexandre Assaf Neto, professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), a estabilidade da Selic em 13,75% significa, em primeiro lugar, que preponderou no Copom a preocupação com a evasão do dólar da economia brasileira. Fato esse, aliado a continuidade das incertezas sobre os impactos da crise. “Se reduzisse 0,25 ponto percentual, ficaríamos na mesma”, disse.

Domingo Pandeló, professor de Estratégia de Economia no Ibmec São Paulo, acredita que essa foi a reunião onde houve a maior pressão para a redução da Selic. “O governo está pensando muito em curto prazo, mas tem que pensar em termos de longo prazo dando autonomia ao Banco Central”, defende o economista

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, atacou a manutenção dizendo que “é absurdo manter a taxa de juros em nível tão elevado, quando a inflação está sob controle e precisamos lutar para impedir que haja uma queda brusca do crescimento”, ataca.

A Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio) afirma que “o BC ignora o risco do contágio pela recessão mundial e se preocupa com perigo imaginário”, afirma Abram Szajman, presidente da entidade.

COMMENTS