Ajuda a montadoras provoca polêmicas

Os consecutivos trimestres de lucros não foram suficientes nem para reanimar as vendas do setor, que dependeu de R$ 8 bilhões da União e do governo paulista para tentar restabelecer o ritmo de financiamentos

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A crise mundial pode ter abalado a confiança no crescimento sustentado da indústria automobilística no Brasil. Toda robustez dos últimos anos pode ter parado num aperto repentino do crédito, que impulsionou fortemente as vendas até setembro. Os consecutivos trimestres de lucros não foram suficientes nem para reanimar as vendas do setor, que dependeu de R$ 8 bilhões da União e do governo paulista para tentar restabelecer o ritmo de financiamentos.

“Um quadro de incertezas paira sobre um dos mercados emergentes em maior evidência; a vergonha para as montadoras terem de recorrer ao governo depois de recentes momentos de vendas e lucro em alta”, afirma um catedrático no assunto, Luiz Adelar Scheuer, que presidiu a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). “` Não guardaram dinheiro e agora estão com o chapéu na mão”, acrescenta Scheuer que, na presidência da Anfavea entre 1992 e 1995, ajudou a desenvolver o emblemático carro popular 1.0, que responde por metade das vendas do mercado nacional de carros. “Por que ajudar um setor e não outro?”

Scheuer concorda que a falta de liquidez do setor se deve a dificuldades que as filiais enfrentam hoje depois que sugar recursos para tapar o rombo nas matrizes. Os exemplos mais evidentes são o da General Motors e Ford, que registraram ganhos expressivos no mercado brasileiro nos últimos anos.

Nos últimos três terceiros trimestres, a GM registrou lucros somados de US$ 1,071 bilhão na região LAAM, que é puxada pelo Brasil. No mesmo período, a Ford teve lucros acumulados na América do Sul de US$ 1,067 bilhão, também puxado pelo mercado brasileiro. No mesmo período, nas matrizes, a GM teve prejuízo acumulado de US$ 2,79 bilhões, enquanto a Ford teve perdas de US$ 3,66 bilhões. As duas montadoras norte-americanas atravessam nos Estados Unidos a pior fase em sua existência centenária, mas no Brasil o quadro é um dos melhores dos últimos tempos.

“Por lei, a montadora pode remeter para a matriz até 100% do seu lucro”` , afirmou André Beer, ex-presidente da General Motors do Brasil e da Anfavea. “Mas ninguém remete todo o lucro porque é preciso se investir também aqui”, afirmou Beer, que durante seus mais de 40 anos de convivência na indústria automobilística enfrentou várias crises no mercado nacional — greves, congelamento de preços, Plano Cruzado, excesso de oferta e procura e desemprego, entre outros percalços. “Mas nada parece ser tão feio quanto esta crise que se abateu sobre o mercado norte-americano e obriga os fabricantes a recorreram à ajuda do governo para garantir a sobrevivência do negócio”, afirmou Beer.

Atual consultor da indústria automobilística, Beer afirmou que é mais comum as matrizes sempre injetarem recursos nas filiais que o contrário. “O Brasil já passou por muitas dificuldades e é razoável que neste momento ajudemos a companhia a se recuperar”, afirma Jaime Ardila, atual presidente da GM no Brasil e Mercosul. Mesmo com todos os problemas nos Estados Unidos, a GM prepara investimentos de mais US$ 1 bilhão no Brasil, além da construção da fábrica de motores em Santa Catarina. “A corporação também é responsável pelo crescimento econômico que o Brasil vem tendo”, afirmou Ardila.

Jackson Schneider, diretor da Mercedes-Benz e também presidente da Anfavea, afirmou que é defensável a ajuda a um setor que responde por cerca de 25% do PIB industrial do País e gera, para cada emprego na montadora, até dez postos na cadeia automotiva.

Ele afirmou que as montadoras ajudam a puxar o ritmo da economia pelo fato de o carro representar um bem de consumo muito desejado. “Toda a forma de restabelecer o ritmo de vendas é bem-vinda e os fabricantes não podem ter vergonha de ajudar o consumidor a conseguir financiar um veículo”, afirmou. “A ajuda do governo não é para a indústria e sim para o consumidor”, disse.

“A indústria automobilística já não é mais um dos principais geradores de emprego, mas tem muita força de representação na mídia e na política”, afirma Scheuer. “Ainda dá muita manchete, mas não emprega tanto quanto a construção civil”, por exemplo. “Por isso, qualquer reivindicação toma uma proporção muito grande”, acredita

Para Beer, o mercado brasileiro tem condições de se recuperar e não vai sofrer tanto quando o de países desenvolvidos. “Temos bases econômicas melhores agora e, em até dois ou três trimestres, podemos recuperar um bom ritmo de vendas, que garantam um crescimento sustentado da indústria automobilística e a manutenção do emprego”, acredita.

Wolfgang Sauer, 78, ex-presidente da Volkswagen que comandou a Autolatina na junção da montadora alemã com a Ford, também acredita na força do mercado brasileiro, que ainda tem uma proporção de 1 carro para cada sete habitantes. “É por isso que os principais fabricantes mundiais estão instalados no Brasil”, diz Sauer, alemão que tem mais tempo no Brasil que em seu país de origem. Executivo que também enfrentou grandes desafios na indústria, com a demissão de mais de 20 mil trabalhadores na Volkswagen entre os anos 70 e 80, Sauer afirmou que os atuais dirigentes da indústria automobilística têm de buscar alternativas para garantir a saúde financeira dos negócios.

Sauer cita como exemplo a exportação do Passat para o Iraque nos anos 80 em troca de petróleo. “Era uma forma de garantir dividendos para a empresa enquanto o Brasil precisava de petróleo”, lembra. “Quem dirige precisa ter sensibilidade para respostas rápidas”.

Em suas viagens mundo afora, Sauer tem ajudado a divulgar os potências do Brasil. “É um país que tem álcool, petróleo, vastas extensões de terra agricultáveis o ano todo”, enumera. O ex-dirigente da indústria afirma que demitir gera prejuízos para as empresas. “O capital humano é importantíssimo e ter que se desfazer dele abate as empresas, que podem levar anos para se recuperar”. A palavra de um ex-executivo do setor é alentadora num momento em que as dúvidas sobre o futuro deixa muitos empregados em dúvida sobre a durabilidade do trabalho no setor.

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