Liderança ameaçada pela queda nas vendas externas

Só no mês de outubro deste ano, o País deixou de vender US$ 66 milhões ao mercado externo, variação 26,8% negativa ante os US$ 245 milhões faturados no mesmo mês do ano passado

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Do suco das frutas brasileiras já não se espreme mais tanta receita quanto antes. Só no mês de outubro deste ano, o País deixou de vender US$ 66 milhões ao mercado externo, variação 26,8% negativa ante os US$ 245 milhões faturados no mesmo mês do ano passado. No caso da laranja, que compõe 42% da receita com embarques de suco, a queda registrada foi ainda maior. Em outubro, o valor das exportações foi de US$ 164,4 milhões contra US$ 235,8 milhões do período em 2007 – naquele ano, o suco de laranja representava 30% da receita obtida com as exportações.

Segundo o analista Maurício Mendes, da empresa de consultoria AgraFNP/GConci (Grupo de Consultores em Citrus), esses dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) divulgados pelo Ministério da Agricultura (Mapa), “ainda não são um reflexo direto da crise financeira”. Mendes explica que essa retração do mercado externo, já vinha sendo sentida antes mesmo do início da crise e, portanto, pode se agravar com ela no último trimestre do ano. O consultor se apoia ainda no estoque norte-americano para explicar o baixo fluxo de suco brasileiro rumo ao mercado internacional. “O estoque nos Estados Unidos nas mãos dos compradores está muito alto, em torno de 410 mil toneladas”.

O vice-presidente da empresa de consultoria New Edge, com sede em Nova York, Michael Mcdougall, calcula que a quantidade de suco de laranja estocada em setembro em solo americano era 91% maior que em igual período de 2007 – ano em que o País sofreu uma considerável quebra de safra -, já em relação a agosto o volume do estoque recuou 10%. Na medida cotada na Bolsa de Chicago, havia 1,187 bilhão de libra-peso, ou 26,16 milhões de toneladas da bebida, número bem maior do que se calcula por aqui.

A Secex registrou também redução de 20,5% no mês de outubro na contagem do volume de suco de frutas que alcança o mercado externo. Os índices apurados pela Secretaria se mantêm em queda também em relação aos preços. No mesmo mês, a cotação da tonelada caiu 7,9% no mercado internacional, variação que fica ainda mais negativa quando a Secex compara o valor pago no acumulado de janeiro a outubro deste ano com o do ano passado – 8,4% negativo.

A tonelada do suco que hoje não é exportada por mais de mais de US$ 872, leva a indústria a pagar cerca de US$ 3,60 pela caixa de laranja produzida em São Paulo, maior exportador do globo. Mesmo com o câmbio atual, esse preço não cobre boa parte dos custos de produção.

Levantamento feito pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponta que o custo variável em Bebedouro, interior paulista, é de R$ 12,10. Como os produtores negociam a caixa da fruta em contratos pré-fixados com o dólar a cerca de R$ 2,10, ele fica com um prejuízo de cerca de R$ 4,54 em cada caixa negociada. Marco Antônio dos Santos, presidente do Sindicato Rural de Itaquaritinga, afirma que por lá o prejuízo é ainda maior, pois o custo de produção na região, segundo ele, não sai por menos de R$ 13.

Produtor de uma área de 60 hectares cobertos por 25 pés de laranja, Marco Antônio não pensou duas vezes na hora de optar por comprometer a produtividade, acima da média, de três caixas por árvore. “Vou suspender a adubação, ou vai ficar impossível sustentar o prejuízo”, lamenta. A quebra de safra do produtor em 2008 vai ser de 50%, o Estado deve amargar quebra de 15% em relação ao ano anterior, isso por causa dos problemas climáticos enfrentados há exato um ano. “E olha que em outubro deste ano, época de floração, a incidência de chuva também não foi das melhores”, lembra o produtor.

“Esse ano o nosso prejuízo está fora da realidade. A situação está muito difícil, muitos produtores não conseguiram pagar os investimentos realizados no ano passado. Estamos vivendo com certeza um dos piores anos para o setor” Santos reclama ainda da falta da mão-de-obra durante a colheita.

De acordo com os cálculos da New Edge, o preço da libra-peso do suco de laranja se recuperou um pouco, mas ainda continua registrando queda de cerca de 40% em relação aos verificados há um ano. Para Mendes, os preços pagos nos EUA e no mercado europeu prejudicam a renda do citricultor brasileiro. “Eles vivem um momento de muita preocupação. Ainda não vamos perceber uma retração imediata da lavoura porque é uma cultura perene, o reflexo só vem se essa queda persistir. (Gilmara Botelho – Gazeta Mercantil)

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