Entrevista com Clésio Andrade, presidente da CNT

Leia aqui a íntegra da entrevista exclusiva concedida ao Portal Transporta Brasil pelo presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Clésio Andrade

Plantão Covid-19 – episódio 15 – A visão das empresas de motofrete
Acadêmico em Transportes comenta a mobilidade urbana no ABC Paulista
Empresário comenta o caótico cenário das operações urbanas de transporte em SP

Leia aqui a íntegra da entrevista exclusiva concedida ao Portal Transporta Brasil pelo presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Clésio Andrade:

Portal Transporta Brasil: Com a crise internacional, já vemos a queda na demanda por commodities como um efeito que afeta os transportes. A falta de infra-estrutura no Brasil pode ser um agravante para as empresas brasileiras do setor?

Clésio Andrade: A atividade transportadora é muito sensível às variações da economia. Se por um lado, o relativo crescimento econômico verificado até o momento refletiu-se no aumento da demanda pelos serviços. Por outro, a crise econômica internacional já está atingindo alguns setores da economia e deve afetar também o transporte. A questão da falta de infra-estrutura, especialmente de transporte, no Brasil é séria, antiga e crônica. E dela se pode dizer que em momentos de crescimento sua falta impede que o país cresça mais e em momentos de estagnação ou pouco crescimento há um recrudescimento dos aspectos negativos. Por exemplo, no modal rodoviário, a falta de infra-estrutura diz respeito principalmente à disponibilidade de rodovias com qualidade. As péssimas condições do pavimento das rodovias brasileiras implicam em maior consumo de combustível, maior desgaste do veículo e maior tempo de viagem. Uma rodovia ruim para o transporte eleva o custo de manutenção do caminhão em cerca de 20%, além de maior consumo de combustível. Na última Pesquisa Rodoviária CNT foram avaliados 87.592 km de rodovias pavimentadas e em 73,9% desse total, ou seja, 64.699 Km, foram encontrados alguma deficiência, o que mostra a gravidade do problema. Um dos principais problemas no transporte ferroviário é a baixa cobertura do serviço diante da imensidão desse país. Além disso, verifica-se reduzida velocidade de operação, em grande parte devido à passagem por áreas urbanas, provocando acidentes, encarecendo o transporte e depreciando a qualidade dos serviços. O transporte marítimo precisa de infra-estrutura portuária mais moderna, tanto na ampliação, dificultada pela ocupação habitacional desordenada em áreas circunvizinhas, quanto na facilidade de acesso terrestre. Os portos carecem também de obras de dragagem pelo reduzido calado, para permitir atracação de navios maiores. Pelo grande potencial hidroviário que o país possui, haveria necessidade de maiores investimentos para a qualificação das hidrovias, principalmente para a construção de eclusas e sistemas de sinalização. Por todas as condições desfavoráveis na infra-estrutura, o custo logístico brasileiro está estimado em 12,6% do PIB. Comparando com os Estados Unidos, onde o custo representa 8,6% do PIB e cuja infra-estrutura é bem superior à nossa, do ponto de vista da qualidade (e da quantidade também), têm-se a diferença de 4% do PIB nacional, representando, somente no ano passado, perdas na ordem de R$ 102 bilhões. Considerando que a atividade transportadora no Brasil, dentre os custos logísticos, representa 7,5% do PIB brasileiro, e, ainda em relação aos Estados Unidos, onde o custo logístico do transporte corresponde a 5% do PIB de lá, a diferença de 2,5% totaliza, então, aproximadamente R$ 64 bilhões, em razão dos gargalos da nossa infra-estrutura de transporte.

Portal Transporta Brasil: Que tipo de benefícios o governo poderia conceder ao setor para amenizar este desaquecimento na demanda?

Clésio Andrade: O transporte brasileiro como atividade econômica gera riquezas na ordem de 6,5% do PIB e garante aproximadamente 2,5 milhões de empregos diretos, o que faz do setor uma das mais importantes atividades. Ao transporte brasileiro faltam bases estruturais mais favoráveis para promover sua missão com mais qualidade. Há décadas as rodovias do país não recebem a atenção necessária da parte do poder público. Os níveis de investimento para a manutenção e conservação da malha rodoviária brasileira são irrisórios diante dos muitos problemas que apresenta. No ano de 2002, foi instituída a CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), com a finalidade de criar recursos para investimento, entre outras coisas, na infra-estrutura de transporte. No último mês de agosto a contribuição atingiu a significativa cifra de R$ 50 bilhões arrecadados desde sua criação. E, deste total, apenas 34,1% (R$ 17,3 bilhões) foram efetivamente utilizados no pagamento de obras. Cumprindo seu papel como entidade máxima representativa da atividade transportadora brasileira, como resultado de seus estudos técnicos, a Confederação Nacional do Transporte lançou o Plano CNT de Logística, um conjunto de projetos que abrangem a construção, adequações e recuperações da infra-estrutura do transporte nacional. O Plano prioriza a intermodalidade, a acessibilidade aos pontos de exportação, a integração entre as zonas de produção e de consumo interno e a conexão com os países da América Latina. As propostas de intervenção do Plano dividem-se em projetos rodoviários, aeroportuários, ferroviários, hidroviários, metroviários, Trem de Alta Velocidade (TAV) e de terminais. Os levantamentos financeiros contidos no estudo indicam a necessidade de investimentos de R$ 280 bilhões para que a infra-estrutura de transporte seja recuperada e adquira padrões satisfatórios de segurança e desempenho. Só as rodovias exigiriam, em longo prazo, investimentos da ordem de R$ 125,9 bilhões. Os custos de operação em transportes já há algum tempo vêm dificultando a atuação empresarial no setor, reduzindo sobremaneira a atratividade do negócio. A alta incidência de impostos e tarifas é um dos grandes entraves a limitar a expansão da atividade, muito embora seja uma questão que atinge o conjunto do segmento produtivo nacional. Os transportadores aguardam com ansiedade uma reforma tributária que desonere a atividade produtiva e retire as amarras que impedem o crescimento do setor. Os encargos trabalhistas representam um ônus. Se racionalizado e tratado dentro de uma visão que permita mais flexibilidade para o empresariado e que também não implique em perdas para o trabalhador, haveria maior flexibilidade para a administração dos negócios. Uma reforma trabalhista que contemple maior autonomia para o empresário transportador certamente garantiria oportunidade mais clara de crescimento, gerando novos empregos. A adoção de medidas que favorecessem a renovação da frota também ajudaria a assegurar a manutenção de milhares de empregos e possivelmente até a abertura de novas vagas na indústria, no comércio e também em nosso setor. Os programas de financiamentos do governo para a atividade transportadora sempre foram muito tímidos. Outro expressivo custo dos transportadores são os combustíveis. O óleo diesel representa parte significativa das despesas das empresas. Mas a maior necessidade é que haja incentivos na área fiscal e que se assegurem pesados investimentos em infra-estrutura. Em todas essas situações, o governo poderia intervir de maneira positiva.

Portal Transporta Brasil: Uma boa notícia é a diminuição do tempo de espera para a compra de caminhões e vagões. Este indicador pode ser um sinal verde para as empresas investirem em frota?

Clésio Andrade: Ainda não está bem claro se a diminuição do tempo de espera para novos veículos é por cautela dos transportadores que estão adiando os projetos de aquisição de novos caminhões e abandonando as filas das concessionárias ou se as montadoras estão agilizando o atendimento.

Portal Transporta Brasil: No setor aquaviário, a cabotagem e o transporte fluvial sofrem com o Custo Brasil. Estes setores também poderão ser afetados pela crise?

Clésio Andrade: Sem dúvida que o transporte fluvial e a cabotagem sofrem com os problemas de infra-estrutura e terminam por não terem seu potencial transportador totalmente explorado. Comparando com transporte aquaviário dos Estados Unidos, fica bem ilustrado o descaso deste modal no Brasil. Os EUA possuem uma das mais eficientes redes hidroviárias do mundo, com 47 mil km e 250 eclusas pelas quais são transportados todos os tipos de cargas, especialmente, a safra agrícola.  Cerca de 61% da soja produzida naquele país é escoada pelo complexo hidroviário o que faz com que o custo do produto americano chegue a ser quase três vezes menor que a soja produzida no Centro-Oeste brasileiro. O frete nas hidrovias americanas chega a representar cerca de 5% do frete de transporte rodoviário. O sucesso do sistema hidroviário dos EUA, considerado o mais moderno do mundo, se deve ao planejamento integrado e ao investimento em projetos que consideram o uso múltiplo das águas (utilizado mais tarde por outros países): transporte, geração de energia elétrica, proteção contra enchentes, navegação, irrigação etc. Portanto, o Brasil está ainda numa fase inicial de exploração de seu potencial aquaviário.

Portal Transporta Brasil: O ano de 2008 foi bom para os transportes no Brasil? Que balanço o senhor faz até o momento?

Clésio Andrade: Podemos dizer que do ponto de vista do business, a atividade transportadora deve encerrar o ano com saldo positivo, muito mais como resultado do impacto do bom momento econômico global e seu reflexo na economia brasileira e também pela competência empreendedora da categoria. O aquecimento da demanda por transporte, neste ano, exigiu um esforço redobrado dos transportadores. Mesmo com todos os aspectos positivos pelo maior número de contratos, os transportadores continuam realizando os serviços de transporte dentro das limitações de sempre da infra-estrutura. O que traz conseqüências que comprometem, em longo prazo, o crescimento do país e, de imediato, dificultam a expansão dos serviços do transporte, representando menos empregos e menos riqueza gerada.  Não há como o governo manter um bom desempenho econômico com gargalos na atividade transportadora como o que está se formando no transporte de cargas. O desenvolvimento do setor de transporte dos grandes países é prioritário quando se pensa em sustentabilidade econômica. Não há outra forma.  A crise econômica internacional, embora já esteja afetando muitos setores da economia, ainda não atingiu de maneira mais intensa a atividade transportadora. Mas, o fato é que, apesar de ter experimentado durante todo o ano as conseqüências do bom momento econômico, a crise deve impactar na atividade transportadora, no mínimo, potencializando antigos e permanentes problemas crônicos e deve causar grandes prejuízos.  Com a crise financeira e a já constatada diminuição das exportações e importações, a oferta de fretes, até hoje com demanda aquecida, deve sim ser afetada e se retrair. E os primeiros atingidos serão os transportadores autônomos. Contratados pelas empresas, os autônomos podem ser dispensados e o transporte passar a ser feito exclusivamente por frota própria. Ao mesmo tempo em que a CNT sugere prudência aos transportadores, sugere criatividade e competência ao governo. Se as autoridades públicas buscam medidas para amenizar ou neutralizar os efeitos da crise financeira nas principais atividades econômicas, no setor transportador seria suficiente, e o momento é oportuno, que fossem consideradas as reivindicações que a Confederação há muito apresenta. Incentivos na área fiscal diminuiriam consideravelmente os custos empresariais. O subsídio ao óleo diesel poderia assegurar a manutenção de milhares de empregos e possivelmente até a abertura de novas vagas, afastando definitivamente o risco de recessão. Os programas de financiamentos do governo para a atividade transportadora sempre foram muito tímidos e insipientes. Uma boa medida para manter a atividade transportadora em condições de operação é a possibilidade de créditos mais baratos, com financiamentos especiais que permitam o incremento da atividade.  A atividade transportadora ocupa espaço importante no desempenho econômico brasileiro e tem potencial para realizar muito mais.

Agradecimento especial: Jorge Menezes

COMMENTS