Solidão logística

Falta de uma política integrada de transporte isola os aeroportos brasileiros

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Thomas Merton escreveu sua obra “Nenhum homem é uma ilha” considerando o homem como um ser social, que não consegue viver isoladamente. Traçando um paralelo à aviação, vemos que a tese de Merton pode nos ensinar muito. “Nenhum aeroporto pode ser uma ilha”. Infelizmente não podemos dizer o mesmo dos aeroportos brasileiros. Sofremos no Brasil do que poderíamos chamar de um isolamento modal de nossos terminais aéreos.

Por sermos um país de dimensões continentais, o transporte aéreo é uma indústria de valor vital à integração comercial e econômica de nossas cidades. Nossa malha aérea pode ainda não ser a ideal para esta integração, mas funciona de forma razoável. O grande “gargalo” desta indústria é a transição entre a viagem aérea e os outros modos de deslocamento, tanto para passageiros quanto para o transporte de cargas.

Enquanto nas grandes cidades do mundo encontramos dentro dos terminais aéreos estações de trem, metrô e ônibus, nos aeroportos brasileiros as opções são extremamente escassas. Somado a isto, a localização de alguns acaba tornando a situação ainda mais calamitosa.

Peguemos como exemplo o Aeroporto Internacional de Guarulhos, principal hub da América do Sul. Mais de 23 anos após sua construção, ainda não existe uma ligação ao centro da cidade de São Paulo que não seja rodoviária (o início das obras para construção de uma linha férrea com este fim está prevista para o começo de 2009), sendo seu acesso extremamente complicado nos horários de pico devido ao caótico trânsito da cidade.

O problema não se limita apenas àqueles que se dirigem à Capital paulista. Numa situação hipotética, alguém que desembarca em Guarulhos e pretenda ir à cidade de Jacareí (por volta de 70km de distância), tem apenas duas opções: táxi (onde o custo de deslocamento poderá ser mais alto do que sua viagem de avião)  ou deslocar-se até o terminal rodoviário do Tietê através de uma linha especial de ônibus, onde pegará uma linha rodoviária regular para a cidade. Na segunda opção, nosso amigo estará entregue ao mesmo trânsito já citado anteriormente, além de uma completa falta de estrutura no terminal rodoviário (principalmente se este não falar português). Neste caso, seu tempo de deslocamento terrestre pode superar, em muito, o de deslocamento aéreo.

Esta conjuntura não é uma exclusividade de Guarulhos, tampouco do transporte de passageiros. À exceção do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, onde existe a opção do deslocamento através do trem metropolitano, os aeroportos das nossas principais cidades sofrem do mesmo mal. Os portos estão distantes dos aeroportos, não temos uma interligação que não seja rodoviária e nossa subdimensionada estrutura ferroviária passa longe dos terminais aéreos. Tudo isso aumenta os custos de nossos produtos e de nossas viagens, dilatando o tempo de deslocamento entre os pontos.

Muito se fala da necessidade de uma política clara e bem definida para a aviação brasileira, porém o desafio é muito maior: é preciso definir, antes de tudo, uma política de transportes, que interligue os modais de forma inteligente, rápida e objetiva. Desta forma, faremos valer o alto custo do transporte aéreo na troca pela sua agilidade. Caso contrário, estaremos sempre pousando em ilhas no meio de um grande oceano chamado Brasil.

Dan Guzzo, Piloto Comercial desde 1998
danguzzo@transportabrasil.com.br

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