Entrevista com o prefeito Gilberto Kassab: “Não existe perigo de desabastecimento em SP”

Kassab concedeu entrevista exclusiva ao Portal Transporta Brasil e falou sobre a circulação de caminhões em SP

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Em entrevista exclusiva ao Portal Transporta Brasil, o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab fala sobre as restrições aos caminhões na cidade e diz que não há risco de desabastecimento por causa das novas regras para circulação de cargas nas ruas paulistanas.

Em 12 perguntas, o Portal Transporta Brasil passou por assuntos como congestionamentos, mobilidade urbana, restrições ao caminhão, frota pirata, transporte coletivo e outros temas que mexem com o dia-a-dia dos usuários do transporte em São Paulo e com as regras que regem a circulação de cargas na Metrópole.

Na entrevista, Kassab afirma que a prefeitura não considera que a restrição à circulação de caminhões em São Paulo possa trazer risco de desabastecimento da cidade e considera que investimento em aquisição de novos veículos por parte de empresários do transporte de cargas é injustificável.

Leia a entrevista na íntegra:

Portal Transporta Brasil: Que resultados a Prefeitura/SMT/CET espera com a restrição aos caminhões?

Gilberto Kassab: O resultado, os paulistanos já conseguem observar nas ruas. A fluidez do trânsito na capital melhorou, em média, 30% depois das medidas de restrição aos caminhões. A estimativa da Secretaria Municipal de Transportes (SMT) é de que o trânsito melhore entre 14% e 17% quando todos os colégios e faculdades voltarem ao normal. Não podemos deixar de agradecer aos caminhoneiros que aderiram ao rodízio e têm colaborado para melhorar o trânsito para os 11 milhões de habitantes da cidade.

Portal Transporta Brasil: É sabido que a mobilidade urbana é uma das questões mais críticas em nossa cidade. Que outras medidas a Prefeitura prevê para este problema?

Gilberto Kassab: Diversas medidas vêm sendo adotadas nesse sentido desde outubro do ano passado. A ampliação da Zona de Máxima Restrição de Circulação (ZMRC) de 25 quilômetros quadrados para 100 quilômetros quadrados é uma delas. O estabelecimento de novas regras para circulação de caminhões de pequeno, médio e grande portes nessa região, além da implantação de rodízio para caminhões em vias que circundam essa área, já reduziram consideravelmente os congestionamentos.

Além do espaço que ocupam e da lentidão com que se locomovem, os caminhões também geram enormes problemas quando quebram. Diariamente, cerca de 32 caminhões quebravam dentro da ZMRC, ou seja, só nesses 100 quilômetros quadrados da restrição. Cada caminhão quebrado leva de 40 a 50 minutos para ser removido, provocando atrás de si um congestionamento, ou pelo menos uma lentidão, de cerca de nove quilômetros. Ao proibir a circulação de caminhões das 5h às 21h estaremos evitando também esses contratempos.

Porém, para transformar efetivamente a situação atual é necessário investir simultaneamente em diversas ações. Outra medida adotada que tem apresentado resultados significativos é a criação e melhoria dos corredores de ônibus. Como a construção do Corredor Expresso Tiradentes, que vai beneficiar cerca de 400 mil usuários por dia quando estiver completo. Ou os corredores Celso Garcia, para atender 500 mil pessoas e o Berrini, que deve atender a 150 mil passageiros. Ambos estão em fase de licitação. Também são importantes os chamados “corredores virtuais”, que são trechos de circulação restrita de ônibus, além da implantação de linhas expressas.

Dois bons exemplos dessas medidas são o corredor da Rua Clélia que reduziu em cerca de 39 minutos o tempo de viagem entre a Rua Clélia até a Praça Cornélia, que antes era feito, em média, em 45 minutos e passou a ser executado em um período de 6 a 8 minutos; e também a implantação da linha Expressa A. E. Carvalho que possibilita realizar um trajeto de 15 quilômetros em 44 minutos, contra a média anterior de 1 hora e 20 minutos, sendo que com um automóvel, o mesmo percurso é feito, em média, em 1 hora.

Outro ponto a ser trabalhado fortemente é a questão do estacionamento. Nós fizemos um piloto na Rua Bela Cintra, retirando uma faixa de estacionamento e liberando-a para o tráfego de veículos. Isso aumentou em 30% a fluidez daquela via. Por conta dos bons resultados, concebemos e estamos aplicando neste momento, um pacote que altera a regulamentação do estacionamento em 23 ruas da região dos Jardins e da Consolação. Isso vai liberar mais espaço para a circulação de automóveis e ônibus.

Além disso, não se pode esquecer que, pela primeira vez em 30 anos, a Prefeitura Municipal de São Paulo está investindo na expansão do Metrô, com um aporte de R$ 1 bilhão para obras, um fato histórico.

Portal Transporta Brasil: A principal reclamação dos empresários de transporte de cargas é a não permissão do VUC para circular na ZMRC. Qual estudo resultou nesta restrição em específico?

Gilberto Kassab: Os VUCs não estão sendo proibidos de circular. Eles apenas estão restritos em determinados horários do dia, nos quais só podem circular VUCs de placas par ou de placas ímpar. A Prefeitura, através da Secretaria de Transportes, está regulamentando a circulação dos VUCs em prol de um bem maior, que é a fluidez do trânsito. Os donos de automóveis deram a sua contribuição há 10 anos, com a implantação do rodízio e agora é a vez dos caminhoneiros. Temos certeza que com o aumento da fluidez todos sairão ganhando e com o tempo das 10 às 16 horas, revezando os dias pares e impares, o abastecimento e os serviços estão garantidos.

Portal Transporta Brasil: A imagem do caminhão perante os motoristas particulares é a de que este tipo de veículo atrapalha o trânsito, com quebras e acidentes, gerando grandes congestionamentos. Esta premissa foi considerada para a elaboração do Decreto? Até que ponto este fato influiu para o texto final?

Gilberto Kassab: A elaboração do decreto obedeceu rigorosamente a critérios técnicos, tais como a quantidade de veículos, o tamanho e a velocidade. Por exemplo, um automóvel quebrado durante 15 minutos em uma via de trânsito rápido provoca um quilômetro de lentidão. Já um caminhão, no mesmo período, provoca três quilômetros de congestionamento.

Portal Transporta Brasil: Os empresários temem que, com a proibição de veículos maiores, o transporte tenha que ser feito com utilitários e outros tipos de carros. Isto não levaria mais motores para poluir o ar da cidade? Qual impacto ambiental a Prefeitura prevê para o cenário após a entrada em vigor das restrições?

Gilberto Kassab: São Paulo conta com uma área de 1.509 km², fora toda a área da Grande São Paulo e adjacências. A restrição de circulação se aplica apenas a uma área de 100km2 da cidade e mesmo assim, os caminhões podem circular nesses locais no período noturno. O rodízio de placas atinge uma área de 150 km2, ou seja, cerca de 10% da área da cidade e as regras do rodízio só impedem a circulação de 20% dos caminhões durante 6 horas em um dia da semana. Portanto, o investimento com a aquisição de novos veículos não seria justificável, já que o transporte e entrega de mercadorias pode ser otimizado com uma adequação logística. Além disso, os caminhões vão circular em períodos com menor volume de automóveis, o que ajuda na fluidez e na economia de combustível, o que resulta na menor poluição.

Portal Transporta Brasil: Existe um plano de contingência que preveja um possível desabastecimento dos bens de consumo na cidade caso as transportadoras tenham dificuldades em entregar e coletar as cargas?

Gilberto Kassab: Não existe este perigo. Em diversas grandes cidades do mundo a restrição de caminhões foi implantada e não temos notícias de desabastecimento em nenhuma delas. Sabemos que com um pouco de logística tudo pode ser resolvido.

Portal Transporta Brasil: Estamos em período de férias escolares, mas mesmo assim tivemos alguns dias com média de 150 km de congestionamento nos horários de pico. Este resultado não é incompatível com o cenário de restrições aos caminhões, que tem como objetivo minorar os congestionamentos?

Gilberto Kassab: Outro fator de criação de congestionamentos na cidade é o grande número de automóveis quebrados ou acidentados que acabam por paralisar temporariamente o fluxo do trânsito. Para aliviar esse problema, a CET adquiriu 48 novos guinchos que serão colocados em pontos estratégicos da cidade, de forma a otimizar a remoção desses veículos e, assim, diminuir os transtornos gerados para a cidade.

Portal Transporta Brasil: Especialistas do setor consideram que a grande “frota pirata” circulando na cidade (veículos com grande inadimplência em relação ao IPVA, licenciamento e multas) é o verdadeiro vilão do trânsito de São Paulo. O que a prefeitura pode fazer para mudar esta realidade?

Gilberto Kassab: A Prefeitura já vem tomando providências nesse sentido. Parte do Fundo Municipal de Desenvolvimento de Trânsito (verba proveniente das arrecadações com multas de trânsito) também vai financiar a implantação do Programa de Identificação Automática de Veículos (Priav), que prevê a fiscalização do trânsito por meio de chips acoplados aos pára-brisas dos veículos. São Paulo deverá ser a primeira cidade do país a aderir ao Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos e a implantação desse sistema vai retirar de circulação todos os carros em situação irregular.

Portal Transporta Brasil: Com o rodízio de VUCs, placas pares e ímpares, a Prefeitura não teme que os transportadores vão adquirir veículos extras, que poderão ter manutenção precária e, conseqüentemente, gerar mais quebras e mais congestionamentos?

Gilberto Kassab: Mais uma vez quero ressaltar que a restrição atinge apenas uma área de 150 km². Uma transportadora que tenha carros com placas com finais pares e ímpares pode adequar suas entregas de forma que os veículos com placa par atuem fora da área de restrição nos dias ímpares e vice-versa.

Portal Transporta Brasil: Como está o projeto Nova Bandeirantes, que prevê a transformação da Avenida que liga o Sistema Anchieta Imigrantes à Marginal do Pinheiros em uma via expressa? Que impacto positivo esta obra terá sobre o trânsito da Capital?

Gilberto Kassab: O projeto de modernização dessa avenida consiste em criar duas faixas centrais exclusivas para caminhões, eliminar por meio de túneis os cruzamentos com semáforos e adicionar mais uma faixa às quatro atualmente existentes em cada sentido. Ou seja, o corredor que atualmente conta com quatro faixas em cada sentido, passará a ter seis em cada sentido. Esperamos, com essa obra aumentar a velocidade média da via em 75%, reduzir a extensão dos congestionamentos em 50% e diminuir as ocorrências em 30%. Esse projeto é fruto de uma parceria entre Prefeitura e o Governo do Estado e o processo de licitação deve começar ainda neste ano.

Portal Transporta Brasil: O pedágio urbano é um assunto considerado pela gestão Gilberto Kassab?

Gilberto Kassab: O pedágio urbano não vem sendo considerado por esta gestão, já que é uma medida que privilegia as pessoas de maior posse e penaliza aqueles que têm menos condições financeiras.  A Prefeitura prioriza o transporte coletivo de qualidade, por isso optamos por investir na renovação da frota de ônibus. Ainda neste mês vamos entregar o ônibus novo de número 6 mil. Também investimos em corredores de ônibus e no metrô.

Portal Transporta Brasil: Até que ponto as entregas noturnas têm sido adotadas na Capital?

Gilberto Kassab: Pelas informações que dispomos, as empresas estão se adequando facilmente às medidas. Até o momento, Secretaria Municipal de Transportes não recebeu, por parte das entidades representativas do comércio ou da indústria, qualquer reclamação referente dificuldade ou impossibilidade de entrega de mercadorias.

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