Transportadoras recusaram cargas

Com aumento de custos e dificuldade em ampliar a frota e contratar mão-de-obra especializada, setor de transporte rodoviário está privilegiando os clientes mais rentáveis.

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Nos últimos 12 meses, 82% das transportadoras recusaram clientes por falta de capacidade ou porque a operação não era rentável. A constatação é de uma pesquisa do Centro de Logística da Coppead, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com 65 empresas do setor. Mais da metade (51%) delas afirmam que a oferta de transporte está no limite da capacidade. “Com as limitações para aumentar a frota e o encarecimento do frete, as transportadoras passaram a dar prioridade aos que aceitam pagar mais”, diz o diretor da consultoria de negócios Partner Consulting, Rui Rocha.

Segundo ele, a situação é pior para quem vende commodities agrícolas. Nesse setor, em que o preço do produto é estabelecido pelo mercado, a empresa ou produtor não tem como compensar o maior custo do transporte – que tem peso significativo no orçamento. “Em geral, quem vende produtos de maior valor agregado, com algum grau de transformação, conseguiu negociar com o transportador”, diz Rocha.

O diretor de uma transportadora de Maringá conta que teve de recusar uma série de pedidos de usinas de açúcar e álcool (cujos preços recuaram neste ano), ao passo que a negociação com produtores de grãos foi um pouco mais fácil. Gilberto Cantu, diretor da Transportes Diamante, de Curitiba, tem discurso semelhante. “Com a demanda aquecida e o aumento dos nossos custos, tivemos que dar prioridade aos clientes mais rentáveis, até para continuar oferecendo um atendimento de qualidade.”

Fernando Klein Nunes, que é dono da Transportes Leal e presidente do Sindicato das Transportadoras de Cargas do Paraná (Setcepar), conta que sua empresa precisa investir R$ 2 milhões na compra de seis novos veículos, mas não encontra oferta no mercado. “Os preços vêm subindo. As montadoras retiraram todos os descontos.” Nunes diz que, com previsão de crescer 20% em 2008, as transportadoras têm dificuldade até para encontrar mão-de-obra especializada para operar os caminhões. “Preciso de pelo menos oito motoristas para operar os novos veículos e está difícil. Estamos fazendo uma ginástica gigante.”

Frota própria

Mesmo quem trabalha com frota própria passa por apuros. Com as encomendas em alta, várias empresas tiveram de terceirizar parte do transporte enquanto esperavam pela chegada de caminhões novos. “Nossa produção cresceu 50% neste ano. Com os cinco caminhões que tínhamos, não conseguiríamos dar conta da demanda, então contratamos três caminhoneiros autônomos. Conseguimos comprar um caminhão novo, mas agora temos que esperar por um equipamento da carreta, que deveria ter chegado em um mês mas já demorou cem dias”, explica Humberto Cabral, diretor da Embafort Embalagem Industrial, que produz embalagens para multinacionais instaladas em Curitiba e região.

A Perfimec, que fornece chapas de aço cortadas e dobradas à indústria metalúrgica, teve de renegociar com alguns clientes o prazo de entrega das encomendas. “Tivemos de alongar o prazo em 20 ou 30 dias em certos casos. Os próprios clientes sabiam dessa possibilidade, porque eles também têm problemas parecidos”, conta o diretor administrativo da empresa, Ivo Wolff Júnior. Com uma frota de cinco caminhões, a empresa aguarda a chegada de dois veículos comprados há 60 dias. No momento, 20% de suas entregas estão sendo feitas por transportadoras contratadas.

Inflação

Por enquanto, o aumento dos custos com o transporte rodoviário – responsável por movimentar mais de 60% das cargas que circulam no país – está atrapalhando mais a vida das empresas. Mas os impactos podem chegar ao consumidor em breve. Segundo Mário Stamm, consultor de logística e infra-estrutura da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), o cenário tende a piorar ainda mais os índices de inflação. “Os gargalos têm um efeito inflacionário”, diz Stamm.

Setor precisa de R$ 100 bilhões

O setor de transporte necessita de investimentos de R$ 109 bilhões nos próximos cinco anos em rodovias, ferrovias, portos, hidrovias, aeroportos e metrôs para fazer frente ao crescimento da economia. Hoje, o país investe apenas 58% do montante necessário, segundo estudo da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib). Os gargalos no setor são um dos principais componentes do chamado “custo Brasil”, que diminui a competitividade da produção nacional.

Por deficiências de logística, exportar uma tonelada de soja do Brasil, por exemplo, sai US$ 45 mais caro do que dos Estados e da Argentina. Estradas mal conservadas, ferrovias ainda carentes de investimentos, hidrovias subutilizadas e portos congestionados se traduzem em custos para produção e para as exportações, já prejudicadas pelo câmbio desfavorável. O custo da logística representa 12% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil – em países como os Estados Unidos, essa proporção está em 10%.

Para especialistas, parte das desvantagens do Brasil nessa área está no fato de o país ser extremamente dependente do transporte rodoviário – mais caro do que a ferrovia e a hidrovia. “O país precisa diversificar sua matriz, com maiores investimentos na ferrovia”, sugere Maurício Lima, pesquisador do Centro de Estudos em Logística do Coppead, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFPR). “Há um risco iminente de novos gargalos, com uma pressão generalizada por reajuste nos fretes de carga”, afirma o diretor da Associação Nacional dos Usuários de Transporte de Carga (Anut), Renato Voltaire. “O maior problema é a lentidão do poder público. Basta ver os números do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], cujos investimentos viabilizados estão muito abaixo do programado.”

Segundo a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), somente em portos, o país precisa dobrar sua infra-estrutura para atender o crescimento da produção agrícola em dez anos. “Seriam necessários US$ 30 bilhões para elevar a capacidade de 700 milhões para 1,4 bilhão de toneladas”, diz o consultor de logística e infra-estrutura da CNA, Luiz Antonio Fayet.

De acordo com a Associação Brasileira de Terminais Portuários (ABTP), o setor tem programado R$ 9 bilhões para os próximos cinco anos. “É preciso, além de investir em aumento da capacidade, investir em melhorias, como a dragagem do Porto de Paranaguá ”, diz o presidente da entidade, Wilen Manteli. Com taxa de ocupação perto de 90%, o Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP) antecipou em um ano os investimentos de R$ 25 milhões em novos equipamentos para atender o aumento da demanda, segundo Juarez Moares e Silva, superintendente do terminal. No primeiro semestre, o movimento cresceu 5%, para 276 mil TEUs (medida que equivale a um contêiner de 20 pés), com alta de 11% na exportação e 29,45% nas importações.

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