Caminhoneiros e Governo debatem realidade do transporte em meio à crise de representação

Caminhoneiros e Governo debatem realidade do transporte em meio à crise de representação

Caminhoneiros reclamam de más condições de trabalho e pedem ao Governo que tome medidas para mudar o cenário, em meio a uma crise de representatividade da categoria

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Haverá ou não uma greve no dia 29? Quem representa de fato os caminhoneiros? A categoria falar sobre a necessidade ou não de greve é um movimento político ou é reflexo de profissionais esmagados pela devagar recuperação econômica? Estas são algumas perguntas difíceis que não possuem resposta no momento, afinal cada caminhoneiro responderá de acordo com a sua própria situação financeira e dentro de sua visão política de maneira individual. Voltaremos à elas no futuro em outros posts.

Há, no entanto, dois fatos sobre a mesa:

1- Muitos caminhoneiros estão endividados e buscam medidas a curto prazo para se manterem na profissão;

2- O Governo Federal, na figura do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, se reuniu nesta segunda-feira (22) com alguns representantes de caminhoneiros. Num debate em meio à reclamações, ameaças e até choro, os representantes ouviram do ministro que a variação do combustível não será mais um problema da categoria quando os reajustes forem repassados de forma imediata para o piso. Esta mudança deve acontecer em breve.

Problemas financeiros

A reunião com Tarcísio Gomes de Freitas reuniu cerca de 30 representantes de 11 entidades diferentes, além de representantes de autônomos. No encontro, motoristas relataram dificuldades da função e problemas financeiros.

Estes problemas financeiros foram tema de discussão entre caminhoneiros na semana passada após o governo apresentar um pacote de medidas para a categoria, em mais uma demonstração da descentralização das necessidades da categoria. Uma destas propostas é a de uma linha de crédito de até R$ 30 mil por caminhoneiro, num total de R$ 500 milhões, para a compra se pneus e a realização de manutenção nos veículos. Porém muitos profissionais reclamaram em redes sociais e grupos de WhatsApp da medida, uma vez que dizem já estarem endividados e sem condições de arcar com mais um débito, independentemente da facilidade em termos de juros e pagamentos.

Representantes! ou representantes?

A reunião contou com alguns nomes controversos entre os caminhoneiros no posto de representantes dos mesmos.

“Eu acho que nós conseguimos administrar essa condição de momento e não deve haver paralisação de caminhoneiros neste momento. A representação dos caminhoneiros está conseguindo conversar com o governo”, disse o presidente da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), Diumar Bueno.

Segundo texto no site da CNTA, a entidade nasceu em 2012 “para por um fim a esse vazio de uma representação exclusiva e coerente com as necessidades dos caminhoneiros”. Diumar Bueno se envolve com as questões dos caminhoneiros desde 1987, quando fundou o Sindicam-PR. Mas manifestações espontâneas de caminhoneiros em redes sociais na greve de 2018 e na discussão de agora expõem uma dificuldade em atingir o profissional na ponta do processo e fazê-lo se sentir representado de fato.

Outro nome polêmico com presença no encontro foi Wanderlei Alves, conhecido como Dedeco. Filiado ao Podemos, Dedeco concorreu ao cargo de deputado federal pelo estado do Paraná em 2018. Conquistou 1.783 votos.

Dedeco foi figura pública bastante vocal durante a Greve dos Caminhoneiros em 2018. Em audiência no dia 29 de maio do ano passado na Câmara dos Deputados, ele fez coro para a manutenção da greve. “Se o caminhoneiro decidir que não há acordo, continua”, disse à época.

A atuação de Dedeco rendeu críticas de outros líderes de categorias de classe. “Estou estarrecido. O verdadeiro caminhoneiro reconhece e apoia o acordo feito com o governo. Vim pedir ação rápida para acabar com a infiltração no movimento, para acabar com essa pouca vergonha. Se não for resolvido até o feriado, aí é que o Brasil vai pegar fogo”, rebatou José da Fonseca Lopes, presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam).

Com os ânimos mais calmos em 2019 do que em 2018, quando de fato houve uma greve, Dedeco adotou um tom mais ameno, porém ainda defendendo paralisações.

“Recebi ligações da cidade de um deles que tem ido lá conversar com o governo dizendo pra eu tocar o barco, que estão comigo. Os estados do Norte, do Nordeste também dizem que vão parar. O governo recebe a ala que eles chamam de moderada no Palácio do Planalto, e o movimento que eu represento só cresce. Está molhando a lenha seca na gasolina e jogando na fogueira”, afirmou o caminhoneiro ao UOL em reportagem do dia 20.

Após a reunião desta segunda-feira, Dedeco declarou: “O ministro se comprometeu de que o próprio caminhoneiro será um fiscalizador junto aos seus sindicatos de base que irá passar para a CNTA e a CNTA irá trazer direto para o governo a empresa, o embarcador que não está pagando o piso mínimo e, dentro de 20 a 30 dias, a ANTT irá autuar essas empresas que não estão cumprindo a lei”.

Xadrez com caminhão

Falta, porém, uma peça-chave neste tabuleiro de xadrez. Wallace Landim, o Chorão, foi um dos nomes que mais cresceu com as paralisações do ano passado. Landim também é filiado ao Podemos, também concorreu ao cargo de deputado federal (por Goiás, onde obteve 14.171 votos) e também não foi eleito. O reconhecimento o levou a se aproximar do atual governo. Em reportagem publicada na revista Valor, Dedeco se queixou: “O governo, na verdade, fechou as portas para nós”. A queixa é fruto da influência que Chorão tem conquistado na interlocução.

A medida de conter o aumento de 5,7% no custo do diesel tomada por Jair Bolsonaro que deixou o mercado atônito foi fruto de contato entre Landim com ministros, que alertaram o presidente. Publicamente, Landim concordou com a decisão, mas admitiu que os caminhoneiros estão sufocados. “Vem um aumento desse, o pessoal fica tudo em crise e não tem como segurar (uma greve)”, disse Landim ao Huffington Post no dia 15.

Já nesta segunda-feira, a O Antagonista, Chorão disse que “ninguém é a favor de uma nova greve agora” e disse que a CNTA está usando Dedeco. “É a impressão que tenho. Eles estão com ciúmes de mim. O trabalho que a gente está desenvolvendo com o governo, na verdade, era para estar sendo feito por eles. Aí o que percebo é que estão usando o Dedeco para convocar uma nova paralisação.”

Em vídeo que circula pelo WhatsApp e é repercutido na página de Facebook Chorão Caminhoneiro Goiás, Daniel Carcaça faz críticas aos representantes que estiveram em Brasília (DF).

No entanto, Chorão também não escapa de críticas e é visto com suspeição tanto pela forma como terminou a greve de 2018, ainda na presidência de Michel Temer, quanto pela atuação próxima ao atual governo, pondo panos quentes no descontentamento da categoria.

Este cenário político dentro da representatividade da classe é amostra da falta de união entre os caminhoneiros que, apesar de dividirem pautas como preço do diesel e os baixos valores de fretes, não conseguem resolver diferenças, inclusive ideológicas, para terem mais força de decisão em relação a outros setores da sociedade e da economia.

Com informações de Agência Brasil

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