Queda nas exportações e retração no crédito preocupam indústria automobilística

Queda nas exportações e retração no crédito preocupam indústria automobilística

De maneira geral, apesar das melhoras do quinto mês comparativamente a abril, os dados referentes ao mercado de automotores divulgados por ambas estão em ritmo de queda em relação a 2013

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O desempenho do mercado automobilístico no Brasil apresentado pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) e pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) até o final do mês de maio, assim como as projeções para o resto do ano, não são nada animadoras para as montadoras e concessionários. Os trabalhadores do ramo de autopeças, em especial, já sentem os abalos em seus postos de trabalho.

Segundo a Anfavea, que representa a indústria automobilística, no acumulado do ano (de janeiro a maio) a redução na produção atingiu a casa dos 5,5% em relação a 2013. Na parte de caminhões, a relação entre maio e abril no licenciamento de nacionais e de importados foi de 16,8 pontos percentuais. Já o acumulado entre 2014 e 2013 retrocedeu em 11,3%.

Durante a coletiva de imprensa realizada na sede da Fenabrave, órgão que retrata a distribuição de veículos no Brasil, o presidente da instituição, Flávio Meneguetti, destacou os números relativos a emplacamentos de caminhões. Nas comparações entre maio e abril deste ano, a variação foi de 17,04%, a mais otimista de todos os automotores. Já entre maio de 2014 e de 2013, a diferença foi modesta, de 1,5% positivos. Em contraposição ao acumulado de 2013, o índice chega a 10,91% negativos.

Meneguetti explica tais contraposições: “há alguns meses o BNDES ficou impedido de dar crédito por questões internas, então, aquele timing de quem precisava comprar caminhão e não conseguiu porque houve atraso passou. Assim, o período de demanda de pico de safra e de cargas também passou. Isso esfriou um pouco a necessidade de comprar de imediato.”

Quanto ao índice de empregabilidade nas montadoras (de autoveículos, máquinas agrícolas e rodoviárias), divulgados pela Anfavea, em comparação a abril, maio recuou em 1,2%, com 152.293 postos de trabalho. Considerando apenas o grupo de autoveículos, o decréscimo foi de 1,4%, com 131.221 pessoas empregadas. No comparativo com o mês de maio do ano passado, a diminuição foi de 2,8% (total) e de 3,5% (autoveículos).

Mesmo enfrentando barreiras internas, o Governo Federal deu sinais de que vai permitir a redução da jornada de trabalho com complementação de salários por meio de uma minuta de medida provisória, o Programa Nacional de Proteção ao Emprego (PPE) com vistas àmanutenção dos postos de trabalho.

Basicamente, a União assume junto aos empregadores a folha de pagamento, complementando os rendimentos até determinado teto, dependendo dos ordenados. A ideia é utilizar recursos do FGTS, da receita arrecadada pelo Tesouro com multa adicional nas demissões sem justa causa ou do patrimônio líquido do Fundo. Para isso, as empresas teriam de comprovar situação de crise financeira.

O Estado estuda também a injeção de R$ 5 bilhões para o financiamento de carros novos e, com isso, propõe diminuir os estoques no pátio das montadoras. De fato, dados da Anfavea constatam que no mês de maio o estoque de veículos beirou a casa das 400 mil unidades, 7,2 mil a mais que no mês de abril. Os números se refletem em 41 dias de estoque em montadoras e concessionários.

Concomitantemente ao retrocesso do mercado interno, os dados da Anfavea mostram ainda que as exportações de autoveículos montados em maio ficaram 0,6% abaixo do registrado em abril e 27,7% menores ante o resultado de maio de 2013. As unidades exportadas nos cinco primeiros meses deste ano representam 31,6% de recuo se comparadas ao igual período do ano passado.

Os índices de exportações de caminhões montados são os mais pessimistas se contrapostos aos de automóveis e de comerciais leves: com 11% menos unidades exportadas em maio sobre abril, o setor contabiliza uma redução de 38,2% comparativamente ao quinto mês do ano passado e de 7% no que tange ao acumulado entre os cinco primeiros meses de 2014 sobre 2013.

A crise argentina provocada pela desvalorização do peso e por uma política mais protecionista, com restrições à entrada de produtos brasileiros, é apontada como o fator de maior importância relativamente à exportação automobilística, uma vez que nosso país possui uma alta dependência do mercado vizinho. Levando em conta as exportações de autoveículos, máquinas agrícolas e rodoviárias, o cenário é discretamente otimista para o restante do ano. Em valores, o acréscimo esperado nas exportações é de 2,6%, passando de US$ 16,6 bilhões em 2013 para US$ 17 bilhões em 2014.

Conforme explica Flávio Meneguetti, da Fenabrave, a distribuição no Brasil também é afetada pela política econômica argentina, uma vez que os produtos que deixam de ser exportados voltam para o mercado interno, aumentando ainda mais a oferta. Houve um crescimento modesto, de 1,26% (maio/abril) para as distribuidoras (automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus, motocicletas, implementos rodoviários e outros). Já na comparação entre o mês de maio de 2014 e o mesmo mês do ano passado, houve retração de 5,74%. No acumulado do ano, diminuição de 4,34%.

De acordo com Tereza Fernandez, sócia-diretora da MB Associados (consultoria contratada pela Fenabrave), uma série de fatores explica o retrocesso do mercado de automotores e da economia brasileira como um todo, que podem ser elencados pela acumulação inflacionária que se estende desde o ano passado, a queda do rendimento dos investimentos em poupança, o aumento do dólar e a falta de incentivos e de subsídios do Poder Estatal, cujo PIB, em 1,5%, inviabiliza a arrecadação necessária.

Fernandez acrescenta ainda que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é um fator preocupante para o ano que vem: “além da inflação, que esse ano vai superar o teto da meta, em algum momento do segundo semestre vamos ver o IPCA acima dos 6,5%. Já me garante dizer que provavelmente teremos os juros um pouco maiores que os de hoje”, declarou, na sede da Fenabrave.

Já para o presidente do órgão que responde pelos dados de mais de 7,7 mil concessionários no país, além do humor do mercado, existe outro fator a ser levado em conta acerca do cenário pessimista. Trata-se da dificuldade de acesso ao crédito, devido à retração dos bancos em liberá-lo por conta da burocracia na obtenção da garantia com a alienação de bens.

“Não consigo antever que esse mercado retome a níveis que já praticados, no mínimo, até 2016”, diz Flavio Meneguetti. São esperados 3,6% menos emplacamentos ao longo de 2014 do que em 2013. O setor de caminhões, por outro lado, promete o índice mais promissor: 2% a mais que o ano passado.

Pela Anfavea, as projeções ao longo do ano comparativamente a 2013 quanto à produção, licenciamento e exportações de autoveículos são mais promissoras, fixadas, respectivamente, em aumentos de 1,4%, 1,1% e 1,6%. A instituição conta com a produção de 3 milhões e 765 mil unidades, o licenciamento de 3 milhões 810 mil unidades e a exportação de 575 mil veículos novos.

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