Portal Transporta Brasil entrevista Urubatan Helou

Diretor-presidente de uma das maiores transportadoras do País, a Braspress, conta a trajetória da empresa, que completou 35 anos de história, suas impressões sobre o setor e sua visão de Brasil. Confira a íntegra da entrevista

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Transporta Brasil: Urubatan, nesses 35 anos de história da BRASPRESS, qual foi a maior conquista da empresa e o maior obstáculo superado?

Urubatan Helou: Nós tivemos uma história de 35 anos e a história é uma história de sucesso, porque está aí o resultado. Uma empresa que nasceu através de uma iniciativa muito humilde, e que se consolidou como uma das grandes operadoras na área de logística do país. Portanto, é muito difícil você mensurar qual foi a maior dificuldade, especificar qual foi o momento, aquele momento mais difícil. Nós tivemos diversos momentos de muita dificuldade; é muito difícil você apontar apenas um. Mas, ao longo desses 35 anos nós superamos diversos pacotes econômicos, nós superamos diversas moedas diferentes e, portanto, nós tivemos dificuldades muito grandes para a superação de todo esse desequilíbrio econômico que o país viveu. Mas eu posso te citar, em particular, um momento muito difícil na nossa existência, que foi logo a seguir da posse do Governo Collor, quando o Plano Collor foi colocado em funcionamento. O Brasil vinha com uma atividade econômica extremamente aquecida; é fato que, com uma inflação galopante de 400 e tantos por cento ao mês; mas, o Plano Collor, ao contrário de reduzir apenas a inflação, ele acabou com a atividade econômica, e uma empresa como a nossa, que depende fundamentalmente da atividade econômica, viu, em menos de 12 horas, as suas atividades zerarem, absolutamente zerarem porque a atividade econômica, ela desapareceu. E, a partir de então, nós vivemos momentos de muitas dificuldades e demoramos aí uns 4 anos para podermos nos reerguer. Não fosse a agilidade na tomada de decisão, seguramente hoje nós não estaríamos falando; talvez nós teríamos quebrado, como aconteceu com diversas outras transportadoras, que quebraram agora. Mas, o fruto, a origem teve a partir das dificuldades enfrentadas naquele momento. Assim que foi instaurada a regularidade econômica no país, uma moeda forte, nós começamos a retomar o nosso desenvolvimento, que se deu a partir de 1994, a partir do Plano Real. Primeiramente, um equilíbrio através da URV, que eram as unidades de referência, que trouxeram uma indexação momentânea e, logo depois, o Plano Real. E, a partir de então, com a estabilidade econômica que se instalou, a atividade econômica prosseguiu e a nossa empresa também se desenvolveu. Mas, para te citar um momento… é muito difícil. Ao longo desses 35 anos, muitas foram as dificuldades. Mas, em particular, aquele que traz mais lembrança foi o pós-Plano Collor.

Transporta Brasil: Qual é o próximo objetivo almejado pela BRASPRESS nos próximos anos?

Urubatan Helou: Nós sempre temos objetivos muito ambiciosos. Nós começamos, como eu te disse, lá atrás, com uma atividade muito humilde, com parcos recursos e, hoje, nós somos uma empresa em âmbito nacional; nós operamos em 100% do território nacional e, graças a Deus, eu posso dizer que a única empresa brasileira que opera 98% da última milha no território nacional é a BRASPRESS. Fazemos isso através de uma rede com 108 filiais, 6.400 funcionários, 1.300 caminhões próprios mais 700 agregados; uma infraestrutura, na área de movimentação de cargas, invejável, através de aplicativos tecnológicos, que são aplicativos de ponta, utilizados em todo o planeta, notadamente nos países de primeiro mundo; trazemos boa tecnologia embarcada no nosso negócio. Mas eu quero te dizer o seguinte: a contemplação do próprio umbigo leva à acumulação de gordura, e a acumulação de gordura pode provocar um infarte. Nós não somos o tipo de empresa que contempla o próprio umbigo; nós sempre temos planos extremamente ambiciosos para o nosso negócio. Agora mesmo nós estamos inaugurando a BRASPRESS Logística, que é o nosso braço logístico, que será a nossa operada de warehouse, e, dessa forma, nós completaríamos 100% da cadeia logística, e assim poderíamos levar um processo de fidelização maior para os nossos clientes e mais um produto BRASPRESS. Mas, não para por aí: nós estamos com constante renovação de frota, nós estamos em constante busca por novas tecnologias, nós estamos ampliando as nossas filiais. Abrimos agora, recentemente, novas filiais no estado de Santa Catarina, no Espírito Santo, no estado da Bahia, para podermos melhorar o emprazamento de entrega e dar mais fecundidade às nossas operações, à capilaridade que já existe na companhia. Temos objetivos extremamente, também, ambiciosos na área do rodo-aéreo; a Aeropress, hoje, tem feito uma operação muito eficaz, com muita qualidade. Portanto, nós estamos buscando o aperfeiçoamento a cada dia. Eu tenho muita esperança no início dessas operações, agora, da BRASPRESS Logística; eu tenho certeza de que nós poderemos obter, também, na BRASPRESS Logística os mesmos sucessos que nós obtivemos tanto na Aeropress, quanto na BRASPRESS. E outros projetos, também, estão em curso, mas são projetos que precisam ser guardados a sete chaves porque eles podem trazer uma reverberação negativa no mercado.

Transporta Brasil: O empresário que está começando hoje no setor de transportes deve ficar atento a que aspectos do mercado?

Urubatan Helou: A todos os aspectos do mercado. Você precisa ficar atento a todos os aspectos do mercado, notadamente os dos seus concorrentes. Observe onde é o ponto forte do concorrente, observe qual é o ponto fraco do seu concorrente, conheça o seu concorrente com profundidade, conheça a si próprio com profundidade. A partir do conhecimento do seu concorrente de si próprio, você vai conhecer o mercado de atuação e você vai saber direcionar, vai saber qual é o norte que você vai dar aos seus negócios. Portanto, o maior conselho que se pode dar a alguém que está iniciando hoje em uma atividade tão competitiva como a nossa… qual é o conselho que se dá para aspectos de mercado? Observe a si próprio, assim como você tem que observar seus concorrentes.

Transporta Brasil: Se você pudesse escolher outra empresa para presidir, qual seria?

Urubatan Helou: Eu quero te dizer o seguinte: eu fundaria novamente a BRASPRESS. Mas, tirando o eufemismo de lado, nós temos players muito interessantes no nosso mercado. E eu posso citar um monte deles. Não vou nominá-los para não cometer nenhuma injustiça com um ou outro, mas tem empresas aí que são empresas que são cobiçadas por nós. Nós só não as temos porque seus acionistas não as vendem, porque são empresas, também, muito rentáveis.

Transporta Brasil: Essa implementação da Lei dos Motoristas e as recentes alterações do pagamento dos proclames, com o CIOT, na sua opinião, são realmente benéficos para o setor?

Urubatan Helou: As nossas entidades de classe estão sendo torpedeadas por aqueles que são contrários a uma regulamentação de algumas atividades no nosso setor. Mas, é natural que isso aconteça porque uma grande maioria dos empresários, às vezes, se acomoda com o status quo, e o status quo nem sempre é o mais interessante. Eu quero te dizer que a regulamentação de motoristas é imperiosa não só para a nossa atividade, a regulamentação de motoristas é imperiosa para o país. Nós não podemos mais continuar convivendo com 33, 35, 34 mil mortes por ano nas rodovias brasileiras, no trânsito; e sendo o caminhão responsável por quase que 70% dessas mortes. Nós não podemos mais continuar convivendo com a agiotagem dos postos de combustível em cima dos já depauperados autônomos sobre a carta-frete, sobre o vale-frete. É lícito imaginar que esses regulamentos… se eles não viessem agora, eles viriam amanhã. Bom é que venham agora, que nós todos tenhamos tempo para nos adaptarmos, para que a gente possa, efetivamente, conviver dentro de um mundo mais formal. E ao convivermos com um mundo mais formal, trazermos mais respeitabilidade para o nosso negócio.

Transporta Brasil: Como a BRASPRESS está se adaptando? Ela não paga mais com carta-frete?

Urubatan Helou: A BRASPRESS opera muito pouco com autônomo; todos os nossos parceiros são PJs, são os agregados que são PJs, e que são muito poucos; 80%, 70% das nossas operações são feitas com frota própria, e aqueles que são os nossos parceiros, esses nós já fazemos os pagamentos por meio bancário há muito tempo; nós já não emitimos vale-frete já tem mais de 15 anos. Ou seja, desde a época em que o Bradesco instituiu o tal do PagFor; é assim que nós nos relacionamos com os nossos parceiros. Portanto, fazer o pagamento por via bancária dos nossos parceiros isso, para nós, já não é uma coisa nova, é uma coisa muito antiga. Com relação à legislação, à nova legislação dos motoristas, eu não condeno aqueles que estejam gritando, mesmo porque a minha posição pessoal é uma posição extremamente cômoda. Uma empresa que tem, hoje, uma rede com 108 filiais no país… é evidente que nós temos aquilo que nós chamamos de o pit stop da nossa frota: uma frota nossa que vai daqui para Fortaleza, por exemplo, ela vai parando de filial em filial… ela continua rodando e nós fatalmente trocamos os motoristas. Portanto, nós já temos uma estrutura montada e alimentada por isso. Por isso que eu não critico aqueles que estejam efetivamente com grandes dificuldades para poderem se adequar. É porque, efetivamente, as empresas ainda não conseguiram, ou ainda não encontraram um meio que pudesse efetivamente fazer com que o motorista pudesse fazer aquela pausa. A única coisa que eu critico, na lei, foi aquilo que foi vetado pela Presidência da República – que ela vetou o principal da lei, que é o objetivo de dar o descanso ao motorista, e ela vetou a criação das áreas de descanso ao largo das rodovias. Quando a Presidência da República fez isso, ela maculou quase que de morte essa legislação.

Transporta Brasil: Muitas decisões em relação ao transporte são atabalhoadas, e não se pensa nas consequências, apesar de o transporte rodoviário ser responsável por uma fatia tão grande do que é transportado no país. Você acha que os representantes do setor têm espaço para articular e para conseguir realmente dialogar com os governos?

Urubatan Helou: Quando nós falamos dos representantes do setor, a gente tem que nominar esses representantes do setor: o presidente da Federação de São Paulo e o presidente da NT&C Flávio Benatti. Esse camarada tem uma grande desenvoltura e um trânsito enorme no meio público, notadamente em Brasília. Ele é recebido com grande facilidade pelo Governador de São Paulo, por secretários, tem um trânsito muito grande no Legislativo, no Distrito Federal; tem um trânsito no ministério, tem um trânsito muito bom… e eu, pessoalmente, já pude constatar esse trânsito. Então eu vejo, no Flávio Benatti, um homem com grande desenvoltura nessa área. Os presidentes de sindicatos que eu conheço e todos os presidentes de federação são igualmente articulados. Nós temos o presidente da Confederação Nacional do Transporte, que é um senador; e ele está lá vitaliciamente. Esse é um outro aspecto que vale a pena ser discutido, que vale a pena ser debatido. E o que você não pode esconder, o que você não pode tirar o mérito é que é um grande articulador político, e que todas as vezes que ele dá o seu pitaco no Transporte Rodoviário de Cargas, ele faz isso com grande desenvoltura, com grande sabedoria. E é um senador da República. O que mais nós podemos esperar em termos de representação do que ter um senador da República como representante da nossa categoria? Portanto, é o seguinte: precisa-se ter muita clareza, a capacidade de avaliação e de análise sem paixão, sem vaidade, para que se possa, efetivamente, dar mérito a quem tem; e, quando apontar os defeitos, não apontar os defeitos apenas como uma crítica destrutiva, mas apontar os defeitos ajudando a construir… construir um setor melhor, construir um TRC mais robusto… não basta apenas fazer a crítica pela crítica. Eu acho que nós temos que nos colocar, também, na posição de estilingue, mas também nós precisamos nos colocar na posição de vidraça, para que a gente possa fazer uma avaliação mais correta e mais sincera das avaliações que precisam ser feitas.

Transporta Brasil: O que você faz quando não está aqui, cuidando da sua empresa, quando você não está trabalhando? O que você gosta de fazer?

Urubatan Helou: Eu sempre fui esportista; eu sempre fui um grande esportista. Eu sempre joguei futebol, joguei vôlei durante muito tempo… depois a idade chegou e já não me permitiu fazer isso. Eu fui automobilista por um grande tempo e, hoje, eu sou motociclista por excelência. Eu viajo a América inteira de motocicleta, é o meu prazer. Agora vou sair, por exemplo, em um final de semana prolongado; serão três dias em que estarei colado no selim da motocicleta andando pelo estado de São Paulo. É o que eu faço, é a minha atividade, além da minha paixão pelo maior time do mundo, que é o Santos Futebol Clube.

Transporta Brasil: O que falta para o Brasil virar?

Urubatan Helou: O Brasil está virando. Bom, eu acho que aí é um outro ponto que merece uma avaliação mais crítica e racional. Nós temos que fazer uma avaliação também sem paixão, sem vaidade; a gente não torce para partidos políticos, a gente vota em partidos políticos; a gente torce para time de futebol. A gente não torce para santo, a gente é devoto de algum santo. E quando você faz uma avaliação do país, você tem que ter uma certa dose de equilíbrio para fazer essa avaliação. O Brasil, hoje, é uma das bolas da vez para desenvolvimento. Fala-se da China, fala-se da Rússia, fala-se da Índia e da África do Sul, mas o único país que tem instituições fortes é o Brasil. O único país que tem Ministério Público… vai falar de Ministério Público na Índia, vai falar de Ministério Público na China… Somos nós! Não porque o nosso país é muito corrupto; é tão corrupto quanto os demais, com uma única exceção: nós já depusemos Presidente da República, nós já prendemos senador, já cassamos senador, já cassamos Presidente da República, já cassamos governador. A imprensa brasileira é uma imprensa denunciativa; nós vivemos em um regime de plena democracia; e a imprensa traz à tona, a conhecimento da sociedade, todas as mazelas, que são inerentes ao Poder Público de todos os países, com uma exceção: que nos outros países a população não fica sabendo; e aqui a população fica sabendo e julga… julga nas urnas, julga através das instituições; e agora mesmo nós estamos vivendo o julgamento, a execração pública dos mensaleiros. É mais um exemplo de uma democracia que amadurece.

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