Diretor-executivo da ATC fala sobre problemas no transporte de cargas no Mato Grosso

Miguel Mendes comentou em entrevista exclusiva ao Portal Transporta Brasil sobre os problemas de infraestrutura nos terminais ferroviários de Alto Araguaia e Alto Taquari (MT), os altos custos para realizar atividades de frete no Estado e outros aspectos do transporte de cargas na região

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O diretor-executivo da ATC (Associação dos Transportadores de Carga de Mato Grosso), Miguel Mendes, falou em entrevista exclusiva para o Portal sobre os principais problemas enfrentados pelo transportador no Estado, além da parceria da associação com a Scania para treinamento de motoristas, do recadastramento no RNTRC, e da duplicação da BR 163/164. Leia a íntegra:

Portal Transporta Brasil: A ATC é referência no treinamento de motoristas. Como está este trabalho com a novidade do simulador?

Miguel Mendes: O simulador, a gente só esteve testando ele aqui, trabalhando em uma parceria junto ao governo do Estado, para que o governo do Estado faça a aquisição desse equipamento e possa deixar disponibilizado para incrementar nosso programa de qualificação profissional. Hoje, a ATC fechou uma parceria de exclusividade com a Scania. Nós temos quatro caminhões cedidos em comodato pela Scania, e é nesse veículos que a gente executa as aulas práticas, e também recebemos o material didático da Scania para poder fazer as aulas teóricas, então a ATC hoje ministra tanto as aulas teóricas quanto as aulas práticas. Até o final de 2011, a Scania pretende deixar o centro de treinamentos da ATC equipada com dez caminhões.

Portal Transporta Brasil: Quais os principais entraves para o escoamento das safras na região sudeste do Mato Grosso?

Miguel Mendes: O maior entrave é a intermodalidade. Normalmente a maioria das frotas está sediada aqui no sul de Mato Grosso, e a maior parte da produção está na região norte do Estado. Em torno de 50% do escoamento da produção é feita por meio da intermodalidade, ou seja, ela vem de caminhão da região norte e médio norte e vai até o terminal ferroviário da ALL em Alto Araguaia, e um pouco menos, uma quantidade pequena, segue até Alto Taquari. E aí que é o grande entrave logístico, é justamente na hora que faz essa intermodalidade, porque o terminal é ultrapassado, não tem boa infraestrutura, a própria reportagem do Portal já esteve aqui registrando, e da época em que estiveram aqui, pouca coisa foi feita. Ele não tem capacidade para receber a enorme quantia de caminhões que se dirige até esses terminais em horário de pico, tanto já houve problemas no pico da safra da soja quanto do escoamento do milho agora no segundo semestre, de caminhões formarem longas filas, inclusive nas BR’s, pelo terminal não poder comportar a quantidade de caminhões que se dirigem para lá. Fora isso, os motoristas sofrem com a falta de organização, com a demora de 24 a 48 horas para poder descarregar. No local tem muita poeira, o caminhão chega a atolar no seco, e agora com a vinda das chuvas o problema se agrava, porque com certeza vão vir os atoleiros. E essa falta de infraestrutura por não haver pátios pavimentados, uma organização para a chegada desses caminhões, realmente acaba sendo hoje o maior entrave. Para você ter uma ideia, existem transportadores hoje perdendo motoristas, justamente porque a rota dessas transportadoras é até o final de Alto Araguaia, e eles estão se recusando a ir pra esses terminais.

Portal Transporta Brasil: Vão faltar caminhões e mão-de-obra para a safra?

Miguel Mendes: Hoje já está faltando. A gente nem está no pico da safra e hoje os transportadores já estão sofrendo aqui no Mato Grosso com a falta de profissionais.

Portal Transporta Brasil: O Centro-Oeste é um dos maiores polos do agronegócio brasileiro. O que falta para a logística local ser também uma referência?

Miguel Mendes: Com certeza, 30% da safra são escoadas aqui no Centro-Oeste. Nós estamos em um processo moroso aqui da duplicação da principal rota de escoamento, que é a BR 163/164. Nós acreditamos que a duplicação desse trecho, que já está em andamento, infelizmente de uma forma muito lenta, vai melhorar muito o escoamento desta produção. Mesmo porque essa é a principal via de escoamento dos grãos. Já é uma rodovia ultrapassada, com mais de 40 anos. Agora, justamente nesse governo atual que está recebendo as novas infraestruturas, demorou muito para que isso acontecesse, e isso fez com que demandasse mais investimento na recuperação da via, que só vai ser solucionada com a duplicação. Porque hoje o fluxo de veículos é muito grande, e essa rodovia não foi projetada para receber os caminhões e o peso que eles transportam atualmente.

Portal Transporta Brasil: Como está a adesão dos transportadores mato-grossenses ao recadastramento do RNTRC? Há problemas?

Miguel Mendes: Não, em relação ao recadastramento, não, não temos sentido muitos problemas. A gente só acha que ainda tem muita gente para se cadastrar. E só há realmente uma procura por parte dos transportadores a partir do momento em que há uma fiscalização mais efetiva. Enquanto não houver uma fiscalização mais efetiva por parte da ANTT, juntamente com a PRF, muitos ainda estão acomodados, não procuraram os postos para fazerem o cadastramento ou até mesmo a atualização dos seus cadastros. Justamente no momento em que é intensificada a fiscalização que a gente sente que há uma procura maior por parte dos transportadores. São mais os autônomos, porque a maioria das empresas já de recadastraram.

Portal Transporta Brasil: O que a ATC planeja fazer para lidar com os problemas de custos e frete que atualmente se apresentam no mercado?

Miguel Mendes: Infelizmente não há como intervir nos preços do frete, uma vez que é o mercado que regula. Então, é a questão da oferta e da procura, hoje, no agronegócio, o transportador é o tomador de preço, não é mais o formador. Ele tem que trabalhar com o que o mercado oferece. Porque hoje aqui no Mato Grosso, principalmente, a gente trabalha com o custo muito elevado, principalmente do óleo diesel, que corresponde hoje a mais de 50% do faturamento das empresas, ou seja, de R$ 1.000 faturados, R$ 500 ficam com o posto de combustível, e isso faz com que na maioria das vezes ele acaba tendo um rendimento bem menos do que os outros transportadores que vem de outras regiões como São Paulo, Paraná, onde há incentivo desses estados para o segmento de transportes, como o reaproveitamento do crédito, dos insumos em serviços que são adquiridos, e isso faz com que o custo desses transportadores sejam menor e eles consigam trabalhar com a margem de lucro bem maior do que o transportador mato-grossense. Mas é uma coisa que a gente pretende agora, com esse novo governo, sentar numa mesa de negociação para que o Estado possa criar um pacote de incentivos para fomentar o segmento de transporte rodoviário de cargas, com a redução principalmente da carga tributária. E o óleo diesel vai ser o foco principal da nossa briga, para que haja redução dos atuais 17%, para 12% incidentes sobre a alíquota do óleo diesel, equiparando com a alíquota dos outros estados, como Goiás, São Paulo e Paraná.

Portal Transporta Brasil: Como está o recebimento de cargas nos terminais da ALL da região. Foram resolvidos os problemas mais graves?

Miguel Mendes: Nos terminais não foi resolvido. Lá o mais grave é a falta de pavimentação dos pátios, e, infelizmente, eles estão fazendo uma medida paliativa que não vem melhorando a situação. Outro problema é em relação à capacidade muito pequena do terminal, então, o grande problema que há ali é de logística. Eles não recebem a quantia que eles estão aptos a receber. Hoje o pátio tem capacidade para receber 600 caminhões e eles recebem 1.000, isso faz com que se formem longas filas para fora do terminal, às margens das rodovias. Isso tem originado até multas para os caminhoneiros que ficam lá estacionados esperando para entrar no terminal. Então, enquanto não houver a inauguração do terminal aqui em Rondonópolis, prevista para daqui dois anos, dificilmente vai melhorar, a não ser que eles aumentem os investimentos ali, coisa que eles já falaram que não vão.

Com colaboração de Marília Brandão – Redação Portal Transporta Brasil

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