Cegueira corporativa

Todos os livros e cursos de MBA que conheço e que abordam o tema de Gestão de Pessoas, falam sobre o trabalho em equipe. E para que o resultado do trabalho desta equipe seja o esperado, o item motivação é fundamental

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Todos os livros e cursos de MBA que conheço e que abordam o tema de Gestão de Pessoas, falam sobre o trabalho em equipe. E para que o resultado do trabalho desta equipe seja o esperado, o item motivação é fundamental. Disso, entendo que todos já saibam e talvez haja pouca novidade neste campo já bem explorado.

Mas o que é incrível, e também não é novidade, é que esta teoria nunca é colocada em prática. Os poucos bons exemplos que aparecem são como pequeninas gotas num oceano. Neste artigo vamos falar de um caso de sucesso (o que a maioria dos cases fazem) e um caso de fracasso, o que não é muito comum e nem sempre é agradável de se debater, mas como eu aprendo muito com os erros (os meus e dos outros), resolvi expor este conto que infelizmente é uma realidade no TRC.

Meu primo (e por isso o nome do nosso personagem será Primo), um rapaz de 29 anos, formado com pós-graduação e se preparando para enfrentar um MBA, muito dedicado, capacitado e preparado, me contou uma história corporativa triste, mas que está presente na vida de muitos profissionais. Assim como eu, ele também atua há muito tempo no seguimento de Transportes Rodoviários de Cargas, e infelizmente a velha frase de que “transportadora é tudo igual” (ainda bem que existem ótimas exceções), parece ser realmente verdadeira, o que é triste para quem lida e sonha com este setor importante que já me deu tanta coisa e pode dar mais ainda.

O Primo era (no passado mesmo, pois ele saiu da empresa) um líder de um setor com mais seis funcionários. Como disse acima, muito dedicado e inteligente, logo ele mostrou que conhecia o trabalho e assumiu a liderança do grupo, que era gerenciado por um gestor que tinha várias outras atribuições. De tão ocupado, o gerente acabava delegando 100% do departamento para o líder, pois sabia que ele dava conta. Contudo, por mais que se esforçasse, o Primo não conseguia eliminar algumas rotinas burocráticas que atolavam seu departamento, por mais tecnologia e sistema que ele colocasse, ainda existiam planilhas, e-mails, contatos, relatórios que eram feitos manualmente e não levavam a lugar algum. Mas o gerente fazia questão de vê-los quando tivesse tempo, e usava o nome de um diretor para justificar seu pedido.

No fundo, o Primo sabia que aquilo era apenas uma forma de mostrar a ele quem era o gerente, como se isso fosse alguma preocupação no setor. Bom, o resultado era que dos seis colaboradores, praticamente três ficavam preenchendo as tais planilhas e relatórios, sobrando outros três para ajudá-lo a fazer o restante do trabalho, que era muito e impactava diretamente no negócio da empresa. Mas a miopia para impacto no negócio é uma doença grave e assola boa parte dos gestores.

Um dia, insatisfeito com os resultados gerais, o diretor chamou o gerente e o cobrou de vários trabalhos que não estavam acontecendo como o combinado. O gerente, sem saber muito o que fazer, resolveu encontrar um culpado, e convidou o Primo para uma reunião. Informou a ele que se não conseguisse mudar as coisas, seu departamento seria simplesmente terceirizado. O Primo logo se surpreendeu:

– Terceirizar uma área que é parte do core-business da empresa? É um absurdo !!!

O gerente (cego da visão estratégica) respondeu:

– Não tem nada de core-business, precisamos é de resultados.

O Primo tentou argumentar, mas logo recebeu a resposta:

– Não estou lhe perguntando se estou certo ou errado, estou apenas lhe comunicando um fato.

E a discussão se prolongou. Claro que o Primo aproveitou a oportunidade e apontou todas as falhas que via, os pontos que poderia melhorar e as burocracias que deveriam ser eliminadas. O incrível é que neste caso, não foi solicitado nem R$ 1,00 de investimento, pois a visão do Primo dizia que era necessário pura mudança em alguns processos. No final, a resposta do gerente foi:

– Tá bom, vamos ver isso depois.

O Primo, com espírito de líder de equipe, reuniu seu pessoal e teve uma longa conversa. Falou da possibilidade de terceirização, mas que conseguira convencer o gerente a não fazer agora, pois com as mudanças a equipe era suficiente e daria conta do recado. Segundo o Primo, o happy-hour daquela sexta-feira foi inesquecível, pois a equipe estava unida e motivada para mostrar seu valor e derrubar o projeto de terceirização. Não que o Primo ou a equipe fosse contra terceirizações, mas o fato de entregar uma das principais atividades da empresa para uma consultoria que era especializada em outra área, assombrou a todos, pois as coisas não se encaixavam.

Mas com o passar dos dias, o Primo percebeu que nada mudou, pois continuava sendo cobrado dos relatórios manuais que era obrigado a fazer, mesmo tendo as informações no sistema corporativo. Depois ele ficou sabendo que a proposta para tal terceirização foi reprovada pela diretoria, pois além de ser perigoso, o custo envolvido era alto.

Contudo, para o gerente cego, os resultados ainda não estavam acontecendo. Então ele conheceu uma pessoa que se dizia especialista no assunto e resolveu contratrá-lo como encarregado para o setor do Primo. E assim chegou o novo encarregado e foi apresentado ao departamento como o salvador da pátria. Um choque para os membros da equipe, pois ninguém sabia ou esperava tal atitude.

Como líder que é, o Primo foi conversar com o gerente para entender o que estava acontecendo. Mas pouco adiantou, o gerente já tinha fechado a questão. E ainda disse:

– Este Fulano é bom, vocês vão aprender muito com ele.

Após 2 dias de trabalho direto com o encarregado, o Primo e a equipe logo perceberam que o novo colega não era tão especialista assim. Ele mesmo disse que vinha de uma indústria de sapatos e lá de vez em quando mexia com a logística. Então, com mais alguns dias, o Primo se pegou ensinando todo o trabalho para o encarregado. E quando o encarregado percebeu que o Primo era contra as tais planilhas e relatórios duplicados que o gerente exigia, logo tratou de apoiar o gerente, dando grande importância para aquelas rotinas.

Resultado, o Primo não suportou e pediu demissão. Outros dois colegas também saíram com ele no mesmo dia. Outros dois saíram nos meses seguintes. É claro que a equipe foi reposta e a empresa continua sobrevivendo. O gerente está feliz por estar recebendo suas planilhas (duplicadas) e o encarregado contente por manter seu emprego. O proprietário desta transportadora continua desesperado na busca de uma solução, mas não se sabe porque (talvez também tenha miopia corporativa) ainda acredita que o tal gerente esteja fazendo a coisa certa  ou pelo menos é uma boa companhia para seu whisky.

O Primo ficou triste por perder a batalha e desempregado por alguns dias, mas como é um lutador, logo conseguiu uma recolocação e hoje (apenas um ano depois do ocorrido acima) é gerente nacional de vendas em uma grande transportadora. Eu conheço o dono desta transportadora e ele me confessou:

– O cara é muito bom, tem uma visão ampla do negócio. Acertei na loteria. Não sei como a transportadora X deixou este cara sair de lá.

Bom, este é um dos métodos para desmotivar ou desmontar uma equipe e perder talentos raros que podem fazer a diferença. Se ele não for visto pela sua empresa, poderá ser aproveitado pelo concorrente. Talvez valha a pena refletir:

– Será que seu corpo de executivos não está infectado pela miopia de negócio ?

– E com isso desmotivando e perdendo talentos ?

Abraços e até a próxima.

Anírio Neto é gerente de TI da Braspress.
neto@transportabrasil.com.br

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