Transparência opaca

Imaturidade da imprensa e da sociedade podem esconder ameaças à segurança de voo

Repercussão do sono sobre o trabalho
Direitos dos passageiros em caso de atrasos ou cancelamentos de voos
A Meta

As tecnologias e os novos meios de comunicação desenvolvidos nos últimos anos (e-mail, Blog, Twitter, Orkut, Celular, Msn, etc) encurtam distâncias, levando a informação a um nível de agilidade jamais visto. Contudo, com a mesma velocidade que as notícias se espalham, também são disseminadas inverdades e informações imprecisas ou até incorretas. Somado a isto, desenvolvida nas últimas décadas, temos a cultura de transparência total, o chamado “compromisso com a verdade”. Conceitualmente, a união destes dois fatores nos levaria a uma sociedade mais justa e transparente. Porém, a ânsia por encontrar culpados e a irresponsabilidade de alguns profissionais da imprensa levam a nossa quase utópica sinergia a ser uma grande ameaça à segurança de vôo.

Nos últimos acidentes e eventos relacionados com segurança de vôo, poucas horas após o ocorrido, pudemos assistir a um show de informações desencontradas. “Especialistas” especulando sobre as causas do acidente, membros da imprensa aos mais altos brados nos telejornais, pedindo a punição dos culpados pela tragédia. Mas qual a relação disto com a segurança em si?

A resposta está dentro dos princípios filosóficos da segurança de voo, citados na norma NSCA 3-3 do CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), que regula a gestão de segurança operacional da aviação brasileira:

  • a) Todo acidente aeronáutico deve ser evitado;
  • b) Todo acidente aeronáutico resulta de vários eventos e nunca de uma causa
  • isolada;
  • c) Todo acidente aeronáutico tem um precedente;
  • d) A Prevenção de Acidentes requer mobilização geral;
  • e) O propósito da Prevenção de Acidentes não é restringir a atividade aérea,
  • mas estimular o seu desenvolvimento com Segurança;
  • f) A alta direção é a principal responsável pela Prevenção de Acidentes
  • Aeronáuticos;
  • g) Na Prevenção de Acidentes não há segredos nem bandeiras;
  • h) Acusações e punições de Erros Humanos agem contra os interesses da Prevenção de Acidentes.

Quando formadores de opinião (muitas vezes leigos) especulam sobre acidentes aéreos, sem conhecimento técnico e fora dos princípios filosóficos citados acima, geram uma influência distorcida dos fatos. Isto leva outras pessoas a tomar atitudes que, além de ferir as bases que norteiam a segurança, ainda beiram o absurdo.

Vamos ver como o comportamento da mídia e de nossa sociedade derrubam os nossos princípios.

Todo acidente aeronáutico tem um precedente

Existe a tendência da análise simplista. Caso parássemos na primeira “causa”, nunca conseguiríamos descobrir quais as outras circunstâncias que levaram ao acidente, evitando que outros similares aconteçam. Por isso, o que o leigo chama de “causa do acidente”, o profissional da área chama de “fator contribuinte”, por este nunca ser algo isolado, único fator que levou à tragédia. Nunca uma falha no sistema de pitot ou o desligamento do transponder, isoladamente, causarão um acidente.

Acusações e punições de Erros Humanos agem contra os interesses da Prevenção de Acidentes

A chamada “Busca por justiça” – a procura imediata por um culpado pela tragédia –  insistentemente perseguida por aquela parte da imprensa que gosta de gritar pela TV, é mais uma apunhalada na já combalida filosofia de segurança de voo. Muitas vezes o erro não está na pessoa ou equipamento, mas no sistema, procedimento, treinamento, manutenção, projeto da aeronave ou cultura operacional. Estas falhas sistêmicas ou falhas latentes acabam sendo encobertas caso nos deixemos levar pelo calor da emoção.

Colocar a culpa no piloto, controlador ou na pista é muito mais simples do que analisar o porquê do erro. Durante as repercussões do acidente entre o Jato Legacy e o voo 1907, um dos controladores foi acusado de assassinato doloso pelo promotor do caso, mesma acusação de Osama Bin Laden pelos atentados de 2001 (como se o controlador tivesse colocado as duas aeronaves na mesma altitude de forma premeditada). Este tipo de postura prejudica as investigações, pois aqueles envolvidos na atividade aérea passam a esconder seus erros, acreditando que serão punidos por suas falhas, muitas vezes induzidas pelo sistema. Isto inibe a principal fonte que os profissionais de segurança tem para trabalhar: os reportes voluntários de situações de risco. Este tipo de punição nos leva à derrocada do próximo conceito:

Na Prevenção de Acidentes não há segredos nem bandeiras

A troca de informações entre operadores, fabricantes, órgãos governamentais e não-governamentais sempre foi a espinha dorsal do sistema de prevenção de acidentes. Problemas ainda não detectados em uma empresa podem ser evitados com este networking. Mas parece que nem aqueles que deveriam regular a aviação civil nacional conhecem os fundamentos da segurança de voo. Em 1º de outubro de 2008, a ANAC propôs que a distribuição de slots em nossos aeroportos fosse feita baseada em índices de segurança. Qual o incentivo de troca de informações entre as empresas a partir daí? Com este infeliz movimento, a ANAC pode colocar a perder grande parte do que evoluímos em segurança: as empresas podem não mais reportar seus incidentes e os possíveis fatores contribuintes para um acidente futuro ficarão cada vez mais escondidos. Logo, a alta direção da aviação civil brasileira joga contra a prevenção de acidente (mais um fundamento que é desconsiderado).

Para a segurança de todos que utilizam o transporte aéreo, precisamos de:

  • paciência da sociedade na busca de respostas;
  • serenidade ao avaliar os fatores contribuintes e a responsabilidade dos envolvidos;
  • responsabilidade da imprensa;
  • ética dos profissionais nas declarações e opiniões sem embasamento;
  • maturidade de todos para que não troquemos os pés pelas mãos.

Caso não consigamos atingir este nível de maturidade, todos os dias pequenas falhas serão escondidas. Até que um dia elas se encontrarão na triste série de coincidência que chamamos de acidente.

Dan Guzzo, Piloto Comercial desde 1998
danguzzo@transportabrasil.com.br

Acompanhe Dan Guzzo no Twitter: http://twitter.com/danguzzo

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