O Paraná de difícil acesso

Para 33 mil paranaenses que vivem isolados em seis cidades desprovidas de asfalto só há duas alternativas: muita poeira ou muita lama

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eis cidades do Paraná não são servidas por estradas pavimentadas, conforme dados do De­­parta­mento de Estradas de Rodagem (DER). A falta do asfalto representa o isolamento de 33 mil paranaenses, habitantes de Doutor Ulysses, Mato Rico, Guaraqueçaba, Dia­mante do Sul, Campina do Simão e Coronel Domingos Soares. Eles dependem de estradas de terra para ter acesso ao restante do estado. No total, são 234 quilômetros de acesso difícil, perigoso, em que o tempo faz toda diferença. No melhor dos cenários, convive-se com a poeira que não cessa; no pior, a lama torna o tráfego impossível. Os números comprovam a falta que o asfalto faz.

Em dois índices de desenvolvimento recém-divulgados, pelo Instituto Paranaense de De­­senvolvimento Econômico e Social (Ipardes) e pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), as seis cidades estão entre as 100 com os piores indicadores. Pelo estudo do Ipardes, Guaraqueçaba e Coronel Do­­mingos Soares estão no grupo das 10 mais carentes. Doutor Ulysses fecha a lista, na lanterna do desenvolvimento. A cidade de 6 mil habitantes, localizada no Vale da Ribeira, tem nas lavouras de poncã e na extração da madeira suas principais e únicas opções de trabalho – à exceção dos pequenos comércios locais e da prefeitura.

As madeireiras apenas extraem o pínus ali. Devido a falta de infra-estrutura, o beneficiamento é todo feito em cidades vizinhas. “E aí ficamos com um porcentual pequeno do ICMS e com todos os ônus. Somos nós que temos de cuidar do trabalhador que se machuca. O acesso por carro fica horrível, já que a estrada de terra está repleta de caminhões carregados de madeira”, diz o secretário de agricultura do município, José Dalla Vecchia. Os 50 quilômetros de estrada de chão também complicam os plantadores de poncã, em desvantagem na comparação com os vizinhos de Cerro Azul, que estão mais próximos de Curitiba e têm asfalto até o principal mercado comprador.

“O contrário também é verdadeiro. As coisas chegam aqui mais caras. Pagamos R$ 2,20 num litro de leite que em Curi­tiba você encontra por R$ 1,70”, diz Dalla Vecchia. O DER afirma que finalizou o projeto de pavimentação de um trecho de 25 quilômetros. No entanto, não há previsão para o início das obras. “A gente sempre ouve falar nisso, do asfalto. Mas por enquanto temos que viver com esse poeirão, que, pelo menos, é melhor que a chuva. Se chove, ninguém vai ou vem. As crianças não vão para a escola. Não tem como ir ao banco ou ao posto de saúde”, afirma Valdo­miro Scham­berlain, 75 anos, que mora com a família e toca uma pequena venda no caminho para Cerro Azul.

Armadilha na pista

Também há projetos ou obras do DER em andamento em Dia­mante do Sul, Campina do Simão e Coronel Domingos Soares. Estão fora dos planos do DER: Guaraqueçaba, no litoral do estado, onde o acesso de barco já se consolidou como melhor opção de transporte, e Mato Rico, na região Centro-Sul. Para os quatro mil habitantes de Mato Rico, chegar e sair é um desafio. Quem tenta fazer o trajeto por Roncador enfrenta 22 quilômetros de estrada cascalhada em péssimas condições. Os animais na pista e os buracos impedem o motorista de ultrapassar os 40 quilômetros por hora. É comum encontrar ao longo do trecho veículos com pneus estourados e motoristas pedindo socorro.

Pela segunda alternativa, via Pitanga, o motorista encontra uma pista também cascalhada, estreita e acompanhada de precipícios dos dois lados, com curva de nível elevada e trechos de serra. Os buracos disputam espaço na estrada de 53 quilômetros. As armadilhas da estrada impedem que o motorista ultrapasse os 40 quilômetros por hora. Para quem não conhece os dois trechos, a viagem quase sempre tem parada na borracharia do Penga, no centro da cidade. “Não posso reclamar. Consertos de pneus e reparos mecânicos têm todos os dias”, conta o proprietário da borracharia, Marcelino Penga.

Contudo, se as péssimas condições dos acessos a Mato Rico dão lucro, também trazem prejuízos aos comerciantes e mo­­radores. “Muitas empresas se recusam a entregar mercadorias na cidade e, se entregam, cobram o frete muito caro. Por falta de asfalto o município não sai do buraco”, critica Penga. A cidade tem esgoto a céu aberto e não possui nenhum trecho de asfalto na área central. Os moradores sobrevivem de trabalhos informais e esporádicos na pecuária e na agricultura. O comércio gera cerca de 40 postos de trabalho e a prefeitura se tornou a maior empregadora do município, com 260 funcionários.

Uma parte do orçamento anual de Mato Rico, de R$ 8 mi­­lhões, é consumida pela folha de pagamento. “A cidade poderia estar melhor se tivesse acessos por asfalto, mas quem é o louco que vai se instalar aqui com as estradas nas condições atuais?”, indaga o secretário-geral do município, Valdomiro Ortiz. Ele não acredita que um dia a cidade possa ter acessos pavimentados. “Eu e uma boa parcela dos moradores não acreditamos mais na novela do asfalto, ainda mais depois de ouvir do atual governador que Mato Rico não precisava de asfalto, pois não possuía carros novos”.

Ortiz lembra que em tempo de chuvas fortes, o município fica completamente isolado. “Pela estrada que dá acesso a Pitanga, nem ônibus trafega. As correspondências dos Correios que são transportadas por ônibus, em períodos de chuvas, demoram cerca de 15 dias para chegar ou sair da cidade”. Além de não ter indústrias, a cidade nem sequer possui profissionais liberais. “Mato Rico não tem consultório médico particular, dentista, advogados, contador ou qualquer outro profissional liberal. Ninguém quer ficar ou vir para a cidade”, comenta Ortiz. (Guilherme Voitch e Dirceu Portugal-Gazeta do Povo – PR)

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