Interpretando Maquiavel para os negócios

As idéias de Nicolau Maquiavel transcritas no livro O Príncipe (editora Laselva, 2009) originalmente publicado em 1532, continuam atuais e podem ser interpretadas de várias formas diferentes. Algumas interpretações maquiavélicas criaram este termo, uma injustiça com este grande pensador

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Este trabalho iniciou-se com objetivos acadêmicos, mas um colega viu, gostou e insistiu para que publicasse. Aqui está:

As idéias de Nicolau Maquiavel transcritas no livro O Príncipe (editora Laselva, 2009) originalmente publicado em 1532, continuam atuais e podem ser interpretadas de várias formas diferentes. Algumas interpretações maquiavélicas criaram este termo, uma injustiça com este grande pensador. Mas prefiro trabalhar nas analogias que tais pensamentos podem refletir na vida corporativa atual.

A obra apresenta a política como uma arte na conquista e manutenção de poder. Fala como um príncipe deve se comportar e agir para tais conquistas (e como mantê-las), mas entendo que os ensinamentos podem ser traduzidos para os dias atuais com a visão empresarial na conquista e manutenção dos negócios.

Há quase 500 anos, Maquiavel escreveu:

Uma mudança sempre deixa lançada a base para o surgimento de outra.

Mas parece que nem todo mundo acredita nisso. A evolução (humana, científica e tecnológica) é um processo irreversível, quer queiramos ou não. Basta estudar um pouquinho de História e logo veremos que os avanços ocorrem um após o outro e atualmente numa velocidade incrível. O mínimo que temos que fazer é tentar acompanhar pelo menos as mudanças que nos cercam, pois mudanças são baseadas em informações e ainda geram mais informações e esta é (atualmente) a medida de poder, como apresentou Alvin e Heidi Toffler em Riqueza Revolucionária (editora Futura, 2007).

Então, o melhor a fazer é deixar de ser resistente quanto as mudanças e encarar a realidade, se atualizar e receber as novidades olhando o lado positivo, como novas oportunidades para aprender.

Há quase 500 anos, Maquiavel escreveu:

Um príncipe deve conquistar territórios, mas para não perdê-los logo, o melhor remédio é habitá-los.

No tempo de Maquiavel, as lutas por posses de terras eram intermináveis. Hoje as empresas buscam mercados para se manter, e a luta continua voraz. Mas infelizmente os casos de prejuízos, falências, golpes, frustrações, roubos em empresas, falta de ética, entre outros, também são heranças daquele tempo.

Segundo Maquiavel, isso ocorre, na maioria das vezes, por que o conquistador não habita o espaço conquistado, isso porque estando no local, podem-se ver nascerem as desordens, e rapidamente podem elas serem remediadas; mas não estando, delas somente se tem notícia quando já são grandes, e não têm mais remédio. Além disso, o espaço conquistado não é saqueado pelos seus funcionários; os súditos ficam satisfeitos porque o recurso ao “príncipe” se torna mais fácil, donde têm mais razões para buscarem o bem comum.

Claro que o empresário de hoje não pode estar em todos os locais ao mesmo tempo, mas ele pode e deve eleger “príncipes” capacitados e comprometidos com o negócio para que este esteja presente e sirva aos funcionários da empresa, evitando os problemas listados acima. Agora, não é só porque é príncipe que se deve promover o nepotismo, a menos que os herdeiros estejam na lista dos capacitados, comprometidos e conhecedores profundos do negócio. Não tendo estas características, o melhor sempre foi buscar executivos profissionais.

Há quase 500 anos, Maquiavel escreveu:

Muita fadiga para conquistar e pouca para manter.

Para ele, só existiam duas formas de conquistar e ter poder: por fortuna ou por virtude. Por fortuna, dizia ele, é fácil conquistar e difícil manter, pois nenhum principado comprado consegue se manter por longo período tendo que sustentar ao mesmo tempo o comprador e o vendedor, além dos sanguessugas que também ficam sabendo da transação. Ora, isso é mais que atual ! Quantas pessoas e empresas ainda sobrevivem com a política de “uma mão lava a outra” ? Ou conseguem penetrar num difícil cliente com um espião ou colaborador que tem os caminhos das pedras? Aliás, no Brasil, este mau exemplo vem dos que deveriam representar a população.

Conquistar por virtude é difícil, mas é mais fácil para manter. Maquiavel prova isso em vários exemplos de principados, principalmente quando seus príncipes habitam o espaço conquistado e se esforçam para ganhar a confiança e o amor do povo. Grandes imperadores (e empresários) são lembrados com louvor até hoje, príncipes guerreiros (e executivos profissionais) são referências em  batalhas (negócios) e soldados honrados (trabalhadores honestos) ganhavam as lutas por um ideal, influenciando a geração seguinte.

De um jeito ou de outro, aqui falamos de ética. E analisando nosso dia a dia, acho muito engraçado as escolas terem que ensinar a matéria Ética. Essa deveria ser a terceira palavra que um bebê deveria aprender: mamãe, papai e ética.

Há quase 500 anos, Maquiavel escreveu:

A um príncipe é necessário ter o povo como amigo, pois, de outro modo, não terá possibilidades na adversidade.

Em sua obra, Maquiavel mostra que os bons príncipes governam para o povo e dele obtém todo o apoio quando necessário, arriscando a própria vida para a do príncipe salvar ou em nome do principado. Atualmente, não precisamos mais de heróis, nem de um lado nem do outro, o que precisamos é de um relacionamento transparente entre as empresas e os empregados. Assim nas crises a compreensão do problema será de todos e todos lutarão juntos para reconquistar o que foi perdido ou nem deixar que se perca.

De nada vale tapinha nas costas dizendo que o funcionário é muito importante, se a primeira decisão diante de uma crise é corte de pessoal. Aliás, a crise de 2008/2009 mostrou bem que as empresas que simplesmente demitiram em massa, demoraram a recuperar (ou ainda estão em busca) seu mercado. As que usaram o diálogo para negociar internamente e buscaram redução de custos em processos onerosos, há muito tempo não vê crise financeira, pois tem um grupo comprometido com o objetivo comum.

Há quase 500 anos, Maquiavel escreveu:

Os capitães mercenários ou são homens excelentes ou não.

Se o forem, não podes confiar, porque sempre aspirarão à própria grandeza, abatendo a ti, que és o seu patrão, ou oprimindo os outros contra tua vontade; mas e se não forem grandes chefes, certamente te levarão à ruína.

Mais uma vez o autor mostra que se cercar de uma assessoria profissional é fundamental. Pagar bem pode significar manter o negócio funcionando nas mãos de pessoas satisfeitas e felizes, que conquistem seus objetivos pessoais sem precisar subtrair nada em momento algum de ninguém. Atualmente muitos empresários e executivos fazem uma pergunta: será que estão me roubando ?

Claro que esta deve ser uma preocupação, mas talvez esta questão pudesse ser respondida com outra pergunta que ele (o empresário) deveria fazer a si mesmo: será que tenho assessoria profissional e satisfeita? Se a resposta for positiva, muitos problemas da primeira pergunta nem passarão pela cabeça do dono do negócio.

Há quase 500 anos, Maquiavel escreveu:

Um príncipe que não entende de tropas, além de outros prejuízos, sofre aquele de não poder ser estimado pelos seus soldados nem poder neles confiar.

Um empresário ou executivo que não conhece seu negócio na totalidade e em profundidade e não tem uma assessoria adequada, viverá sempre desconfiando de tudo e de todos, mas nunca terá o respeito de ninguém. Não é possível que pessoas assim consigam dormir bem.

Como exercício contínuo, os empresários devem avaliar sempre se estão obtendo informações corretas e confiáveis de seus principais assessores e se estes estão alinhados com as metas da empresa. Parece algo básico, mas o que mais encontramos no dia a dia são empresários tomando decisões equivocadas baseando-se em informações duvidosas geradas por colaboradores descomprometidos com qualquer objetivo.

Há quase 500 anos, Maquiavel escreveu:

As execuções que emanam do príncipe atingem apenas uma pessoa.

Nesta passagem, Maquiavel fala sobre o que é melhor para um príncipe; ser amado ou ser temido, ser cruel ou ser piedoso, mostrando exemplos de crueldades de assassinos e ladrões que prejudicam a sociedade como um todo, enquanto as execuções ordenadas por um príncipe, que parece uma ato cruel, eliminam o mal pela raiz, atingindo uma só pessoa.

No mundo corporativo, as empresas devem agir da mesma forma, claro sem execuções na forca, mas identificando e excluindo (dispensando) aqueles colaboradores que não colaboram ou pior fazem com que outros também não executem suas funções. Não falo apenas de agitadores, falo principalmente daqueles que por não conhecerem suas áreas criam empecilhos para forjar sua fragilidade e apontar o dedo para outro problema, escondendo a própria deficiência de si mesmo e de seus superiores. Conscientemente ou inconscientemente,  estas pessoas  podem influenciar outros que o reconhecerão como “um cara esperto” e um modelo a ser seguido.

Quantas vezes sua empresa já parou para identificar estes verdadeiros artistas? O quanto sua empresa perde mantendo estes malandros corporativos?

Há quase 500 anos, Maquiavel escreveu:

Os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai que a perda do patrimônio.

Esta frase mostra o quanto somos apegados aos bens materiais. Se isso já era evidente há quase 500 anos, imagine hoje, com a humanidade ligada e querendo status com o último modelo de celular.

Há quase 500 anos, Maquiavel escreveu:

São de três espécies as inteligências:

  • uma que entende as coisas por si;
  • a outra que discerne o que os outros entendem;
  • e a terceira que não entende nem por si nem por intermédio dos outros.

A primeira excelente, a segunda muito boa e a terceira inútil.

Nesta definição de inteligências, Maquiavel entende que os príncipes devem escolher seus ministros não só pela classificação de inteligência, mas este item deve pesar muito mais que qualquer outro critério. Claro que inteligência aqui, não significa somente o QI, é muito mais que isso, trata-se de domínio do negócio, experiência, relacionamento e tudo que a administração moderna exige.

A obra ainda diz que para um que príncipe possa conhecer o ministro, existe um método que não falha: quando vires o ministro pensar mais em si do que em ti, e que em todas as ações procura seu interesse próprio, podes concluir que este jamais será um bom ministro e nele nunca poderás confiar.

Em nossa analogia, basta trocarmos príncipe por empresário e ministro por assessor (ou diretor ou gerente ou qualquer cargo de confiança). Não é o caso de pararmos e analisarmos a questão por este lado?

Há quase 500 anos, Maquiavel escreveu:

Bons conselhos devem nascer da prudência do príncipe, e não a prudência do príncipe resultar dos bons conselhos.

Nesta parte, Maquiavel fala dos aduladores. Ele defende que o príncipe deve estar sempre atento em busca da verdade, por mais dura que seja. Ser adulado (ou enganado) por conselheiros não lhe dará um bom Estado, pois as ações serão feitas sob influências errôneas ou maquiadas e isso pode levar à falência.

Em Português dos dias atuais, estamos falando dos famosos puxa-sacos. Estes agem na maioria das vezes ou visando o bem da empresa, por isso tem receio da verdade ou em benefício próprio, forjando informações para evitar outros problemas. Mas independente dos objetivos destes colegas influentes, a empresa deve eliminá-los, pois como disse Maquiavel, eles não ajudarão a empresa a enfrentar a realidade e isso só traz problemas.

Finalizando …

Não encontrei nenhuma coisa inédita ou algo que eu não sabia neste trabalho, mas fiquei abismado ao fazer analogias com práticas que existem há centenas de anos e perceber que mesmo depois de todo este tempo o homem ainda não aprendeu.

Abraços e até a próxima!

Anírio Neto é gerente de TI do Rápido 900
neto@transportabrasil.com.br

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