Necessária sim, mas não suficiente

Não se trata de resenha ou propaganda, apenas uma indicação de um bom livro para quem quer conhecer melhor as empresas que desenvolvem sistemas ERP e como estes sistemas são vistos no mercado

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Mais uma vez me atrevo a fazer comentários sobre um livro. Não se trata de resenha ou propaganda, apenas uma indicação de um bom livro para quem quer conhecer melhor as empresas que desenvolvem sistemas ERP e como estes sistemas são vistos no mercado.

Apesar de se tratar de uma visão americana, cabe muito bem para o caso brasileiro, pois como já alertei em artigo passado, tem muita gente enganando e se enganando com as promessas de milagres com estes sistemas fabulosos. Fabulosos sim, mas desde que sejam implantados da maneira correta e se saiba extrair o máximo deles. Senão, será apenas mais uma tecnologia Necessária sim, mas não suficiente, como é o título do livro, do autor-professor Eliyahu M. Goldratt, especialista na Teoria das Restrições e autor de outra obra famosa: A Meta.

Num determinado momento da vida da empresa desenvolvedora de software, ela se depara com uma crise existencial:

  • Ou 80% das implantações de seu ERP (famoso, forte, consistente, caro, completo, estável, rápido, etc.) não tiveram o êxito desejado pelos seus clientes
  • Ou 80% destas implantações não agregaram nada nas operações dos clientes e tudo continuava como era antes
  • Como crescer num mercado que já está saturado? Partir para outros tipos de clientes? Como?
  • Onde mais o ERP pode ajudar? Será que ele é tão completo quanto deveria ser?

Os executivos da própria desenvolvedora não conseguiam encontrar respostas para suas perguntas. Precisavam continuar mantendo o ritmo de crescimento dos últimos anos para não alertar os acionistas, mas ao mesmo tempo não viam como vender num mercado onde quase 100% das empresas já possuíam um ERP. Tentaram de tudo. Compraram empresas concorrentes, compraram soluções complementares, desenvolveram novas aplicações, mas cada ação surtia pouco efeito.

Começaram então a visitar seus próprios clientes e entender o porquê uma empresa comprava um ERP. Descobriram que muitas estavam frustradas, pois o sistema não atingia suas expectativas, o sistema fazia apenas o serviço burocrático andar mais rápido, mas não trazia benefícios diretos à lucratividade, que é o que todo empresário quer ver. Ouviram de muitos executivos que as últimas versões do sistema estavam lindas, com telas e painéis de informações sensacionais do ponto de vista tecnológico, mas pouco ou nada ligado diretamente ao core business de suas empresas.

Os desenvolvedores entendiam que:

  • Se o cliente não sabia analisar as informações e tomar decisões, que culpa eles tinham?
  • O pessoal deve ser treinado para analisar os dados, transformá-los em conhecimento e deste partir para estratégias. Uma velha tríade que todos já deveriam conhecer!
  • Teriam agora que além de desenvolverem o sistema, serem especialistas em negócios também?
  • O cliente estaria disposto a pagar por tudo isso ou entendia que isso deveria fazer parte do “pacote”?

Inteligentes e pressionados por Wall Street, os executivos da desenvolvedora de software mergulharam (com a devida autorização) nas operações do seu principal cliente. Estudaram pessoalmente cada etapa de cada processo. Entenderam como funcionava cada passo, desde a alimentação de suprimentos, produção, armazenagem, controle de qualidade, vendas, pedidos, carregamentos, transportes, entregas, pagamentos, etc. Todos os processos foram mapeados para cada tipo de produto de cada fábrica. Levaram um bom tempo fazendo isso, mas finalmente saíram desta imersão dominando muito bem o negócio do seu cliente.

Durante este período, o presidente da empresa desenvolvedora começou a estudar e se interessar pela Teoria das Restrições e algo começou a mudar em seu modo de ver os negócios.

O resultado não foi uma melhoria significativa no seu ERP. Na verdade, a solução que encontraram foi bem diferente. Descobriram que seu sistema realmente não ajudava muito na questão da lucratividade. Era um belo sistema eliminador de burocracia, e muito caro para fazer só isso. Por isso era tão difícil expandir seus negócios e quase impossível entrar nas chamadas pequenas e médias empresas. Observem que esta conclusão foi do próprio presidente da desenvolvedora de ERP.

Após estas conclusões, novamente os executivos entraram noutra imersão. Desta vez para criar um sistema com foco na lucratividade. Com uma visão totalmente diferente do que passaram a chamar de “simples ERP”. Para isso, buscaram apoio dos presidentes de empresas dos clientes principais, que os ajudaram com longas discussões e direcionamento do foco. Muito trabalho, pois tratava-se de uma revolução sobre um sistema revolucionário. O astral da equipe ora era baixo, pois a quantidade de trabalho era enorme. Mas em outros momentos, o astral era extremamente alto, pois as possibilidades também eram enormes.

Quando finalmente o módulo ficou pronto a implantação foi imediata naquele cliente da primeira imersão. Novamente os desenvolvedores voltaram a acompanhar o sistema em cada etapa e viram como a Teoria das Restrições aplicada em processo resolve questões ligadas diretamente a tal da lucratividade. A forma como a indústria produzia, estocava, transportava, vendia, ou seja, todos os processos foram alterados para um método mais simples e lógicos, gerando menores custos, melhorando a qualidade e principalmente, reduzindo os prazos de entregas, o que automaticamente aumentava as vendas e diretamente impacta na lucratividade.

As lições que este livro traz são interessantíssimas para quem quer implantar sistemas de forma correta e ter resultados reais. Se for só para dizer que tem a marca XYZ, o livro é dispensável. O engraçado é que a conclusão da história está no próprio título: Necessária, sim, mas não suficiente. O autor é no mínimo corajoso para afirmar que a tecnologia é necessária, mas pode não ser o suficiente.

Após uma boa leitura gosto sempre de fazer reflexões, para as quais também convido o leitor. Nestas análises, use a sigla ERP de forma mais ampla, pensando em todos os sistemas de sua empresa:

  • Todas as tecnologias que tenho na minha empresa são realmente necessárias?
  • Todas as tecnologias que tenho na minha empresa são realmente suficientes?
  • Meu ERP é apenas um despachador burocrático mais rápido que meus funcionários?
  • Meu ERP está ligado ao meu negócio? Impacta na minha lucratividade?
  • Estou entre os 80% de frustrados?
  • É certo pensar que um ERP trata de processos que são iguais em todas as empresas? Será que estes processos são realmente iguais?
  • Os conceitos que um ERP (famoso, robusto, completo, etc.) traz são fáceis de ser implantados? Qual o real valor disso?
  • É melhor ter sistemas especialistas ou ter um sistema com a Síndrome do Pato?

A obra praticamente disseca e diagnostica cada parte de uma empresa que desenvolve sistemas ERP e mostra o choque que seus executivos levam quando percebem que tudo que fizeram até certo momento, levou pouquíssimo valor real para seus clientes. Sabendo destas frustrações, seria inteligente que nós clientes saibamos fazer algumas análises mais profundas antes de escolher a marca A ou B.

Até a próxima!

Anírio Neto é gerente de TI do Rápido 900
neto@transportabrasil.com.br

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