Condição insegura no tráfego de veículos: sirene, buzina e silvo

São Paulo é a terceira cidade mais barulhenta do planeta. A legislação prevê que para 8 horas de exposição o limite máximo é de 85 dB.

Compulsão por velocidade
Retrospectiva 2011: segurança privada
Segurança privada e a distinção das Pessoas Portadoras de Deficiências

O tráfego nos grandes centros é confuso. Surgem os engarrafamentos, os transtornos dos momentos de pico, as agitações, a pressa, o estresse do dia a dia.

Além da condição insegura produzida por tudo isso, ainda surgem os ruídos que agitam e mobilizam todos os motoristas, usuários do transporte, pedestres e até aqueles que desenvolvem atividades dentro de escritórios, lojas, fábricas e residências. Estes ruídos são as sirenes de ambulâncias, caminhões de bombeiros, da polícia, etc. Sabemos que o trânsito é capaz de produzir ruídos que ultrapassam o limite recomendado pela legislação, podendo atingir 92 dB (decibéis) nos momentos de pico.

A legislação prevê que para 8 horas de exposição o limite máximo é de 85 dB

Na região da Avenida Paulista, em São Paulo, por exemplo, onde existem cerca de 33 hospitais, temos um movimento de ambulâncias de 13 veículos por hora e que nos momentos de pico, entre 16h e 17h, aumenta para 24 ambulâncias por hora.

No túnel do Anhangabaú, na mesma cidade, em determinados períodos do dia, a pressão sonora chega a 98 dB.

Sirene

O surgimento de ruído anômalo, estridente, irritante como da sirene de uma ambulância chega a produzir 90 dB. O ruído do caminhão dos bombeiros, 98 dB.

A condição insegura produzida em tais situações não se caracteriza apenas pela poluição sonora, mas pelo comprometimento dos motoristas, usuários do transporte, pedestres, enfim, de todos aqueles que estão naquela região que passam a manifestar sinais de ansiedade, nervosismo.

A situação chega a extremos levando o motorista muitas vezes a não saber como se conduzir. É o caso daquele que está posicionado em frente ao semáforo e logo atrás existe uma ambulância com a sirene ligada. O trânsito no sentido transverso não para, o motorista que está parado no semáforo não sabe se avança o farol ou se atravessa na faixa de pedestre onde passam pessoas. O estresse, a agitação provocada irá se exacerbar quando o motorista da ambulância começar a acionar de maneira intermitente a sirene, mostrando a sua pressa, ansiedade em ultrapassar o semáforo. Nessas condições, provavelmente o motorista do carro à frente agirá de maneira anormal, e com o raciocínio embotado pela tensão a que está submetido, adotará procedimento contrário às leis de trânsito.

Resolvemos então estudar a condição insegura observando não só a poluição sonora, mas também a tensão a que são submetidas as pessoas nos grandes centros.

Interessou-nos saber a necessidade da sirene estar acionada, o momento, o horário em que era usada, a pressão sonora desencadeada de todos os veículos equipados com sirenes e também o estado de ansiedade da população diante de tal situação e a indicação de seu uso.

A surpresa

Descobrimos que devido ao intenso tráfego de veículos na cidade de São Paulo, alguns equipados com sirenes as acionam independente de tratar-se de uma urgência ou não.

No Anhangabaú, região central da cidade de São Paulo, no horário de pico, 18h10, tivemos a oportunidade de constatar uma ambulância com sirene ligada conduzindo uma auxiliar de enfermagem. Não havia chamado a atender, não havia doente a bordo e nem médico. Posteriormente soubemos que a pressa para ultrapassar o engarrafamento era devido ao fato de estar terminando o horário de plantão daquela equipe.

Múltiplos foram os casos de sirenes ligadas em veículos da polícia civil e militar porque havia pressa dos motoristas e acompanhantes para chegar aos seus destinos, porém sem urgência para atendimento a qualquer ocorrência.

Tivemos oportunidade de observar ambulâncias, carros de bombeiros e de polícia percorrendo ruas da cidade nos períodos noturnos, sem trânsito, sem engarrafamentos e com as sirenes ligadas.

A lei do silêncio às 22h sendo desrespeitada a todo o momento

Descobrimos ainda que as sirenes eram acionadas como profilaxia de eventuais acidentes durante à noite. Alegam os motoristas que ninguém respeita a sinalização durante a noite. Diante de tal fato, andam permanentemente com as sirenes ligadas e desenvolvendo altas velocidades. Isto acontece independente de estarem ou não realizando alguma ação de emergência, transportando ou indo de encontro a uma ocorrência grave.

Chegamos ao absurdo de encontrarmos uma viatura do corpo de bombeiros na madrugada, às 4h45, com sirene ligada, indo buscar o chefe do posto em sua residência para mais uma jornada de trabalho.

Tais fatos mostram o abuso e não cumprimento a uma legislação específica que fala no uso de tais sirenes que é a lei do silêncio.

Como se não bastasse tudo isso, como desrespeito ao cidadão, à sua tranquilidade, ao seu sono, ao seu repouso, vemos tal fato como agressão à saúde de todos nós.

Sabemos que o ruído é capaz de provocar distúrbios emocionais e lesões do nervo auditivo, levando o indivíduo à perda auditiva irreversível, caracterizada pela gota acústica que encontramos na audiometria. Causa ainda tinitus (zumbidos), e a evolução da perda auditiva pode chegar à surdez. Tudo caracterizando doença evolutiva, crônica e incapacitante. Define o que chamamos de disacusia neurosensorial (perda auditiva induzida pelo ruído).

Sabemos ainda que as megacidades, como São Paulo, apresentam níveis de pressão sonora altíssimos, dia e noite, produzido essencialmente pelo seu parque industrial e pelo transporte. Tendo em vista ações das delegacias regionais do trabalho, os parques industriais diminuíram muito o ruído produzido, passando o transporte ser o principal agente produtor de pressões sonoras alarmantes. A população apresenta em consequência, de maneira geral, perda auditiva bastante significativa e que progride a cada agressão sonora, evoluindo consequentemente para a surdez.

São Paulo é a terceira cidade mais barulhenta do planeta

É hora de atuar de maneira preventiva evitando o dano acústico de toda uma população. O cumprimento à legislação específica e a fiscalização com multa por parte dos órgãos competentes, é certamente solução na prevenção à deficiência auditiva causada por tal condição insegura.

Campanhas intensivas de órgãos não governamentais de proteção à vida e ao meio ambiente precisam existir para que não seja esta população transformada em curto prazo em deficientes auditivos.

Cabe ainda à municipalidade a aplicação de campanhas intensas e permanentes de prevenção ao ruído.

Esse ruído é fator de risco concorrente para o maior desgaste físico e mental dos motoristas, usuários do transporte, pedestres e a população em geral. É agente de doenças crônicas, evolutivas e incapacitantes.

Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior, médico, diretor da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego)
drdirceu@transportabrasil.com.br

dr-dirceu2 Visite o perfil do articulista

É proibida a reprodução do conteúdo deste artigo em qualquer meio de comunicação,eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Portal Transporta Brasil. As opiniões emitidas nos artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião do Portal Transporta Brasil.

COMMENTS