Os riscos à saúde do motorista profissional

Para falar da saúde do motorista profissional precisamos mostrar o que é a atividade a que ele está submetido e como o seu organismo e o trabalho podem repercutir na saúde causando sinais, sintomas e doenças

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Para falar da saúde do motorista profissional precisamos mostrar o que é a atividade a que ele está submetido e como o seu organismo e o trabalho podem repercutir na saúde causando sinais, sintomas e doenças.

Preciso dizer que o homem na atividade de motorista é submetido a múltiplos riscos capazes de gerar doenças. O ruído produzido pela máquina supera muitas vezes os 85 decibéis estipulados na legislação. Nada se faz para dar proteção ao trabalhador, em consequência surge o zumbido, a perda auditiva, a surdez. São doenças de aparecimento silencioso, progressivo e incapacitante.

Interessante que após uma determinada perda auditiva que será medida por meio da audiometria, que por sinal não é obrigatória no exame de habilitação e renovação da CNH, o indivíduo será incapacitado para a função.

Sabemos que no transporte a vibração de corpo inteiro decorrente de efeitos dinâmicos, ajustes, falta de manutenção, vias com problemas estruturais vão concorrer para que este risco físico se intensifique.

Pesquisas feitas na cidade de São Paulo em linhas de ônibus urbanos mostraram que a vibração vai além do que determina a ISO 2.631 que estipula o máximo de 0,63 m/s² para jornada de 8 horas.

Sabemos ainda que a vibração é capaz de produzir variados sintomas como perda do equilíbrio, lentidão de reflexos, taquicardia, vasoconstricção, alterações na liberação de enzimas e hormônios, dor localizada e difusa, cefaléia (dor de cabeça), mal estar, tonturas, alterações da frequência e amplitude respiratória, falta de concentração, distúrbio visual e gastrintestinal, cinetose, degeneração de tecido neuromuscular e articular, desmineralização óssea e alterações cardiocirculatorias.

Nosso país, continental como é, com variações climáticas bruscas além de veículos com motores internos ou dianteiros, propiciam temperaturas elevadas e pouco toleradas pelo organismo. Em consequência logo surgem sintomas de maior fadiga, perdas líquidas e de sais minerais que comprometem o estado geral do trabalhador. Levam aos distúrbios cardiocirculatorios, irritabilidade, torpor, sonolência, perda da concentração e reflexos, etc.

Exposto aos gases, vapores, poeiras, uma atmosfera imprópria para o trabalho sem uso de equipamentos de segurança vão certamente concorrer para o surgimento de queixas. Citamos isso porque os produtos decorrentes da combustão dos derivados de petróleo são capazes de produzir doenças das vias respiratórias, circulatórias, da pele, dos olhos chegando à insuficiência respiratória e ao câncer.

O material particulado inalado leva a um verdadeiro engessamento dos pulmões advindo à incapacidade funcional do mesmo. Os gases, vapores, poeiras muitas vezes estão presentes no espaço confinado do motorista por ter o motor interno à cabine ou por defeitos na estrutura.

Tudo piora quando o transporte é de produtos químicos.

O turbilhonamento das poeiras nas vias lança no ar os microorganismos, ovos, cistos, larvas dos mais variados parasitos que poderão ser inalados, deglutidos e depositados na pele, roupas e na cabine do veículo.

A falta de manutenção do ar condicionado vai permitir o lançamento no ambiente do operador do transporte de microorganismos desenvolvidos no sistema de ventilação. A higienização precária da cabine aumentará o risco permitindo o crescimento de ácaros e outros organismos que vão gerar doenças. Com o transporte de carga orgânica se intensifica o risco de problemas infecciosos.

A postura, os movimentos repetitivos, o tempo de exposição nessa atividade tudo concorre para o aparecimento das doenças ósteoarticulares e neuromusculares. O trabalho repetitivo contínuo é capaz de levar as degenerações que em longo prazo irão ser responsáveis pela incapacidade para a função.

Além de todos esses riscos temos ainda o risco de acidente. A máquina fixa dentro da fábrica é perigosa, mas é controlada, tem sensores que a desliga automaticamente prevenindo acidentes. Nas vias a máquina é móvel sobre rodas e não tem o mesmo controle. As preocupações são múltiplas, envolvem usuário, carga, condição mecânica, pedestre, sociedade, violência urbana, tempo de deslocamento, condição da via e muitos outros fatores.

Preocupações as mais variadas interferem no trabalho do gestor de unidade móvel incluindo-se o estresse físico, psíquico e social. Não temos dúvida que o desgaste físico, psíquico e social vão além do limite de tolerância de qualquer atividade. Cumprem jornadas longas, condições de higiene quase sempre precárias, alimentação não condizente, obesos, com privação do sono, sem condicionamento físico, sem exames periódicos, mal remunerados, tudo concorrendo para que possamos afirmar que se trata  de trabalho extremamente penoso, onde o operador dá mais do que é possível numa jornada de trabalho.

Em decorrência de tudo isso surgem as doenças. Muitas vezes deixa-se de correlacionar sinais, sintomas e doenças à atividade profissional desenvolvida. Precisamos estar mais atentos, fazer profilaxia de todos os riscos, combate permanente aos atos e condições inseguras.

Dar  treinamento, educação continuada, palestra sobre a manutenção da saúde clínica e ocupacional. Instituir o laboratório do sono, ginástica laboral e redução do tempo de exposição a tantos riscos.

Precisamos discutir mais o assunto, buscar maneiras para dar maior  proteção e melhorar a qualidade de vida no trabalho do gestor de unidade móvel. Aqui neste espaço no Portal Transporta Brasil, trarei artigos que debaterão estes importantes assuntos.

Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior, médico, diretor da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego)
drdirceu@transportabrasil.com.br

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