O milagre da multiplicação

Pequenos números são a diferença entre o sucesso ou o fracasso de uma empresa aérea

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Um executivo de uma grande empresa aérea brasileira uma vez me falou que os números na aviação comercial são pequenos, mas os multiplicadores são enormes. Este ganho de escala transforma uma indústria, que a princípio pode parecer uma máquina de perder dinheiro, em um negócio rentável.

Em uma nova conjuntura, sendo o preço da passagem aérea encarado pela maioria dos usuários como um fator fundamental, as empresas devem cortar seus custos de forma a criar uma margem que possibilite um melhor gerenciamento das tarifas em seus voos.

Muitos usuários do transporte aéreo comentam, saudosistas, sobre a época em que o serviço de bordo era uma refeição assinada por renomados Chefs. Lamentam que passamos de pratos quentes às barrinhas de cereal e que “não custaria nada” oferecer um serviço de bordo melhor. Após as contas que faremos adiante, você verá que, se a empresa fosse sua, nem a barrinha de cereal embarcaria em suas aeronaves.

Tomemos como exemplo uma empresa que tenha 800 decolagens por dia (algo próximo do que Gol e TAM possuem cada uma hoje). Imaginemos que esta empresa consiga uma economia de R$0,50 em cada serviço de bordo oferecido a cada um de seus passageiros. Caso sua ocupação média seja de 100 passageiros por decolagem, ao final do mês teremos uma economia global de R$ 1,2 milhão (800 voos x R$0,50 de economia x 100 passageiros x 30 dias).

Nesta indústria se mantém a máxima de que tempo é dinheiro. Uma etapa de vôo entre Congonhas e Santos Dumont dura por volta de 40 minutos. Supondo que uma aeronave passe o dia inteiro operando entre estes aeroportos e se reduza o tempo de trânsito (tempo no qual o avião fica no solo) em 3 minutos, no final do dia, este avião conseguirá efetuar um voo a mais. Isto representaria um aumento de oferta de 365 voos em um ano, ou seja, mais de 50.000 assentos que poderiam ser vendidos, apenas para uma aeronave.

Além do aumento de oferta, a economia de combustível envolvida nestes 3 minutos é gigantesca. A unidade auxiliar de energia dos aviões, responsável pelo ar condicionado e eletricidade quando estes estão no solo, consome 90kg de combustível/hora. Em 3 minutos, teremos uma economia de 4,5kg a cada etapa. Se fizermos o mesmo cálculo realizado acima, ao final do mês esta empresa deixaria de consumir 108 toneladas de combustível (o equivalente ao consumo de 60 voos de ponte aérea).

Da mesma forma que a multiplicação de pequenos números pode salvar a operação de uma empresa, a perda de 3 minutos nos trânsitos ou o custo de centavos a mais no serviço de bordo podem levá-la a grandes dificuldades. É neste ponto que entra a importância da infraestrutura aeroportuária, de controle de tráfego aéreo e o alinhamento destes com os outros players da indústria.

O gerenciamento de fluxo de tráfego aéreo, quando mal feito, além de gerar atrasos na viagem do usuário devido ao maior tempo de vôo, representa um possível aumento no preço de suas futuras passagens. Aeroportos não funcionais, que aumentam o tempo de solo das aeronaves, custam muito mais caro do que apenas a insatisfação do passageiro. Logo, a eficiência das empresas fica comprometida caso o resto dos atores da indústria não as acompanhem. Daí a importância das empresas aéreas serem consideradas por estes órgãos como clientes, pois o negócio torna-se viável apenas se o sistema funcionar com uma série de engrenagens trabalhando juntas. Caso contrário, só um milagre pode salvar a nossa aviação comercial.

Dan Guzzo, Piloto Comercial desde 1998
danguzzo@transportabrasil.com.br

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