Crédito e emprego afetam financiamento de carros

O número revela tanto a fragilidade vivida pelo mercado de automóveis quanto os graves problemas da conjuntura econômica, o primeiro deles o crescimento do desemprego

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O estoque de carros recuperados de clientes inadimplentes nos financiamentos bancários alcançou cem mil veículos. O número revela tanto a fragilidade vivida pelo mercado de automóveis quanto os graves problemas da conjuntura econômica, o primeiro deles o crescimento do desemprego. No mercado, tamanho estoque significa pressão ainda maior sobre o estagnado setor de venda de usados, com todos os reflexos sobre a expansão sustentada de vendas de carros novos, pela crescente falta de liquidez para que o consumidor enfrente novas dívidas. É fato que há uma dúvida quanto à intensidade imediata dessa retomada dos bens, uma vez que os bancos que mais operam com esse setor informaram que o índice dessa recuperação oscila em torno de 25%, maior do que o registrado no terceiro trimestre do ano passado, enquanto os leiloeiros, que devolvem o bem ao mercado, insistem em que o índice de retomada é 50% maior na mesma comparação.

É fato que há uma significativa recuperação de vendas na indústria automobilística. Na primeira quinzena de fevereiro, foram comercializados 182,5 mil veículos, volume 8,3% maior que nos mesmos primeiros quinze dias de janeiro. Merece atenção que em relação à primeira quinzena de dezembro já ocorrera um aumento de vendas no setor de 1,2%. O susto registrado pelo setor se intensificou em novembro, quando as vendas despencaram 20,2% em relação a outubro. Em dezembro a queda nas vendas de carros continuou, com novo recuo de 1,3% ante novembro. As vendas de veículos comerciais leves, além das de ônibus e caminhões, cresceram na primeira quinzena de fevereiro 16,3% em relação ao mesmo período de janeiro e, o que é bem mais relevante, em fevereiro de 2009 foram vendidos 6,5% a mais de carros, ônibus e caminhões do que no mesmo período de 2008. Esses dados, da Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) indicam também que os grandes estoques acumulados nos pátios das montadoras, de 303 mil veículos em dezembro, tinham diminuído fortemente. O ritmo de produção no setor automobilístico ainda não foi recuperado para a reposição desses estoque, apesar da expansão das vendas de carros novos.

Não há dúvida de que tal expansão de vendas está vinculada às benesses conquistadas pelo setor. O fôlego demonstrado pelo mercado nos dois primeiros meses deste ano está ligado obviamente à redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) alcançado pelo setor. As montadoras, no entanto, já alertam que ocorrerá novo recuo nas vendas desde que a alíquota volte ao valor fixado antes de janeiro deste ano. Por essa razão, o setor trabalha com uma redução no número final de unidades vendidas neste ano. É cedo para uma previsão precisa, mas, dependendo da intensidade da crise e da recuperação do crédito ao consumo, é possível que o impacto negativo nas vendas de 2009 supere os 10% em relação a 2008. Em outras palavras, quando a bolha de expansão artificial das vendas passar, o setor voltará a enfrentar forte contração de demanda.

Os problemas no financiamento de veículos já era conhecido pelo Banco Central, que apontou inadimplência média de 4,3% em dezembro para esse segmento, o maior nível registrado desde 2002. Essa inadimplência tem reconhecida correlação com a expansão do desemprego, que atingiu 8,2% em janeiro, a mais alta desde abril de 2008, segundo dados do IBGE. Merece atenção que em dezembro o instituto registrou desemprego de 6,8%. A expansão de 1,4% no índice entre dezembro e janeiro foi a mais elevada na série histórica do IBGE, com o contingente de desocupados alcançando 1,9 milhão de pessoas. Entre dezembro e janeiro foram 353 mil pessoas a menos empregadas no País.

Frente a esse quadro conjuntural, é fato que as financeiras do setor de veículos evitam ao máximo retomar o veículo financiado. A renegociação é sempre melhor para o credor. Esse é o ponto que merece atenção. Se o banco ou financeira deseja a renegociação é porque sabe que o inadimplente enfrenta um problema de expansão de crédito. Nesse ponto está a verdadeira e duradoura possibilidade de ajuda ao setor que é tão importante para a economia nacional. No último trimestre do ano passado, os empréstimos para pessoas físicas caíram 4,9% em relação ao mesmo período de 2007. As restrições ao crédito atingem a comercialização de bens duráveis, automóveis em primeiro lugar. Não adianta o governo jogar o problema da queda de venda dos carros para debaixo do tapete com medidas artificiais que acabam no final deste mês. É preciso devolver capacidade de crédito para o consumidor. Como, aliás, os credores dos atuais financiamentos já perceberam.

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